01 março, 2011

A ARISTOCRACIA DO SILÊNCIO

Candida Höfer

Há dias, num concerto, apanhei atrás de mim um tipo que mandava uns assobios que quase me perfuravam os tímpanos. Fazia-o porque muito provavelmente é suposto poder fazê-lo num concerto de música Rock. Como bater palmas ou cantar quando apetece, ou gritar, uivar ou balir. Num concerto de música clássica, pelo contrário, as pessoas terão que estar em silêncio e só deverão bater palmas nos momentos determinados para o fazer. É a diferença entre a barbárie e a civilização. Há anos li uma entrevista com um pianista, não me lembro quem, que falava do suplício que foi ter tocado em Portugal pois só ouvia pessoas a tossir.
Lembrei-me dos assobios do meu vizinho de trás por causa do que se passa actualmente com as bibliotecas. As bibliotecas actuais, sejam escolares, universitárias ou públicas estão transformadas numa espécie de salas de convívio onde quase tudo se faz menos ler. O barulho é tanto que chega a ser quase insuportável. Muito provavelmente será um novo conceito de biblioteca: uma biblioteca onde não se lê. Onde se convive, onde se usam computadores, onde se vêem filmes, onde se fala ao telemóvel, onde as pessoas se reúnem, onde há actividades, mas onde praticamente não se lê.
Este morte do silêncio na biblioteca representa um enorme retrocesso civilizacional e o fim de uma  das mais importantes diferenças entre o homem e a natureza. A natureza é exuberante em tudo, incluindo os sons. O silêncio humano, pelo contrário, é uma expressão do respeito pela liberdade individual do outro. O silêncio é um nada que se instala entre mim e o outro e que permite a cada um de nós uma capela mental que é só sua. Isso é válido numa biblioteca como é válido numa igreja, num velório, num restaurante, num café onde se lê o jornal de manhã ou na piscina de um hotel.
Na biblioteca o silêncio tem um significado ainda mais especial porque, sendo um espaço de leitura, permite a cada pessoa a conquista de um espaço espiritualmente sagrado  onde ninguém entra. Se alguém fala, tosse, ouve música ou o raio, isso significa que a redoma de vidro a que tenho direito fica conspurcada pelos sons de pessoas que, tal como os cães, os gatos, os símios, o vento, a chuva e os trovões, não os conseguem controlar.
É por isso que o silêncio da biblioteca é aristocrático. Obriga a uma elevação, a uma disciplina, a uma contenção de impulsos, a um controle do corpo (mesmo a nível motor) que pressupõe uma elevada educação. Coisa que está muito longe de acontecer nas actuais escolas e bibliotecas públicas, espaços onde o barulho que se tornou regra acabou por se tornar numa expressão exterior do próprio barulho interior. O barulho exprime uma ausência de vida interior. Falar, neste sentido equivale a uma corrente de ar: sente-se, dá-se muito por ele, pressente-se uma massa ar em movimento mas, ao mesmo tempo, revela uma total vacuidade.
Nas velhas e clássicas bibliotecas ainda não infectadas pela flatuência sonora dos novos selvagens, ainda se  pode ouvir os tacões das senhoras que deixam um rasto sonoro pela sala. Mas trata-se de um rasto que acentua ainda mais o silêncio da sala. Quando estamos envolvidos no silêncio total este deixa de ser silêncio pois o silêncio faz esquecer o silêncio. O som dos tacões, por sua vez, um som feito de um ritmo matematicamente aveludado, é um modo de podermos ter a consciência do silêncio e do seu valor. Nesse sentido, o próprio andar das senhoras tem um elevado valor pedagógico, devolvendo-nos temporariamente, ainda que de um modo suave e eufemístico, à realidade.
O século XX, como alguém disse, foi o século do povo tal como Nietzsche o previu, contaminando todas as esferas da sociedade. A escola e as bibliotecas escolares e generalistas foram algumas das principais vítimas dessa invasão. Neste sentido, a Revolução Francesa quase pode assumir um valor paradigmático: Luís XVI ficou sem cabeça mas as cabeças que vieram substitui-lo também não foram grande coisa.

10 comentários:

Margarida disse...

Gosto muito.
Disse tudo.
Adoro o silêncio.

jrd disse...

Ah! Estes passos em volta do silêncio.

O pianista a que se refere é Keith Jarrett.

José Ricardo Costa disse...

O KJ? Logo ele que se farta de gemer enquanto toca. Eu ia jurar que era um pianista clássico. Obrigado.

Anónimo disse...

Totalmente de acordo.
As bibliotecas foram invadidas por selvagens que fazem tudo menos ler. Provavelmente porque não sabem fazê-lo.
A Civilização está possuída por bárbaros, a começar pelos que desgovernam o país.
O que fazer? Continuar a ignorar?

josé manuel chorão

Carla Teixeira disse...

AHHAHAHAHHAHAHHA gemer e contorcer AHAHHAHAHAHAHHA DEMAIS, n aguento de tanto rir. Zé, vc é demais rsr

Rita TSBGC disse...

O ruído impede o abismo do pensamento.
O ruído entretém as almas enquanto os demónios as privam do bem.
( juro que não pertenço a nenhuma seita dos últimos dias)
O silêncio germina a tensão que conduz à transformação, ninguém quer tais disparates, enquanto estiverem cheios os escaparates, promove-se o barulho, visual, moral, sonor, estético, adormecem-se os sentidos e os larápios rodopiam animados.
( já aora concertos de Rock em modo sentado são tão bizarros como bibliotecas ruidosas.)

Ana Paula Sena disse...

Logo eu, que adoro o silêncio. É um mal dos tempos que correm - esqueceu-se o encanto do silêncio. E os benefícios de toda a disciplina que envolve...

Agora... eu tinha pensado ficar em silêncio (tema da minha predilecção), mas, nesse caso, não poderia comentar o seu interessante discorrer :)

Uma parte da tremenda beleza do silêncio reside em podermos quebrá-lo.

José Manuel Vilhena disse...

Eis um texto que me tira do silêncio com que o tenho lido nos últimos tempos. Brilhante e “Para memória futura”, para que conste que não somos todos artistas de circo…embora nada tenha contra este espectáculo.

:)

m.a.g. disse...

Pois é, o silêncio devia ser até de platina.
Para além dos ruídos que mencionou, acrescentaria os ataques de tosse. Muito tosse esta gente quando o silêncio se anuncia. É exasperante!
E atenção, que os virtuosos como o Jarrett ( que por sinal é também "claássico"), gemem e cantarolam. O Gould, entre outros, farta-se de o fazer.
Já agora:
http://www.youtube.com/watch?v=pxNLXSOi82k

http://www.youtube.com/watch?v=rSbX6o3Z6xs

http://www.youtube.com/watch?v=buq-p8vSCLQ

José Ricardo Costa disse...

m.a.g., obrigado pelas excelentes sugestões musicais. Eu conheço o percurso clássico do KJ. Quando disse que julgava tratar-se de um pianista clássico foi num sentido mais estrito de "clássico", sem querer naturalmente retirar-lhe valor.