27 março, 2011

DOS CONSERVADORES (APENAS UM PRETEXTO PARA LEMBRAR QUE MUDOU A HORA)



Este blogue começa sempre por dizer que nada há mais livre do que um relógio parado. Este pequeno vídeo (que descobri aqui), apesar de mostrar a fabricação de um relógio, o instrumento por excelência que impede a paragem do tempo, não desmente a ideia.
Vemos aqui o nascimento de   um relógio moderno. Uma beleza de relógio e tecnologicamente sofisticado. Mas é um relógio ao mesmo tempo artesanal, um relógio feito por mãos, mãos vivas e modernas, mas que poderiam ser  as mãos de um relojoeiro do século XVIII, a sua carne, ossos e tendões. Um relógio cujos ponteiros irão andar e marcar sem qualquer misericórdia o fluxo contínuo do tempo, mas que é feito como se o tempo tivesse parado num tempo que nem é nosso, nem do passado, nem do futuro. Como se os mesmos pares de mãos, que também poderiam ser as mãos de Tales, de Roger Bacon, de Leonardo, de Galileu mas também de Rafael, de Miguel Ângelo ou de Rembrandt,  fossem atravessando os séculos e apefeiçoando o mesmo relógio ao longo do tempo.
É por isso que o tempo deve ser ao mesmo tempo revolucionário e conservador. O tempo é feito de superação e conservação. Hegel, o grande filósofo alemão do século XIX traduz essa ideia através de um conceito: aufhebung.
A história é feita ao mesmo tempo de superação e conservação. Tal como nós. Nós fomos crianças e adolescentes antes de sermos adultos. Hoje somos adultos. Mas não deixámos de ser quem fomos só porque já não o somos. Olhamos para uma fotografia nossa, com 5 anos, na praia. Quem é aquela criança de 5 anos? Olhamos para o espelho que está em frente e olhamos para aquele fotografia e não parece a mesma pessoa. Mas é a mesma pessoa. Aquela criança somos nós, nós somos aquela criança. E com a história e com o tempo é a mesma coisa.
É por isso que os revolucionários que querem matar ou iludir o tempo passado não passam de fanáticos tresloucados. Os revolucionários franceses do século XVIII até inventaram um novo tempo, um novo calendário, como se não existisse tempo antes do verdadeiro tempo por eles criado.
Há uma sabedoria no tempo, uma sabedoria na repetição, uma sabedoria na rotina que jamais deverá ser desprezada. Contrariamente ao tempo profano que é um tempo linear, feito de sucessivos e irrepetíveis instantes que se perdem no nevoeiro do passado, o tempo sagrado é circular como um carrossel, um tempo cujos pontos não se dispersam, voltando sempre ao mesmo ponto axial.
É por isso que este pequeno filme é maravilhoso. Está cá o tempo, o futuro, o que teria que vir mas, ao mesmo tempo, está cá o que sempre houve, a beleza das mãos criadoras e de uma inteligência de quem viveu muito antes de nós e que nós nos limitámos a herdar. E a melhor homenagem que podemos fazer a todos os que viveram antes de nós, é fazer o que eles também fizeram. Para que os que vierem a seguir tenham igualmente a possibilidade de o fazer.
Quem não percebe isto não percebe nada. Infelizmente, o mundo está cheio de pessoas assim.

7 comentários:

José Manuel Vilhena disse...

a hora pode mudar...que o prazer de o ler é inalterável!
Às vezes penso que é indecente vir cá saborear a prosa e as ideias e quase nunca deixar comentários...egoísmo e preguiça em doses iguais...
:)

jrd disse...

Excelente.
Afinal os Consevadores sempre mudam qualquer coisa.
Talvez reinventar a roda...

Carla Teixeira disse...

Em homenagem a esses mestres, deu-me agora uma vontade louca de usar um relógio de corda e ouvir o tic tac que vem da parede.

Agora lembrei-me de uma coisa que já nem sei se existe...a sirene que tocava ao meio dia por Torres Novas inteira ehehe Isso era mesmo fantástico!

Quanto ao resto do texto não concordo em alguns pontos, mas também não consigo contra argumentar! ehehe

Fred disse...

Eu por vezes também desejava que o tempo voltasse para trás mas que eu tivesse os conhecimentos de actualmente!

Inventem lá mas é uma máquina do tempo!


Um abraço!

παναγιώτα disse...

Desde ontem que vi este post fico a pensar...
É dos mais interessantes textos que eu li ultimamente, e não digo assim por gentileza! Concordo quase absolutamente consigo mas isto não importa, o que mais me fascina são as ligações que faz entre os pensamentos. O que é mais importante (para mim) aqui é descobrir cada vez uma maneira de pensar nas coisas diferente daquela que eu tenho, poder olhar para o mundo desde uma perspectiva mais, pouco a pouco completar a sua imagem. E por isso sinto-me muito feliz que posso ler e (quase) perceber o que escreve.
Muitas vezes quero comentar mas não sei nem o que dizer nem como o dizer...
Pois, obrigadíssima por esta leitura, ofereceu-me muitas coisas para pensar! E acho que era imprescindível «roubar» o video! :)
Tenha uma boa noite!

Panaghiota

(peço desculpas pelo meu português, que não é nada bom para aparecer neste blogue mas queria mesmo agradecer-lhe!)

José Ricardo Costa disse...

Panaghiota, jamais digas que te vês grega para entender o português! Muitos parabéns, escreves como se fosses portuguesa.

JR

Fred disse...

Panaghiota, de facto, o teu português é melhor que o de muitos portugueses.

Não tens nada que pedir desculpa.