20 fevereiro, 2011

O LOVE STORY É FODIDO


Na quarta-feira da semana passada fui para a "bilioteca" da minha escola trabalhar. Por ter sido naquela semana o dia dos namorados estava lá um ecrã gigante no qual foi passando ao longo do dia o filme "Love Story".
Quando o filme estreou em Portugal, ainda antes do 25 de Abril, era para maiores de 17 anos. Ainda me lembro da minha tremenda frustração por não ter podido vê-lo quando veio a Torres Novas. O filme teve um tremendo sucesso, falava-se muito nele, os meus irmãos tinham comprado o single com a música do filme. Eu não pude vê-lo porque teria 12 ou 13 anos na altura. Mesmo que tivesse 15 ou 16 anos não poderia tê-lo visto. Daí ter achado piada por, naquele dia, estar a passar na "biblioteca" de uma escola frequentada por alunos desde os 10 anos de idade.
Há cerca de 40 anos, os olhos que viram este filme não eram os mesmos dos olhos que os vêem agora. Em apenas 40 anos, menos de metade de um século, o filme deixou de ser o que era para passar a ser outra coisa completamente diferente. As nossas representações sociais, motivações, sentimentos, atenção, raciocínios, experiências emocionais, sofrerem uma radical mudança. Os portugueses de 1970 estão, neste sentido, muito longe dos portugueses de 2011. E nem seria necessário ir tão longe. Poderíamos recuar 20 anos e dizer que os olhos que viram o filme em 1970 não eram os mesmos dos que o viram em 1990. 20 anos, umas migalhas históricas.
Há uns anos, as livrarias portuguesas foram invadidas por um livro chamado "O Amor é Fodido". Não muito longe disso, apareceu um disco cuja canção principal tinha supostamente como título "Talvez Foder" mas cuja palavra não aparecia inteira na capa do CD e, ao ser cantada, a palavra "Foder" era abafada pelo som estridente de um saxofone que impedia a percepção clara da palavra.
Imaginemos que, 100 anos, depois, um investigador na área da História das Mentalidades, faz um estudo sobre as representações morais e sociais dos portugueses nos finais do século XX. E que se depara precisamente com dois documentos históricos como são o livro de MEC (vendo fotografias de livrarias com montras cheias desse livro) e o disco de Pedro Abrunhosa.
Há aqui nuances que são perceptíveis para nós, que as vivemos, mas que para um historiador não fazem grande sentido. Ou farão o sentido possível para alguém que tenta sentir o que sente alguém que viveu 100 anos antes.
É neste sentido que a História nunca pode alcançar o mesmo tipo de conhecimento das ciências naturais. Porque uma coisa é explicar leis da física, comportamentos animais, alterações meteorológicas, outra coisa será compreender factos históricos (acordos políticos, guerras, crises económicas, aventureirismos políticos, migrações, ascensão e queda de impérios) protagonizados por seres humanos que têm sentimentos, emoções, esquemas cognitivos, sistemas morais, estruturas imagéticas que são absolutamente inalcançáveis.
A História é rigorosa e objectiva quando me diz que houve uma "Crise de 1383-1385". Certo, e lá vêm as causas económicas, sociais, a peste, a demografia, etc. Eu adoro e agradeço que existam historiadores que passam grande parte das suas vidas a investigarem esses factos, que escrevam sobre eles e que nos ensinem. Mas por muito bem que Fernão Lopes venha explicar o que aconteceu em Lisboa, por muito objectivos que sejam os factos ocorridos, a minha relação com eles nunca pode ser a mesma que mantenho com células, as leis da óptica ou alterações naturais em diferentes eras geológicas.
O que aconteceu exactamente em Portugal no dia 1 de Dezembro de 1640? Ainda ninguém me conseguiu explicar. Há milhares de páginas escritas sobre isso. É verdade. Mas quando eu leio numa página do Correio da Manhã que "Marido matou mulher à facada" o que quer isso dizer? Ok, o jornalista soube que o marido era alcoólico e ciumento. E que a mulher era fisicamente atraente e que dava conversa aos homens quando ia ao café. Uma causa e um efeito. Muito bem. Mas estamos a falar de pessoas que moram ao nosso lado, que andaram na mesma escola que nós, com quem nos cruzamos quando vamos às compras. Mas o que quer dizer "A pessoa X fez Y", sendo que a pessoa X viveu há 450 anos? Ok, matou um rei, alinhou numa revolução, meteu-se num barco rumo à Índia ou ao Brasil. Sim, mas porquê? Porque era pobre e queria ganhar dinheiro. Certo. Era ambiciosa. Certo. Era aventureira. Certo. Mas o que é ser pobre no século XVI? É o mesmo que ser pobre no século XXI? A aceitação da pobreza é a mesma? Estamos a falar de 400 anos, não estamos a falar de 20 anos. Nós falamos do século XVI. Mas o que é o século XVI? A pessoa que viu o Love Story em 1970 não é a mesma que viu o filme em 1990. E são ambas pessoas do século XX. Como será possível saber daqui a 100 anos o impacto da palavra "foder" em 1990? Mas o impacto em quem? Num operário da construção civil, num garoto de 15 anos, numa doméstica de 60 anos? Dizia-se numa sala de aula? Qual o impacto que teria um aluno ou professor dizer a palavra "foder" numa sala de aula em 1990? Qual seria a representação moral e emocional da sexualidade em 1990? E como era vivido o vernáculo em 1990? Há registos que mostram que havia palavras grosseiras e socialmente proibidas. Mas as livrarias, onde se vendem os manuais escolares, estão cheias de livros que dizem que o amor é fodido. O que raio seria pensar ou sentir no século XX?
E o que é isso de Grécia Antiga, de Antiga Roma, de Idade Média, Renascimento e o raio? As pessoas que viveram no Renascimento não sabiam que viveram no Renascimento. Como podemos nós dizer o que é o Renascimento se o próprio Renascimento não existia na época do Renascimento? Nós estamos a viver numa época que ainda não sabemos qual é. Daqui a uns séculos vão dar-nos um nome mas nós estamos a viver com um nome que ainda não sabemos qual é.
O que quer tudo isto dizer? Podemos dizer tudo o que pensamos. Ainda assim, por muitos factos que tenhamos à nossa frente e por muito que pensemos a seu respeito, há sempre uma terrível distância entre a "coisa real" e o seu conhecimento.
Mesmo eu, agora, vendo o Love Story na "biblioteca" da minha escola, se quisesse ver o filme com os mesmos olhos com que os meus pais o viram quando foram ao cinema numa noite dos anos 70, já não seria capaz.

17 comentários:

Margarida disse...

Socorro!
Para quem ensina, o Professor faz perguntas demais!
Parece um menino de cinco anos a puxar a anda do casaco e a metralhar com questões, credo!
Uf...
Estou exausta de o ler!
Easy does it!
Não pense tanto, que lá se vão os fusíveis!
LOL!
;)

Margarida disse...

E um palavrão?!
Pois não comprei esse livro do MEC por causa do título.
Processem-me.
Não gosto de vernáculo.
Detesto.
Acho repelente e pronto.
Se uso?
Claro, quando é preciso (e sabe Deus que o é com frequência...), mas entre-dentes ou noutra língua.
Alivia e não penaliza, sei lá; questões educativas.
Pronto, pronto, as palavras estão aí, deixemo-nos de delicodocices e não sei quê, mas que querem, são 'gostos'.
Cada um faz o que entende e diz o que consegue.

Anónimo disse...

"É neste sentido que a História nunca pode alcançar o mesmo tipo de conhecimento das ciências naturais", dizes.
E dizes bem. Mas parece-me que a História não ambiciona esse tipo de conhecimento, nunca colocou aí a fasquia.
Mas, enfim, aceito a tua redenção.
josé manuel chorão

José Ricardo Costa disse...

Margarida, trata-se apenas de uma apropriação erudita da linguagem vernácula com um intuito puramente intelectual e filosófico. Os médicos também têm que mexer em vesículas e fígados sem que isso manche as suas delicadas mãos protegidas por luvas.

Zé, um historiador sensato pensará asim e felizmente existem muitos. Mas a mim preocupa-me o behaviorismo histórico, social, pedagógico e psicológico. Estão a acontecer actualmente coisas horríveis por causa desta visão positivista e mecanicista que gosta de brincar às leis em contextos humanos. A luta continua.

JR

Margarida disse...

"apropriação erudita da linguagem vernácula com um intuito puramente intelectual e filosófico."

...bullshit!

LOL! (vê? - fácil, fácil!)
E trata-se apenas de uma apropriação popular da linguagem forasteira com um intuito puramente capcioso e ilógico!
;)

paulo,sj disse...

Caro JRC,

Entendo perfeitamente o seu post anterior e este. E nenhum significa "anti-História". Significa sim, uma não redução de uma realidade que é de tal maneira complexa que não pode ser reduzida a um mero estudo factual, ao nível positivista: o ser humano.

Estou a ler a "Trilogia da Noite" de Elie Weisel. Em "A Noite", Weisel descreve em primeira pessoa o que viveu nos campos de concentração nazis. Ao longo da leitura do livro não me saía (nem sai) do pensamento de que estou a ler sobre a vida de uma pessoa (e de muitas outras que ele vai relatando). É-me de todo impossível imaginar o que lá se passou, mesmo que possa ver filmes com tentativas de recriação ao pormenor... A História vai-nos dizer que morreram milhões de pessoas, que houve uma data de final da guerra, factos e mais factos. Pergunto-me: e quê? Pois, o "e quê" é não olhar para a realidade só com uma visão.

Gosto de História, não pelo simples conhecimento de factos, mas pelo que me leva a pensar sobre quem sou/somos e o que sou/somos chamado(s) a fazer no mundo pelo ser humano.

Muitas vezes olhamos o passado e "coitados, não tinham a tecnologia e morriam por falta de condições de higiene, doenças e mais-não-sei-quê". Hoje com todas as tecnologias (e mais algumas em evolução) somos chamados a ser parte integrante dessas mesmas tecnologias, ou seja, mais uma peça da engrenagem, alienando-nos do que nos faz ser, de facto, humanos.

Há dias lia este pequeno artigo sobre a colecção de fotos "Tokio Compression" de Michael Wolf:
http://obviousmag.org/archives/2011/02/tokyo_compression_o_inferno_urbano_visto_por_michael_wolf.html?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed%3A+OBVIOUS+%28o+b+v+i+o+u+s%29
Relia o livro "A Gravidade e Graça" de Simone Weil onde afirma: "Como o pensamento colectivo não pode existir enquanto pensamento, atravessa as coisas (signos, máquinas...). Daí o seguinte paradoxo: é a coisa que pensa e o homem é reduzido à condição de coisa".

[Bem, a reler o que escrevi, acho que acabei por dar uma outra volta. No entanto, em pano de fundo está a ideia de que nós humanos, por mais que nos queiram "objectivar" com factos, haverá sempre muito que ficará desconhecido....].

Um Abraço!

Anónimo disse...

http://www.youtube.com/watch?v=j7gcTdXG-oo

Alice N. disse...

Não pretendendo igualar-me a quem sabe da matéria, não deixei de pensar e, modestamente, eis o que penso. Compreendo que a História procure o rigor. Se o 25 de Abril foi em 1974, é bom que não nos digam que foi um ano antes. Precisamos de saber como era Portugal em 24 de Abril de 74 e como ficou depois da revolução. Precisamos de saber o que aconteceu (objectividade dos factos) e tentar perceber por que motivo aconteceu (aqui entramos na interpretação que, por mais fundamentada que seja, será sempre subjectiva, por mais que doa e nos deixe inseguros).

A História necessita de rigor e nós também. Imaginamos um mundo sem a História, sem referências? Seria desastroso. Seria como acordar hoje e não saber o que faço aqui e porque estou aqui. Porém, porque a sua abrangência é enorme e porque é da humanidade que ela trata, teremos de aceitar que a História nunca nos dará o todo, mas apenas uma parte desse todo, do que foi o percurso do homem. Um conhecimento precioso, mas necessariamente parcelar, sujeito ao erro, à imprecisão. As ditas ciências exactas também estão sujeitas ao erro e surgem hoje leis que negam leis anteriores e dadas como incontestáveis durante muito tempo (a Terra não foi tanto tempo o centro do universo?). Creio que a História, como qualquer outra ciência humana (não gosto da expressão), estará mais sujeita ao erro e imprecisão no que diz respeito à interpretação dos factos. Essa característica desvaloriza-a? Só tem valor o que se rege por rigorosas leis matemáticas ou o que é demonstrado laboratorialmente? A Filosofia não tem valor e utilidade porque a um argumento poderemos sempre contrapor outro ou uma teoria defender o oposto de outra? Felizmente, não. O que seria de nós se tudo se reduzisse a uma perfeita e infalível fórmula matemática.

Há tempos, li uma obra de referência sobre o Estado Novo. Riquíssima em informação. Texto excelente, muitos mapas e muitos números. Utilíssimos. Mas, não fossem os relatos que ouvi desde pequena, os testemunhos que me narraram na primeira pessoa, nunca perceberia tão bem o que foi viver em Portugal antes do 25 de Abril nem como sentiram a revolução os que cá viviam. Esses testemunhos substituem as ilustres obras científicas? De modo nenhum. Mas dão-nos o sentir, o olhar que não cabem em nenhuma obra científica. E os factos que a História preciosamente nos expõe e interpreta são o resultado da longa marcha do homem que sente, pensa, vive, sonha, desespera, anseia... Disso os mapas e números pouco nos dizem. Nem têm de dizer.

Não posso deixar de falar do título. Simplesmente genial! Uma perfeita súmula do que aqui tão claramente vem exposto.

José Ricardo Costa disse...

Caros Paulo e Alice, penso que entenderam bem onde pretendo chegar. É mesmo isso.

JR

jrd disse...

O que era, supostamente, pornográfico em 1970 nem sequer consegue ser erótico em 2011.
Não creio que o amor seja isso. Fo****das são as ‘cataratas’ que, 40 anos depois, não permitem ver o filme com a volúpia daqueles tempos.

ANA disse...

Vemos tudo, dizemos tudo e fazemos tudo mas tanto em 1999 quando tinha 22 anos como agora já com 33 quando me pedem esse livro aqui na livraria as pessoas fazem-no sempre meio envergonhadas : -" desculpe lá o que eu vou dizer, mas tem aquele livro do :" O amor é fo..." ? Isto independentemente da idade das pessoas que o pedem. Em 11 anos houve apenas um senhor que disse o titulo completo e os meus colegas corroboram que apenas alguns homens (raros) conseguem dizer o titulo completo. Nós é que o dizemos : " - Sim claro, O amor é fodido temos sim.Acabou de ser reeditado."
Quanto à história gosto bem mais de tentar perceber o que pensavam e sentiam as pessoas, como viviam . Os factos crus sabem-me a pouco... Quanto às cataratas espero que nunca me apanhem...

Fevereiro 21, 2011

José Ricardo Costa disse...

Cara Ana, já sabe, se alguém lhe voltar a pedir "O Amor é fo...", pode perguntar, com ar intrigado, "O Amor é foleiro"?

jrd disse...

Face a tanta desinibição e sentido prático, penso que nenhuma "catarata" se importaria de "apanhar" Ana. ;)
(Nada de más interpretações)

m.a.g. disse...

Eu tenho o livro do MEC (como outros dele) e, li-o com muito prazer. Ele sabe bem como escarafunchar nestes assuntos sérios com a ironia que lhe é peculiar.
Eu considero o nosso vernáculo feio e até agressivo, mas há muito que deixei de corar por ouvi-lo, lê-lo, não me causa pruridos, ou não vivesse eu numa região de uso e abuso.
E quanto ao assunto propriamente dito, não lhe dê grande importância histórico-sociológica: sempre foi dito e feito segundo todas as vontades.

ANA disse...

Caro José Ricardo o seu comentário faz-me lembrar aquela infeliz anedota real :
Cliente: - bom dia, tem as " Viagens na minha terra?"
O vendedor ( não se pode chamar livreiro a esta alma) ficou em silêncio.
Cliente: - Então, tem ou não tem as "Viagens na minha terra ?"
Vendedor: - Ora, a Srª ainda não me disse qual é a sua Terra ...
Caro JRD se se Juntarem Cataratas à minha Miopia e ao meu astigmatismo como poderei eu ver...

jrd disse...

Ana,
Sendo assim vou explicar-me melhor: Se as cataratas a apanharem vão ficar, elas, com a sua miopia e o seu astigmatismo.
Confuso!? Se calhar tambem eu já estou a ficar às escuras...

ANA disse...

Tem razão... se esse dia chegar resolvo o problema com uma cirurgia, para que possa ver volupia, erotismo ou a história que fazemos... e se por acaso ficar na escuridão ainda me restará o olfato, a audição e o paladar para que viva tudo isso de uma outra forma, quem sabe se mais intensa...