13 fevereiro, 2011

O DIA DO RISO E DO ESQUECIMENTO


                                                                        Michael Kenna

A alegria dos egípcios da qual aqui se fala, faz-me lembrar aquelas crianças pobres e ranhosas que ficam radiantes por receberem uma caixa de bombons no Natal. Estão contentes porquê? Não percebem nada de história, só acreditam no que lêem nos jornais e os jornais não percebem nada de história, só percebem do que vêem à frente dos olhos. Estes egípcios que agora rejubilam irão comer melhor daqui a 5 anos? Irão viver em casas melhores? Irão ter mais emprego? Irão viver num país melhor?
A história é um mar de contingências, acasos, imponderáveis, a história não tem leis como a natureza. Mas podemos retirar dela algumas lições. Uma delas é a seguinte: para um golpe de estado, um tumulto, uma revolução terem sucesso é necessário um solo em condições para nele germinarem. O 25 de Abril teve sucesso porque ocorreu num país europeu do século XX, tendo sido conduzido por europeus do século XX para um povo europeu do século XX. Um 25 de Abril em Bagdad (que fez chorar José Manuel Fernandes), em Teerão, Cabul, Cartum, Tripoli ou no Cairo não passa de uma mistificação. São 25 de Abris sobre pântanos nos quais facilmente se enterram até desaparecer.
Não digo que o mundo muçulmano não possa um dia evoluir. A Europa evoluiu, eles também poderão evoluir. Aliás, o mundo está sempre em evolução.
Mas aqueles inocentes festejam o dia de hoje, não festejam o próximo século ou o próximo milénio. Não irão demorar muito a voltar às suas rotinas de sempre.

12 comentários:

josé manuel chorão disse...

Totalmente de acordo.
Só acrescentaria isto: passada a festa, que merecem, vamos ver se o pós-festa não é pior que o que tinham antes.
Vamos ver se os radicais não se aproveitam do quase vazio de poder para fazer regredir ainda mais a situação em que vive o povo. Espero que não (mas tenho dúvidas de que assim não seja).

jrd disse...

Boa vontade a sua ao acreditar que os milhões de manifestantes (inocentes) do Cairo, Alexandria, Suez, etc., lêem jornais.
Para quem vive (?) com menos de dois dólares por dia, seria preciso um milagre.
Quanto à hipótese desses inocentes festejarem o próximo século e o próximo milénio, só mesmo com a intervenção divina de Alá.

Felizes de nós, que estávamos apenas a 26 anos do ano 2000 e conseguimos fazer o "dois em um", graças ao milagre dos cravos.

(Peço desculpa por ter eliminado o comentário, mas havia que corrigir um erro)

Anónimo disse...

Pertenço aos cínicos em festa.
Se por um lado não me inibo de sorrir, perante a demanda de um povo milenar que demonstrou maturidade civilizacional ( comovo-me ao ver os manifestantes regressarem para limparem Tahrir) por outro lado reconheçoalguns dos passos do Irão, de quando ainda se acreditava na libertação.
Creio que as revoluções se fazem primeiro ( e seguindo uma análise actancial) de oponentes e adjuvantes e só num segundo tempo se reconhecem oponentes entre os adjuvantes e vice-versa. o tempo escreverá a história, sendo certo que este ponto de exclamação é temporário, pois as retic~encias continuarão a findar as frases mais importantes e determinantes.

estela disse...

não quis comentar logo, para não mandar vir... mas vejo que estão "todos" de acordo contigo ;) portanto cá vai:

porquê tanta falta de confiança nos egípcios? se bem me lembro a revolução portuguesa não foi feita de milhões de pessoas na rua a não arredarem pé enquanto não mudar algo... e nos dias de hoje, quem é que em portugal saía à rua assim? nem é preciso a nova canção dos deolinda, porque a velha já basta ("agora não, que tenho de ir jantar"...)

pois eu tiro o chapéu ao desespero. e tiro o chapéu até ao Mubarak, que podia ter piorado tudo .......

e tiro o chapéu a quem tenta mudar as coisas, mesmo que as possibilidades de sucesso sejam fraquinhas.

acho que esta desconfiança, este descrer (do post e dos comentários) tem um toque de "despeito". nós fizémos uma revolução há imenso tempo e pouco mudou (temos uma democracia "fingida", sem escolhas ou alternativas reais!!!!) - estes gajos fazem aquilo que ninguém julgava possível a acreditam em quê?
... a verdade é que não queremos acreditar que os outros conseguem o que nós tivémos nas mãos...
:(

e sim, talvez esteja a ser um pouco injusta... mas tenho imensa pena de não sermos capazes de acreditar que conseguem, de não lhes desejarmos isso mesmo, e de gastarmos palavras com mais descrença ainda. porque ela não nos leva nem de longe onde quer que seja.
enfim...
perdoem-me!
:)

Anónimo disse...

Não atiremos pedras, pois temos telhados de vidro.... Caro Zé Ricardo, o 25 de Abril, bem-vindo que foi, não nos trouxe o devido; e, os egípcios, na sua inocência de cordeiros, que tb fomos, têm dt à mesma gula que o o 25 de abril deu em esperança a muita gente...Quando sou cínica, sou cínica; mas quando sou sarcástica, sou melhor ( adap. da mae west). Portugal está cheio de egípicios que celebraram a festa e agora agonizam, que nem cadáver adiado que procria. Ou não acha?

José Ricardo Costa disse...

Estela, porquê tanta falta de confiança nos egípcios? Porque são muçulmanos e aquilo não fica na Europa.
E estás enganada quando dizes que o 25 de Abril pouco mudou, a democracia fingida e tal. Não, o 25 de Abril foi uma verdadeira libertação e o país, hoje, não tem nada que ver com o que era em Março de 1974. E isto só não está melhor porque vivem cá portugueses. Quer dizer, no Luxemburgo, na Suíça e na Alemanha também há portugueses mas, felizmente, não são estes que os governam.
Cara menina ou senhora que escreveu a seguir à Estela, digo o mesmo em relação ao 25 de Abril. E quem põe em causa a alegria deles? É muito bom divertirem-se, fico contente por eles. Eu só estou a pensar que a vida continua e, confesso, pelo que a experiência mostra, há-de continuar a ser pouco animadora para aqueles lados. Queira Alá que eu esteja enganado.

estela disse...

bom, quem diz alemanha, luxemburgo ou frança, diz áustria também.
obrigada pela parte que me toca ;)

os egípcios são gente! como a gente.
espero que consigam o que mais desejam. nem mais, nem menos.

José Ricardo Costa disse...

Estela, os portugueses da Áustria não são suficientes para fazer sociologia, certo? Oder? Entschuldigung, meine liebe!

jrd disse...

Usar a casa alheia para alimentar polémicas -mesmo boas- com outra(o)s visitantes, não faz o meu jeito. Mas não percebo bem como é que, neste poste, estou de acordo com o anfitrião.

estela disse...

Olha que não sei ;)
O microcosmos da minha vida dava pano para mangas sociológicas que nem os outros 299 tugas aqui imaginam existir ;)

Anónimo disse...

Foi bacana o que aconteceu no Cairo. Mesmo lhe dando parte da razão, acho que vou ficar com Gramsci: “temos de combater o pessimismo da razão com o otimismo da vontade”, ou algo assim. Desde o fim da IIGG que todo mundo resolveu se hospedar no “Grande Hotel Abismo” (os marxistas entraram em 1991), mas a pintura já está mofada, a encanação furada, os garçons todos velhos e o serviço decadente. Talvez tenha chegado a hora de dar um passeio no parque. Respirar um pouco de ar puro. Mesmo correndo o risco de pegar uma pneumonia!
Atenciosamente,
Cláudio.

Sedentário disse...

Em todos os paises que se instaura uma democracia é sempre uma democracia oca, falha, ilusoria, mas existem condições necessárias além do otimismo besta de algumas pessoas, existem condições na parte territorial e administrativa para conseguir mesmo trpeçando em algum erros. Concordo com vc que depois da festa no Egito ficará toda sujeira para limpar, para ser posta novamente no lugar isso levará alguns longos anos. Abraços