03 março, 2011

A IRA GENEROSA


No seu "Ensaios sobre Heidegger e Outros", Rorty escreve um capítulo intitulado "Heidegger, Kundera e Dickens". Expliquemos.
Diz Rorty que todo o filósofo tem dentro de si qualquer coisa de padre asceta, sendo Heidegger um bom exemplo disso. O que significa isso? Significa que o filósofo tem a obsessão da teoria e o desejo de impor um modelo de verdade, cristalizado num conjunto de ideias ou princípios teoricamente organizados que funcionam como askesis purificadora que lhes permite atingir um mundo apenas acessível aos filósofos.
Rorty, todavia, pretende opor ao gosto do padre asceta pela teoria e a abstracção, a narrativa, o pormenor, a diversidade, o acidente. E a quem recorre o filósofo americano para o fazer? A Kundera e à sua "Arte do Romance", ao romance enquanto utopia democrática.
Um romancista não teoriza, não constrói modelos abstractos que nos impõem uma verdade. O romancista limita-se a construir uma narrativa onde vamos encontrar uma multiplicidade de personagens que habitam certos contextos espácio-temporais nos quais desenvolvem acções.
No romance não vamos encontrar uma visão essencialista do homem, da vida, do mundo. Vamos encontrar, sim, Hamlet, o Quixote, Julien Sorel, Madame Bovary ou Ana Karenina. O romance mostra-nos a vida na sua pluralidade, na sua diversidade. O romance não nos diz o que é o homem. O romance narra as aventuras de Quixote em cima do seu esquelético cavalo. O romance não nos revela o homem: ri-se de um homem que podem ser todos os homens, ou seja, apesar da ficção, mostra-nos a vida como ela é. O romancista, neste sentido, deve ser um desmistificador, alguém que apresenta a humanidade na sua irredutível imperfeição.
Interessante esta passagem de Kundera:

"Flaubert descobriu a estupidez. Atrevo-me a dizer que essa é a maior descoberta de um século tão orgulhoso do seu pensamento científico. [... ] A visão de Flaubert da estupidez é esta: a estupidez não recua perante a ciência, a tecnologia, a modernidade, o progresso; pelo contrário, progride lado a lado com o progresso".

Mas não é só por um conhecimento mais próximo da textura da vida que Rorty valoriza mais o romance do que a teoria. A narrativa pode igualmente revelar-se mais eficaz para reformar o mundo do que a filosofia. E recorrer a Dickens como exemplo. A "ira generosa" de Dickens, livre de ressentimentos ideológicos e metafísicos, de obstinações sectárias ou de um desejo doentio por uma verdade sustentada racionalmente,  ao denunciar através do romance os brutais problemas sociais do seu tempo, fez mais pela reforma social e a humanização da sociedade, do que qualquer teoria metafisicamente sustentada, seja a teoria do "Homem novo" socialista, o "Proletariado", seja a "Abertura ao Ser" de Heidegger.
Os romances de Dickens dão-nos a possibilidade de uma identificação imaginativa com as suas personagens que terá muito mais valor do que qualquer livro teórico.  E diz Rorty que seria bem mais desejável que os líderes de revoluções tivessem lido mais romances e menos livros teóricos escritos por padres ascetas (como Marx, por exemplo, acrescento eu, que nem sequer tomava banho e tinha uma horrível doença de pele) que, nas suas ascéticas contemplações, construíram mundos ideais.
É capaz de ter razão.

6 comentários:

João Delicado sj disse...

Bem capaz de ter razão!
Tb tenho experiências de padres ascetas, e estes sem aspas... que falam de mundos que só devem existir no Céu...

JCM disse...

Se a narrativa é mais eficaz que a teoria para reformar o mundo, é porque terá maior capacidade de exercer atracção ou sedução. Sendo assim, também será, por certo, mais eficaz para o perverter. Portanto, a consequência lógica é que as maiores perversões do mundo se devem à literatura e não à teoria. Todo o argumento fica sem sentido, logo há que dizer que o pensamento de Rorty se resume a um não pensamento. Não chega sequer a acólito e, por isso, destila fel sobre os padres.

Anónimo disse...

Ricardo, muito bom. Gosto dessa visão de Rorty: largar o vicio de ficar teorizando, e começar a "desbanalizar o banal"(Paulo Ghiraldelli Jr). Penso que o papel da filosofia não é ficar criando e remodelando conceitos vagos (pois por ser formas são limitados e dão margens a preconceitos), a filosofia parece com essa "quebra da normalidade" e parece ainda mais com esse "mergulho no mundo", sem essa de ficar a procurar respostas em um tal "Além do mundo". Esse "desbanalizar" pode até ser um enxergar além do mundo, sem ficar preso a conceitos e escolas, é viver um "Amor Fati".

Hugo Perpétuo.

Anónimo disse...

Vejo assim estas coisas:
o filósofo ama a Humanidade, o romancista odeia-a.
O filósofo procura compreender a realidade, o mundo, as pessoas; e explica-as aos outros seres humanos, com o intuito de os ajudar a compreender.
O romancista está-se nas tintas para as pessoas; fecha-se no seu gabinete, sujo e barbudo, e inventa um mundo,lugares, situações e personagens que só existem na sua cabeça.
E diverte-se com isso, a vida para o romancista é o que ele imagina e escreve.
Só vende os livros - a pessoas que despreza - para poder pôr manteiga no pão que come.
Vivam, pois, os romancistas.
josé manuel chorão

Ega disse...

Ainda há dias o referi num outro espaço: uma vez li, já nem sei onde, que Lenine tinha afirmado que a leitura de romances amolecia a alma, pelo que o desaconselhava vivamente. Eu desde esse momento comecei a ler ainda mais romances do que nunca, aumentando consideravelmente a minha biblioteca .

Carla Teixeira disse...

O homem é do tamanho dos seus sonhos.
Não interessa se romancista, se filosofo.