03 fevereiro, 2011

MARCADOR SOMÁTICO



Ia hoje a conduzir numa rua de Torres Novas quando vejo um gato a atravessar a passadeira. Como ia devagar tive tempo para que acontecessem algumas coisas dentro da minha cabeça até chegar à passadeira. A minha reacção imediata foi pensar o que me aconteceria se atropelasse um gato numa passadeira. Tive de imediato a intuição de que atropelar gatos em passadeiras não é a mesma coisa do que atropelar pessoas em passadeiras. Os gatos não são pessoas e as pessoas não são gatos. Ao pensar nisto fiquei logo mais tranquilo, desdramatizando a possibilidade de atropelar o gato na passadeira, ou seja, pensei que seria indiferente parar ou não parar, atropelar ou não atropelar.
O apaziguamento da minha consciência moral foi feito, neste caso, à custa de uma racionalidade jurídica. Embora não tenha tido tempo para pensar nisso explicitamente, joguei com o pressuposto de que de acordo com os códigos jurídicos a gravidade resultante de atropelar um gato numa passadeira é diferente da gravidade de atropelar pessoas. Ou seja, presumi que o código penal será mauzito para pessoas que atropelam pessoas em passadeiras e não para pessoas que atropelam seres vivos em passadeiras.
Porém, apesar de tudo isto, com a consciência de que nada me iria acontecer se atropelasse o gato, ao aproximar-me da passadeira decidi abrandar. Porquê? Decidi, porquê? O que aconteceu dentro de mim para tomar essa decisão? Simples: senti pena do gato. Em suma, a montanha que me estrutura como ser humano dotado de capacidades racionais,  pariu um rato: uma simples emoção, um dispositivo automático que, num segundo, se sobrepôs a séculos de códigos jurídicos e de conquistas civilizacionais, raciocínios sustentados juridicamente ou até uma abstracta reflexão a respeito dos direitos dos animais ou das diferenças entre os animais racionais e os irracionais  E nem sequer tive tempo para pensar se teria ou não pena do gato. Tive pena e pronto.
À minha emoção deve o gato a sua vida.

8 comentários:

Fred disse...

Sim, devo de lhe dizer que fez muito bem! Tomou a atitude correcta!

Pois coitado do gato se fosse atropelado, não merecia tal destino.

Um abraço!

Ega disse...

Pois fique a saber, caro José Ricardo, que, considerando o sistema jurídico-penal portugues, atropelando um gato poderá, efectivamente (caso haja dolo), cometer um crime: o crime de dano.
Dado que o gato é considerado, pelo nosso Código Civil, uma coisa, e dessa forma é susceptível de ser objecto de direito de propriedade e pode ser exercida legitimamente a posse sobre o mesmo, podia dar-se o caso de o gato ser propriedade de uma pessoa. Uma vez que lesou um direito dessa pessoa (no crime de dano tutela-se a propriedade plena sobre a coisa alheia danificada ou destruída), podia muito bem dar-se o caso de ser condenado por um crime que cometeu.

Agora, deixando reflexões resultantes de" séculos de códigos jurídicos e de conquistas civilizacionais", posso afiançar-lhe que fez muito bem.
Pois eu, tendo atropelado há uns anos um gato, e mesmo sabendo que poucas hipóteses tinha de o evitar, ainda hoje sinto remorsos e de quando ponho-me a pensar no gato que matei. Esta culpa, a velhaca, leva-me ainda a pensar que estou em dívida para com os gatídeos, ie, sinto que estou obrigado a salvar e criar um gato condenado, para compensar o outro. Como se isto fosse assim tão fácil...

jrd disse...

Fez bem em não tirar a vida ao gato, não obstante todos sabermos que ele ainda iria ficar com as restantes seis, que lhe permitiriam continuar a atravessar as ruas, nas passadeiras ou mesmo fora delas, como faz a maioria dos peões 'humanos'.

José Ricardo Costa disse...

Caro Ega, agradeço o seu precioso esclarecimento. Mas o meu problema jurídico-filosófico à medida que me ia aproximando da passadeira nem era tanto a reflexão a respeito da consequência de matar ou não matar o gato mas de o atropelar o gato na passadeira. A passadeira é o resultdo de um contrato (ainda que imposto) entre peões e automobilistas conscientes e com livre-arbítrio, de acordo com o qual os segundos terão a obrigação de parar para dar passagem aos primeiros.
Ora o gato não é um ser provido de livre-arbítrio (de poder escolher passar ou não passar numa passadeira, não tendo sequer a consciência do que é uma passadeira. O gato passa na passadeira mas não sabe o que é uma passadeira. Ok, poder-se-á dizer que uma criança de 3 anos também não sabe e isso não me dá o direito de andar a atropelar criancinhas de 3 anos em passadeiras.
Em suma, a minha dúvida não residiu em saber se sou livre de matar gatos (julgo que a lei não me dá o direito de andar a matá-los à pedrada no meio da rua) mas se a gravidade do meu acto seria maior pelo facto de ter matado o gato numa passadeira em vez de ter sido numa esquina qualquer ou no meio do campo.

JR

παναγιώτα disse...

Gostei muito deste texto! Basta uma cena qualquer da vida e um momento ... e surgem pensamentos tão interessantes!
Panaghiota

Anónimo disse...

Belo texto! Gosto de gatos e não estou bem certo se gosto da maioria das pessoas, mas essa é outra questão. O problema são as "passadeiras", que por aqui, são chamadas de "faixa de pedestres". Já tive vários ataques cardíacos ao ver famílias inteiras de estrangeiros atirando-se nas ruas na presunção de que os carros lhes dariam o direito de passagem. Isso não existe por aqui, nem o código de transito exige. Portanto, ao visitar o Brasil (não aconselho)é bom levar em conta essa questão, já que é triste morrer em terras estrangeiras.

josé manuel chorão disse...

Portanto, toda a cultura não passa de um leve e frágil verniz, pronto a estalar e a revelar o nosso verdadeiro Eu, o ser emocional.
Concordo com isso, já o tenho defendido muitas vezes, mesmo perante ti (quando, decadas atrás, eu defendia que é o sentimento que comanda a escolha de uma companheira, por exemplo, e tu defendias a análise racional e lógica).
A questão que coloco é: para que serve a cultura, se não passa de uma ilusão?
Não será a altura de a pormos de lado, de afastarmos todas as convenções sociais e começarmos a olhar para nós próprios com os olhos da emoção (afinal, a nossa essência)?

Ana Paula Sena disse...

Uma cativante explicação para o papel do marcador somático nas nossas vidas.

Por acaso, esta é uma questão que me interessa muito. Concordo na perfeição, mas, claro, vou ficar a pensar no assumto...