12 março, 2011

CARNE E OSSO


Philip Roth no seu melhor.
A coisa começa com o enterro do protagonista. Depois, através de uma analepse in ultima res, vai reconstruindo momentos marcantes da sua infância, juventude e vida adulta, sugestivamente mescladas.
Esta analepse tem um impacto extraordinário na percepção do protagonista. Como disse, começa com o seu enterro. Começar por conhecer uma pessoa através do seu enterro é uma abstracção. Um morto é uma entidade abstracta, vazia, o resto de alguém que foi um ser humano. 
Mas graças à analepse vamos encontrar uma espécie de ressurreição, um morto que é restituído à vida. Mas trata-se de uma ressurreição na qual se perdeu toda a inocência. Iremos ver o protagonista vivo, é verdade, seja criança, jovem, casando, tendo filhos, nadando na praia ou fornicando com a secretária no chão do escritório, mas sempre com a sombra da morte presente, uma mancha colada à sua existência. Nós estamos a vê-lo vivo, e bem vivo, mas, ao mesmo tempo, estamos sempre a vê-lo morto. E os sinais da morte estão lá sempre, ainda que bem disfarçados. 
A partir daqui percebemos que todas as suas seguranças, porque tem um pai, porque tem uma mãe, porque tem um irmão mais velho que o protege, porque tem um bom emprego, porque conquista facilmente as mulheres, porque tem uma filha que o adora, são falsas seguranças. Porque, no fundo, é sempre a morte a ter a última palavra. Mas, ainda antes de morrer, porque se envelhece e a velhice é lixada ( "A velhice não é uma batalha; a velhice é um massacre.") enquanto antecâmara da morte.
Vemos toda a sua vida com a ave de Minerva sempre sobrevoando a sua cabeça ainda que não tenha consciência disso. A analepse de Roth permite entender que, de facto, o verdadeiro é mesmo o todo e que antes do todo se vive na ilusão de um falso absoluto.
Lê-se em dois ou três dias.  Especialmente aconselhável a todos aqueles que abandonam os pais nos lares e que só vão visitá-los uma vez por ano, no Natal, para depois poderem dormir os restantes 364 dias do ano com a consciência tranquila. Esquecendo que cada velho é uma criança que foi, cada criança é um velho que será. Bem mais cedo do que se pensa.

6 comentários:

Fred disse...

Essa é que é uma grande verdade!

A velhice é lixada!

E ainda se torna pior se abandonarmos as pessoas.

Eu infelizmente já não tenho avós ainda vivos, mas nunca me esqueci deles enquanto os tive.

Todos nós havemos de passar por todas as etapas da vida.


Um abraço!

josé manuel chorão disse...

É isso mesmo a vida: uma caminhada, solitária, com a morte às cavalitas. A morte é o momento mais solitário da existência. Talvez por isso tenhamos amores e amigos - para esquecer, por momentos, esse instante que nos aguarda.

Margarida disse...

http://www.youtube.com/watch?v=UKM8eya_jnM&feature=related

Trailer do vencedor da Palma de Ouro em Cannes em 1983 (ano em que o vi pela primeira vez, de facto)
Narayama.Bushi.Ko - A Balada do Narayama -, que trata este tema, mesmo que sob uma outra perspectiva, histórica, cultural e geográfica mas, no fundo, sempre o mesmo drama humano.

marteodora disse...

Li-o no ano passado. Um dos melhores que li nos últimos tempos.
O Roth, não só nesta obra, trata a morte e o envelhecimento sem rodeios. Aprecio-o por ser tão realista e, às vezes, tão cru!

παναγιώτα disse...

Quase um mês depois do post, quero apenas dizer que este seu texto fez-me buscar e ler o livro! Acho que a culpa era da última frase: «Esquecendo que cada velho é uma criança que foi, cada criança é um velho que será. Bem mais cedo do que se pensa.»
Então, muito obrigada! (Adorei o livro, claro está!)

panaghiota

José Ricardo Costa disse...

Panaghiota, fico muito contente por ter dado uma boa sugestão. Boa semana.
JR