13 março, 2011

A DIVINA TRAGÉDIA



No Público de ontem vinha uma reportagem sobre dois colégios de Coimbra e um da Anadia, onde desde o 5ºano as crianças têm aulas de Latim, Grego e Cultura Clássica. Parece que os miúdos adoram, tratam os deuses gregos por tu e conhecem por dentro a origem das palavras que muitos séculos depois usamos para falar. E fala-se dos benefícios (óbvios) dessa aprendizagem na sua formação intelectual e cultural.
Nos últimos anos temos vindo a assistir a uma trágica desvalorização das humanidades no ensino secundário. Importante são os computadores, a Matemática, as Ciências, o Inglês (mais técnico do que literário, naturalmente). Os alunos mais inteligentes são os que vão para Medicina para andarem 6 anos a estudar ossos, músculos e diarreias. Um aluno que hoje mostre preferir História ou Literatura é visto pelos pais como um caso perdido e um futuro desempregado. O grande drama do ensino está nos falhanços da matemática, e basta equipar as escolas com computadores e projectores para transformar uma sala de aula num viveiro de futuros génios que irão dar grandes alegrias à pátria. Os professores podem ser ignorantes, que isso não é problema. O bom e competente professor, como um empenhado ratinho numa gaiola de Skinner, é aquele que reúne muito, preenche muitos papéis, faz muitas actividades e desenvolve as suas competências científicas e paixão pelo saber em inúteis acções de formação.
A culpa é de todos os iluminados tecnocratas que há anos têm vindo a contribuir para destruir os alicerces de uma educação que funcionava bem e que apenas tinha que ser adaptada aos novos tempos. Mas foi com o engenheiro das belas casas da Guarda, com a socióloga Rodrigues e com o execrável Valter Lemos que a coisa bateu no fundo.
Há um homem que, no século XX, partindo de dois filósofos conservadores e reaccionários, Herder e Vico, lutou como poucos contra a redução das ciências do espírito e de qualquer planificação social e política, a esquemas conceptuais e racionais das ciências da natureza: Isaiah Berlin. Admirador de Voltaire, escreveu no entanto como poucos contra o poder nefasto que terá para a vida das pessoas, toda e qualquer tentativa de reduzir o homem, a sociedade, a educação, a felicidade, a vida em geral a modelos inspirados nas ciências da natureza, tendência clara desde o Iluminismo francês e exacerbada com o positivismo do século XIX.
Temos estado a pagar muito caro essa obsessão. Resta saber até quando. Certamente que, enquanto formos pastoreados por iluminados engenheiros que se hipnotizam com Magalhães como as melgas com as lâmpadas, e que encaram a formação de um jovem como um processo eminentemente técnico-profissional, irá ser durante muito tempo.

3 comentários:

josé manuel chorão disse...

Tens toda a razão.
E esta cultura tecnológica, científica, conduziu-nos onde? À porcaria de sociedade que temos.
Esquecer os valores, as Humanidades, os clássicos, deu nisto.
Eu, dos filhos que cá tenho, consegui que um deles seja um apaixonado das literaturas, dos clássicos, das humanidades. O outro é virado para as tecnologias, para os racionalismos científicos, isto é, um futuro empregado. Mas, como pai empenhado, ainda não desisti dele. Ele há-de cair em si...

Carla Teixeira disse...

O problema não está na educação das escolas. Essa vai obedecendo regras e de uma forma geral cumpre-as bem.
O problema vem de casa. Um pai querer que um filho vire literário ou científico, ou sei lá mais o quê...só vai fomentar possíveis frustrações. Um filho tem que seguir o que quiser. O papel dos pais é ensinar e orientar valores, fazendo com que eles consigam determinar as suas escolhas profissionais sem culpa e fora dos modismos.
Um pai literário vai lamentar de ter um filho eletrônico- científico??? Vai achá-lo um coitadinho sem sucesso profissional por adorar história ou filosofia????
Uma sociedade feliz, começa no prazer que cada um tem em fazer o que mais ama.
Saber respeitar escolhas e valorizá-las será o começo para esvaziar clínicas psiquiátricas.
Um cidadão feliz, aprende. Se aprende, ensina. Ensina ao colega, ao primo ao vizinho.
Vamos lá tentar ser um pouquinho mais leves.
Quando um professor de matemática consegue fazer com que a turma inteira reprove, onde está o erro? Serão os alunos burros, ou temos aqui um professor infeliz e frustrado? Até é capaz de se defender dizendo que matemática é difícil...Matemática é difícil, quando não ensinam a raciocinar. Talvez se ele fosse outra coisa qualquer, com certeza seria mais útil. Feliz. É só isso que importa. O resto é consequência.

Rita TSBGC disse...

A ciência é uma ficção, uma ficção na qual convencionámos acreditar como se de uma crença religiosa se tratasse.
A Ciência, como a verdade, é efémera, os pré-galileu não acreditavam em mentiras, acreditavam na porção de conhecimento disponível na época.
Em quantas "verdades temporais" acreditaremos nós hoje ?