29 março, 2011

FRAGONARD - L' ÎLE DE L'AMOUR ( LA FÊTE À RAMBOUILLET)


Cansaram-se de estar dentro do palácio e vieram até aqui. Eles gostam do palácio, claro. É o palácio que lhes dá a identidade social, que lhes alimenta a vaidade, o orgulho, a auto-estima como agora se diz. Mas o palácio é feito de gestos e expressões matematicamente estudados, de poses que por vezes têm a carga de um espartilho mental. O palácio representa a ordem, a hierarquia, um cosmos onde todos sem excepção sabem bem o lugar que ocupam. Um duque é um duque, uma condessa é uma condessa, uma açafata é uma açafata.
Entretanto, decidiram ir divertir-se para o jardim mesmo em frente do palácio. Mas também a geometria do jardim torna tudo previsível e mecânico. O velho e gasto labirinto já é percorrido de olhos fechados, já todos deram furtivos beijos e maliciosos olhares por todos os cantos e recantos do jardim e já todas as palavras foram ditas pelos bancos de pedra por ele espalhados. Depois, o jardim, embora bonito, não passa de um simples reflexo da natureza. Um jardim será sempre uma natureza domesticada, uma natureza projectada, estudada e construída à imagem e semelhança dos caprichos estéticos dos seus mentores.
Mas olhem para eles agora. Finalmente divertem-se. Descobriram a desordem de todos os imprevistos e aventuras. Onde estão eles a divertir-se? Já não é um jardim. Repare-se na imensa verticalidade verde e vegetal que os esmaga na sua humana pequenez. Há, neste local, uma escala natural que os transcende e remete para a sua finitude da qual nem sequer parecem ter consciência. Eles surgem aqui pequeninos porque se tornaram de facto pequeninos.
Esta verticalidade que aqui vemos é muito diferente da verticalidade de uma catedral. A catedral pode estar erguida para o céu, toda a sua marmórea linguagem apontar para o divino, mas uma catedral será sempre uma expressão da criatividade artística do homem. Uma catedral pode esmagar-nos mas não deixa de ser um artista, um arquitecto, um engenheiro e o trabalhos dos operários que nos esmaga. Mas todo este verde feito de luz e de sombras? Este verde é bem mais labiríntico do que o previsível e geométrico labirinto do jardim.
Eles, que brincam, não têm consciência disso. Mas se brincam desta maneira, longe da pose estudada do palácio, seja à mesa, seja durante a elegante dança, seja fazendo a corte, é porque já perceberam que estão fora do elemento humano, tendo entrado num reino vegetal cuja umbrosidade está para além de todas as convenções morais, religiosas, políticas e estéticas.
Nietzsche, na Origem da Tragédia, cita uma passagem de O Mundo como Vontade e Representação, na qual não consigo deixar de pensar sempre que olho para esta festa (ou será uma after party?): "Assim como no mar convulso que, isento de todos os limites, ergue e baixa montanhas de ondas uivando, um navegante se encontra sentado num bote, confiando no frágil transporte, assim se encontra, no meio de um mundo de tormentos, o indivíduo calmamente sentado, apoiado e confiando no principium individuationis".
E não é por causa do pequeno tumulto das ondas que aqui vemos que me lembro desta passagem. A analogia aqui não é em relação à água mas em relação ao verde, à imensidão da floresta que, embora os esmague (veja-se ainda aquelas árvores sobre eles que mais parecem uma onda gigante que os vai engolir) sem disso terem consciência, lhes dá uma sensação de abrigo. Ali, finalmente, exibem a sua espontaneidade, toda a sua infantilidade, todo o seu indisfarçável ridículo, sem qualquer receio de censura e punição.
Do mesmo modo que quase não os vemos nesta imensidão verde, de tão despercebidos que estão, também eles próprios sentem que aqui passam despercebidos. Tal como a Adão e Eva viveram sem a vergonha da sua nudez, também estes aristocratas vaidosos perderam a vergonha, surgindo aqui com uma individuatio cuja liberdade se encontra protegida pelo inumano rumor das árvores imensas, pela lógica das sombras, pelo suave murmulhar das águas, sobrepostos ao metálico som do cravo e ao adocicado som das cordas, pousados entretanto na sala de música.
A música agora é outra. Uma música que dentro em breve, ao regressarem ao palácio, irão de novo deixar de ouvir mas graças à qual irão ficar reconciliados consigo mesmos.

5 comentários:

josé manuel chorão disse...

Talvez eles estivessem fartos de ilusões e sentissem falta de um pouco de realidade.
Ainda que momentânea, a realidade será sempre a realidade (a servir em pequenas doses, obviamente...)

Alice N. disse...

Excelente olhar sobre o quadro. Todo um mundo, uma maravilhosa narrativa que confere maior dimensão humana às incertas figuras que ali vemos. Fiquei surpreendida e gostei muito desta leitura optimista. Eu só vi a desgraça i/eminente ou, pelo menos, a incerteza (há muitas razões para tal: entre outras, o céu é incerto - azul, mas com nuvens; na montanha que parece uma gigantesca e perigosa onda, adivinha-se uma figura monstruosa debruçada sobre o rio, de braços abertos, à espera... É certo que também poderão ser os braços que acolhem quem para ali vai, a entrada para um local de abrigo, um labrintinto natural, o refúgio de amores sinceros e distantes do artificialismo do palácio. E tanto mais...)

Fiquei com duas leituras do quadro, mas olhei de novo para o título: já não hesito sobre qual hei-de escolher. Prefiro finais felizes, sem dúvida.

Rita TSBGC disse...

O silêncio também pode expressar espanto !!!
( assim comento mais do que um post, numa economia de vocábulos irregular...)
From running away to just escaping!!!

Anónimo disse...

Mais uma de tantas belas "tiradas" do JR!
O ser e aquilo de que os nossos sentidos se apercebem!
Aprende-se sempre (ou recordamos outras vezes) algo com o meu amigo.
Abraço
jl

addiragram disse...

Acho que acabei de sair de uma aula que me deixou sem fala...
Vou ficar a saborear...
Um abraço!