22 março, 2011

FOLHAS E TRANSPARÊNCIAS

É muito interessante comparar as "Evas" de Cranach com as suas femininas figuras pagãs, como Vénus. Não se trata da pose, do modo como representam as suas acções ou de qualquer traço físico específico que as possa distinguir. Refiro-me apenas ao modo como as figuras que representam Eva tapam o sexo e as que representam Vénus o expõem.
Esconder e expor são dois movimentos opostos, e lá nisso a etimologia não engana. Parece, pois, existir aqui uma contradição nas acções de Eva e de Vénus. Mas no caso dos quadros de Cranach tal contradição é ilusória. Ambas são profundamente marcadas pelo mesmo pudor. O pudor com que Eva esconde o sexo no preciso momento da sua queda, é feito da mesma massa do pudor com que Vénus o expõe. Mas trata-se ao mesmo tempo de um falso pudor, um pudor cuja maior efeito será evidenciar o que é suposto esconder.
Depois da sua inocente nudez original, a nudez de quem vive sem ter a noção do bem e do mal, do pecado e da culpa, o sexo de Eva não volta a ser o mesmo. Mas repare-se no seguinte. Alguém vê Eva esconder o sexo? Quer dizer, um movimento intencional das mãos para ocultar o que, até ali, não era merecedor de ocultação? Não. Esconde-o, é verdade, mas como se isso fosse o resultado de uma distracção, de um movimento involuntário das suas mãos (ou das de Adão) que, por acaso, leva a que o seu sexo fique protegido dos olhares alheios. As folhas não têm aqui a função de uma peça de roupa que, como no Verão, não visa apenas proteger do frio mas ocultar as zonas íntimas do corpo. A folha é como uma simples sombra que por acaso atingiu aquela zona do corpo por uma fortuita sobreposição de ambas. Antecipa a futura vergonha mas como se estivesse ainda protegida dessa vergonha que irá marcar uma cultura na qual o corpo foi relegado para o campo do pecado.
Nós sabemos que a folha não está ali por um mero acaso. A folha está ali porque tem que estar. Mas, estando lá porque tem que estar, está precisamente como podendo não estar. Neste sentido, encontramos uma desvalorização da própria culpa. Uma desdramatização da culpa. Eva foi punida e condenada a uma consciência do pecado que não existia no estado original. Mas, assumindo essa culpa (Não se brinca com a ira divina), assume ao mesmo tempo uma jovialidade e descontracção que continua a remetê-la para o seu estado anterior. Eva já se encontra sob o olhar de Deus mas não na mesma posição das suas descendentes Sara, Marta ou Maria.
E Vénus? Vénus usa um lenço que tapa a zona pudica. O lenço não foi ali parar por acaso como parece acontecer com o ramo que tapa a zona´pudica de Eva. Há, portanto, uma intencionalidade e uma consciência do seu uso. Só que se trata de um lenço transparente. E o que está ali a fazer aquele lenço transparente? A proteger Vénus do frio? Certamente que não. Como peça de adorno? Não me parece, é demasiado transparente para adornar o que quer que seja, a sua transparência quase o torna invisível. Mas, sendo quase invisível, é suficientemente visível para sugerir a sua função de tapar o corpo. Mas, ao tapar o corpo, acaba por nada tapar. Ao fingir que tapa cumpre na perfeição a capacidade de mostrar. A sua quase absoluta transparência transforma-o numa espécie de segunda pele de Vénus e não como um elemento de bloqueio entre o seu corpo e os olhos que o vêem.
Se compararmos o que se passa nas consciências de Eva e Vénus, veremos que se passa exactamente a mesma coisa. Apesar da consciência do pudor, apresentam ao mesmo tempo um distanciamento sensual relativamente a esse pudor. Mas é precisamente essa consciência que aumenta a sensualidade. Ambas mostram o sexo, escondendo-o. Ou melhor, é a força do pudor que aumenta a tensão erótica dos respectivos quadros. Sem a folha e sem o lenço transparente teríamos duas representações do corpo completamente distintas.
Neste sentido, o que faz Cranach é tornar estas duas mulheres irmãs. A bíblica Eva e a pagã Vénus, são ambas filhas de uma mesma consciência ao mesmo tempo inocente e sedutora.
Eva e Vénus, nos quadros de Cranach, não se podem confundir com referências especificamente judaico-cristãs ou gregas. Eva e Vénus representam aqui uma força antropológica bem mais intensa: a própria doce e amarga tensão entre natureza e cultura.

3 comentários:

irene disse...

Obrigadinha José! É muito bom! Evidentemente, não estou especializada nestas coisas, mas tinha na Universidade algumas cadeiras de Arte e agora também tenho. Obrigada e com certeza vou seguir a ler este blog tão interessante. irene

C. disse...

Adorei estas Vénus e Evas cheias de pundunor e sedução – mas parece-me que a questão é saber se TUDO (toda a verdade) está ali. Nas obras de arte como na arte delas (em revelar e esconder :-))).

Cá para mim, jrc, é ainda a demanda dos ideais (ou DAS ideais). Se a natureza ama esconder-se, e a verdade do ser só pode “roubada” à ocultação, seguramente que haverá muitos ladrões cuja ideia peregrina é a de conhecer a alma delas, roubando-a.

C. disse...

desculpem uma gralha - é pundonor.