12 fevereiro, 2011

A VELA APAGADA


"Uma mulher lavava a roupa, e pelo frio tinha os pés muito vermelhos; e passando por ela um padre, perguntou com admiração o que causava tal vermelhidão; ao que a mulher respondeu logo que tal efeito acontecia porque ela tinha debaixo dela um fogo. Então o padre segurou o membro que o fez ser padre e não freira e, encostando-se a ela, com doce e persuasiva voz, pediu-lhe que fizesse o favor de lhe acender aquela vela."

Eis uma anedota ordinarota que facilmente imaginamos a ser contada pelo Camilo de Oliveira nos velhos tempos do Parque Mayer para um público ávido de histórias picantes.
Acontece que se trata de um texto retirado de um dos códices de Leonardo da Vinci, o Códice Atlântico, que se encontra na Biblioteca Ambrosiana de Milão.
Ora, assim sendo, o cenário muda de figura. O facto de ter uma proveniência erudita e de se tratar de um texto com mais de 500 anos, muda radicalmente a nossa relação com ele. Mais até do que o nosso conhecimento da pessoa que o escreveu, é o tempo, a distância, a história, tal como acontece com os textos latinos de Petrónio ou de Marcial, que muda a nossa relação com ele.
Uma anedota ordinária com 500 ou 1000 anos deixa de ser uma anedota ordinária para passar a ser um objecto histórico, erudito e culturalmente relevante. Como se o tempo fosse um antídoto que libertasse o texto da sua mácula original. O tempo é, de facto, um grande escultor. Sem mãos, sem dedos, sem músculos, sem ossos e, sobretudo, sem consciência, consegue transformar um objecto moralmente desprezível numa cândida e encantadora preciosidade.

6 comentários:

Alice N. disse...

Não tenho certeza se percebi bem o que li, mas, se percebi, não concordo com a ideia de que "uma anedota ordinária com 500 ou 1000 anos deixa de ser uma anedota ordinária para passar a ser um objecto histórico, erudito e culturalmente relevante" e que isso apague a "sua mácula original".

Objecto histórico, sim. Culturalmente relevante também, por se tratar do da Vinci, mas parece-me que nem o tempo, nem o autor tornam a anedota erudita. A erudição está em saber quem foi Leonardo da Vinci, saber que foi ele que teve esse momento de inspiração, conhecer a obra e saber ainda que, afinal, o ilustre sábio também descansava e não fazia só coisas geniais. O conteúdo, porém, não deixa de ser o que é por ser do da Vinci. Mas concordo que o aceitamos de modo diferente, com mais benevolência e certa curiosidade. É como o Miguel Esteves Cardoso ou outro(que não comparo ao Da vinci, claro) usar um vocabulário mais grosseiro em certos textos. Num intelectual, é uma excentricidade. Num analfabeto, é uma manifestação de rudeza, falta de educação e objecto de repúdio. Enfim, questões de códigos...

josé manuel chorão disse...

O tempo exerce sobre as pessoas um fascínio difícil de racionalizar.
Até na arte do Bonsai, uma forma oriental (sobretudo japonesa) de criar esculturas com plantas vivas, na qual existem regras muito rígidas quanto às formas a dar às 3 dimensões clássicas de uma planta, existe uma que não podemos influenciar e é a mais importante: o tempo.
Uma árvore Bonsai pode ser muito bela mas se fôr jovem os japoneses não a valorizam; mas, perante outra semelhante, um Pinus Thumbergii, por exemplo, com 700 ou 800 anos, até o Imperador se extasia e se curva (o Imperador aliás, possui alguns dos mais belos e antigos Bonsai do mundo).
Há árvores destas, muito antigas, que são verdadeiros tesouros de família e vão passando de geração em geração, sempre objecto de culto e de muitos cuidados. O seu valor estético, sempre subjectivo, foi muito engrandecido pelo tempo, esse refinador de Bonsai.E do Universo, já agora.

Fred disse...

Bem, o que é que eu hei-de dizer...

Na minha opinião, seja com 500, 1000 ou 100 anos continua a ser uma anedota ordinarota sempre.

Agora poderá é ser chamada de histórica.

Um abraço!

Anónimo disse...

Sim, a Yourcenar sabia do que falava quanto ao tempo ser um grande escultor. Nem sempre de belas obras,e de vidas que mereçam.E não creio que pensasse em anedotas. Deste género, pelo menos.
Cumprimentos.
E.

Anónimo disse...

O tempo pode ser um escultor mas n daí a ter poderes alquímicos vai uma certa distância.
Tudo o que vem de um Artista Maior, é forçosamente maior ?
Então, o lado humano e até animal de um artista, tem uma dimensão sagrada? Serão os seus filhos semi-deuses ? Serão os seus dejectos preciosos ?

DESIGN TÊXTIL disse...

É um texto que poderá servir de alimento aos mesmos miseráveis e medíocres da atualidade, livrando-se da culpa e o peso do pecado, oferecendo até algum conforto. Portanto, no seu imaginário, não são ordinários, é um fato consumado, que nunca mudará.
Um texto que deixa esses protagonistas do mal mais leves, mas em contrapartida os espectadores mais tensos e revoltados, como mostra bem aqui nos comentários....
Um dia, quando a terra for reta para o infinito, isto acabará, pq os problemas terão por onde sair. Enquanto for redonda, os problemas girarão sempre em torno dela. É cíclico, é lei.