15 fevereiro, 2011

MISS T-SHIRT RASGADA



Eu não tenho nada contra os esquemas, os padrões, os modelos e sei que para conseguirmos pensar precisamos de esquemas, padrões e modelos como de pão para a boca. Mas o pensamento, na sua obsessão pela objectividade e por uma uma organização racional da realidade, acaba por nos levar também a artifícios, simplificações grosseiras e raciocínios esquemáticos da mais pura vacuidade.
A realidade é complexa mas o pensamento adora a simplicidade. Ouvi uma vez um prémio Nobel da Física dizer que o seu grande sonho seria traduzir toda a complexidade do universo numa simples fórmula que pudesse ser estampada numa t-shirt de praia. Fórmula? O que raio se consegue perceber com uma fórmula? A realidade não é feita de fórmulas mas de atalhos, labirintos, conjugações de acasos, realidades dissimilares que apresentam similaridades, realidades similiares que apresentam dissimilaridades.
Quando andava na escola (quer dizer, como aluno) aprendi na disciplina de Português que havia o romantismo e o realismo. Era uma espécie de Benfica-Sporting da literatura. Ou uma espécie de Barcelona-Real Madrid em que o Almeida Garrett era o Messi e Eça o Cristiano Ronaldo. A história da literatura portuguesa reduzida a uma simplicidade esquemática. Mas o que é uma história da literatura? Como é que livros escritos avulsamente por escritores avulsos podem estar presos aos grilhões conceptuais e esquemáticos de uma história? A história da humanidade não existe e muito menos existirá uma história da literatura. Toda a história não passa de uma ficção construída a posteriori, servindo apenas para nos dar a ilusão de que existe uma ordem, um caminho, uma origem, um meio e uma meta.
Eu não digo que não haja tendências românticas e realistas em diferentes escritores e períodos. As Viagens na Minha Terra e os Maias têm identidades próprias. Mas as Viagens estão repletas de passagens queirosianas, de ironias queiorosianas, do mesmo modo que os Maias não iludem um pathos e uma melancolia romântica que um romântico não desdenharia. No entanto, para a prosperidade, para o jovem que estuda literatura portuguesa o que ficam são os esquemas, a história, os períodos.
Vejamos estas duas passagens, ambas quase no final das respectivas obras:

— E que somos nós? — exclamou Ega. — Que temos nós sido desde o colégio, desde o exame de latim? Românticos: isto é, indivíduos inferiores que se governam na vida pelo sentimento, e não pela razão...
Mas Carlos queria realmente saber se, no fundo, eram mais felizes esses que se dirigiam só pela razão, não se desviando nunca dela, torturando-se para se manter na sua linha inflexível, secos, hirtos, lógicos, sem emoção até ao fim...
— Creio que não — disse o Ega. — Por fora, à vista, são desconsoladores. E por dentro, para eles mesmos, são talvez desconsolados. O que prova que neste lindo mundo ou tem de se ser insensato ou sem sabor...
— Resumo: não vale a pena viver...
— Depende inteiramente do estômago! — atalhou Ega.
Riram ambos.


(Final da carta de Carlos a Joaninha) Creio que me vou fazer homem político; falar muito na Pátria, com que me não importa; ralhar dos ministros, que não sei quem são; palrar dos meus serviços, que nunca fiz por vontade; e, quem sabe?...talvez darei por fim em agiota, que é a única vida de emoções para quem já não pode ter outras.

A mim, o que me interessa, é o que iria na cabeça de Eça e de Garrett enquanto largavam a tinta sobre as folhas de papel no momento em que terminavam as suas obras. Seria assim tão diferente? E será o Carlos de Garrett assim tão diferente do Carlos de Eça? Mas o que é isso de ser romântico e isso de ser realista? O que é isso de ser Ema Bovary? O que é isso de ser Cosette? O que é isso de ser Teresa ou Mariana ou Maria Eduarda?
Cada personagem com a sua fórmula na respectiva t-shirt? Uma t-shirt para cada personagem? Não me parece. Preferia antes um t-shirt com um labirinto onde cada parte pode ir dar a todas as outras e onde cada parte é feita de várias e díspares partes como um espelho estilhaçado

8 comentários:

bons temposhein disse...

Eu bem gostaria de ver o Benfica como um romântico vitorioso, mas há que ter realismo...

Quando a insensatez passa pelo estômago, as consequências provocam sequelas pouco românticas, pelo que, se fizermos uma análise racional, talvez convenha adoptar uma postura mais realista ainda que sensaborona.
É claro que um agiota pode sempre lidar de bem com o problema, porque não tem sentimentos, i. é , sente com o estômago…

m.a.g. disse...

Pois eu penso que a Maria Eduarda, a Joaninha e a Bovary eram mesmo o que ia na cabeça quer de Eça, quer de Garrett, quer de Flaubert. Arquétipos que no fundo fazem parte do processo de individualização do ser humano num determinado espaço ou tempo.
De repente lembrei-me de mais duas: da Penélope de Homero e da Molly Bloom de Joyce. Precisamos delas, assim, com tudo o que as une e que as separa.

Obs: A Lady Lyndon merecia um título mais adequado ao seu (dela) :)

José Ricardo Costa disse...

Caro jrd, se depois daquela exibição com o Guimarães não conseguir ser romântico, então não sei mesmo o que é o romantismo.

Cara m.a.g., O título, meu deus, tem toda a razão mas foi o que me saiu. Enfim. Quanto ao princípio da individuação, entendo o que diz com os arquétipos. Hamlet não é Otelo, que por sua vez não é o Rei Lear. Mas isso não significa que cada personagem, na sua complexidade psicológica, na sua mais profunda interioridade seja uma figura geométrica individualizada. O arquétipo será mais uma construção nossa do que uma entidade real e objectiva.

sLx disse...

Caro José,

Vinha pedir-te uma mudança na formatação. Podes mudar a cor das citações de amarelo para verde ou azul? Por exemplo, eu leio os teus posts no Google Reader que como tem fundo branco torna-os ilegíveis.

Desculpa o comentário sem ligação ao post, mas assim os autores citados ganham mais leitores :-)

Abraço,

João Pedro

José Ricardo Costa disse...

Combinado! Mudarei então a cor das citações. Obrigado pela atenção. Abraço.

Anónimo disse...

No fundo, iludirmo-nos com fórmulas, não é o que fazemos a vida toda?
Quando categorizamos a realidade, pondo-lhe carimbos classificativos que nos dão a ilusão de tudo compreender.
Na Física, na Literatura ou quando atravessamos a rua e observamos o que nos rodeia...
O Homem, esse criador de ilusões.
josé manuel chorão

jrd disse...

Desta vez o comentário saiu-me em nome de bth.
Não há duvida de que a minha aptidão para usar o blogger tem intermitências.
Esperemos que as do "Glorioso" tenham mesmo chegado ao fim com aquela exibição soberba.
Abraço

estela disse...

ora, uma sportinguista SABE que o romantismo é muito mais realista do que parece (e ao contrário) está-se aqui a rir a a agradecer aos céus ter assistido ao juntar do Eça com o Garret e o "Estebes". Bem hajam :)