17 março, 2011

MOINHOS DE VENTO



Quando, há tempos, chegou a vez de apresentar Descartes nas minhas aulas, decidi começar por falar de D. Quixote e dos seus famosos moinhos de vento. Eu tinha a noção de o D. Quixote ser aquele livro que, embora quase ninguém tenha lido, toda a gente conhece. Não foi por acaso que falei nele. Descartes, na brincadeira, claro, parte do princípio de que tudo o que vemos no mundo poderá ser fruto da ilusão, do sonho, da loucura.
Ninguém conhecia o episódio dos moinhos de vento. Fiquei em estado de choque. Ainda tive uma réstea de esperança: Sancho Pança? Sim?... Hello?
Não. Sancho Pança era-lhes tão familiar como Witold Lutoslawski e se eu dissesse que os moinhos de vento de La Mancha eram uma versão espanhola da nossa estação do Oriente, projectados por um arquitecto espanhol chamado Santiago Calatrava, ninguém iria reagir.
Há tempos, noutra turma, pedi aos alunos que me entregassem uns trabalhos por correio electrónico. Os professores, agora, são obrigados a serem modernos e fica bem no currículo dizer que se usam as novas tecnologias mesmo que os alunos possam não saber ler e escrever.
Na brincadeira, disse que não queria que me enviassem vírus. Um aluno, também na brincadeira, disse que iria mandar um “cavalo de Tróia. Eu, ainda na brincadeira, disse que não valeria a pena pois não tinha lá em casa nenhuma Helena para resgatar.
A brincadeira acabou ali. O aluno olhou para mim como se estivesse a olhar para um pós-estruturalista e eu, para o salvar, perguntei pela guerra de Tróia. Nicles. Ulisses? Nicles. Aquiles? Nicles. Eu, já desesperado, insisti:
- Mas sabe ao menos que raio de coisa é o cavalo de Tróia?
-Sei.
Animei-me um pouco - O que é, então? - perguntei.
- Um vírus.

Há quem chame a isto ignorância. A famosa ignorância da juventude actual. Tenho as minhas dúvidas e vou explicar porquê.
Se um português normal não souber o que foi a batalha de Aljubarrota, é ignorante. Todos os portugueses normais estudaram História e, se não sabem isso, não sabem uma coisa que seria suposto saberem. Pronto, é ignorância.
Se um estudante de arquitectura não souber quem é Nadir Afonso, é ignorante. Se um professor de Português, Filosofia ou Física não souberem coisas básicas relativas às suas áreas, são ignorantes.
A ignorância mede-se pelo grau de expectativas. Eu não posso considerar ignorante um agricultor que nunca ouviu falar de Descartes. Seria ignorante, sim, se não soubesse qual a melhor altura do ano para semear alfaces. Como seria ignorante um professor de Filosofia que não soubesse falar de Descartes.
O que se passa com os nossos jovens, actualmente, não é um problema de ignorância. É um problema de isolamento. Eles não podem saber aquilo de que nunca ouviram falar. Eles sabem cada vez mais o que nós não sabemos e o que nós sabemos eles sabem cada vez menos.
A culpa não é só deles. É dos pais, porque têm mais que fazer. Mas é também de uma escola que está em crise e que perverteu por completo a sua clássica função verdadeiramente formativa.
Por outro lado, os professores, numa escola que despreza o saber e o conhecimento acabam também por desvalorizar o saber e o conhecimento. Eu sou professor de Filosofia e não preciso de ler absolutamente nada para o poder ser. Não precisaria de ler mais nada para além da TV Guia para ser o professor de Filosofia que me pedem para ser.
É assim que as coisas estão e já deu para perceber que é assim que vão continuar a estar. E não é nada fácil lutar contra cavaleiros perigosos que gostam de se disfarçar de românticos e simpáticos moinhos de vento.

10 comentários:

estela disse...

:)) Zé, muito obrigada pelo post!
Li hoje, num outro blog de filosofia coisas sobre "conhecimento" e "partilha" que me deixaram desgostosa. Este teu post vem reconciliar-me com os profs de filosofia :))

Quanto à "TV-Guia" que há em todos nós, permite-me que acrescente um pormenor: o professor de filosofia que tu és ajuda-me a acreditar que nem tudo está perdido.

José Ricardo Costa disse...

Estela, eu continuarei a gostar de ser professor enquanto tiver alunos interessados. O problema está nos sanchos panças que planificam, mandam e decidem disfarçados de idealistas D. quixotes. Os nossos jovens são inteligentes, têm curiosidade, gostam de aprender. Mas é difícil resistir aos modelos de felicidade que lhes querem impor.

JR

Niagara disse...

Eu diria que é um problema de superficialidade. Os mesmos miudos que enviam os trabalhos por correio electrónico falam em gigas e não sabem o que é verdadeiramente um giga nem um tera ou um micro seja o que for, não distinguem um bit de um byte mas misturam-nos de acordo com a conveniencia da sonoridade, sabem o que é um cavalo de tróia mas não sabem o que é o cavalo de tróia, e se o assunto forem automóveis são capazes de dizer de cor o binário da bomba que o papá tem na garagem em Newtons por metro quadrado...
O problema é a superficialidade do conhecimento, e isso a mim diz-me que essa curiosidade que refere se satisfaz com demasiada facilidade sem ter as respostas a todos os porquês.

jrd disse...

Eu que estou para a filosofia, como qualquer carpinteiro dos nossos dias está para o cavalo de Tróia, seria capaz de dizer que o seu aluno sabe umas coisas…
Ou então, teria respondido que se tratava de um quadrúpede que pastava na “ilha” onde o grande merceeiro investiu o dinheiro que ganhou no “continente”…
Ao cabo e ao resto, isto anda tudo ligado: Cervantes deu um cavalo a D.Quixote e a Sancho, claro, uma mula. Além do mais, agricultores a conhecer Descartes, seriam muito mais perigosos do que professores de Filosofia a dissertar sobre a melhor época para se semearem as alfaces.

José Manuel Vilhena disse...

e também existem professores que com tanta grelha se esqueceram que a função da grelha é assar peixe...estou rodeado de grelhadores...que me assam os miolos...
e felizmente uma ilha ou outra nas quais se incluem os seus textos!
:)

josé manuel chorão disse...

Gostei.
E tambem gostei de imaginar a tua cara, surpreendido com a ignorância dos alunos.
A mim, a ignorância dos alunos não me surpreende, o que me surpreende é que te surpreendas com isso. Será porque ainda acreditas nos seres humanos? Deve ser isso. Eu, como já desisti da Humanidade...

Alice N. disse...

A escola moderna é mais adepta de moinhas e chicotes... Por isso vamos tão bem.

Fred disse...

Está excelente este texto!

Consigo imaginar algumas situações engraçadas que se devem de ter passado nesta sua aula...lol


Eu acho que ele devia de estar era a gozar, então quem é que não sabe o que é um Cavalo de Tróia? Feito de madeira e com pessoas lá dentro para a invasão.


Um abraço!

Rita TSBGC disse...

Feliz o Sancho, a Pança e Ignorança.
Feliz o que nada teme por não adivinhar adamastores ao virar de cada esquina.

Carla Teixeira disse...

Há dois tipos de conhecimento: aquele, que aprendemos por mera obrigação, e aquele que é movido pela curiosidade, portanto mais consistente.
No caso aqui, de quem é a culpa?? De um professor que não consegue despertar o interesse que uma turma leia D. Quixote, ( ainda que não faça parte do programa ) ou do aluno que não sabe falar do que nunca ouviu?
Só se aprende o que é ensinado.
Vamos parar de atribuir culpas, e apontar os erros. Só se cresce com aplausos de incentivo.
Se os jovens são inteligentes, têm curiosidade, e gostam de aprender...o que mais um professor poderia almejar perante características destas? Vocês, professores têm a faca e o queijo na mão. É hora de fazer acontecer!
Vamos parar de esperar que venha alguém de fora ou de cima resolver o que podemos resolver. Se cada professor fosse 1/10 do que o Zé é em sala de aula, não sei se teríamos uma sociedade inteligente, mas ignorante de certeza que não teríamos. E ainda por cima, feliz!!
Vamos olhar para a falta de conhecimento de um aluno, como uma oportunidade para mudar.