07 fevereiro, 2011

MAR PORTUGUEZ

                                                               Josef Koudelka| Portugal, 1976

É ou não é? Olhamos para aqui e vê-se logo que estamos em Portugal. Não é só pela mulher agasalhada com água pelos joelhos e a criança esganiçada aos berros. Ou a expressão do maneta, olhando com ar de quem pede desculpa por ter nascido. Há aqui uma tristeza, uma melancolia, um mal-estar, um tédio, uma náusea tão portuguesas que fazem com que esta imagem esteja para Portugal como algumas canções do Tom Waits para a América.
Portugal não é um país alegre, mesmo quando está alegre, sei lá, cheio de bandeirinhas nas janelas e nos concertos do Tony Carreira. A alegria portuguesa não é uma alegria activa mas passiva. Os portugueses alegram-se para se esquecerem que são tristes, uma forma de descansarem um bocadinho da melancolia. Brincam à alegria como em crianças brincavam às casinhas. Por isso é que o poeta Ernesto Sampaio dizia que nada dá mais vontade de chorar do que ver um português a rir.
Há nesta imagem um spleen lusitano, uma chuva invisível e desmaiada que molha mais por dentro do que o mar por fora. Veja-se o maneta. O maneta não vai. O maneta vem. E vem com o ar de quem percebeu que não pode nadar mesmo tendo uma imensidão de mar ali à frente.
E o que fomos nós, portugueses? Manetas perante as dádivas da geografia que nos pôs o oceano diante dos olhos. Este homem sofre o destino de Tântalo no seu suplício.Tântalo foi condenado pelos deuses a um destino trágico: padecendo de uma sede terrível, e com água mesmo por baixo da sua boca, vê esta afastar-se sempre que mexe o queixo para a beber. Este homem tem igualmente um trágico destino. Tem um braço para nadar, mas falta-lhe um outro que o impede de nadar. Ele sonha e deseja mas depois é sempre traído pela sua finitude.
Torna-se mesmo fácil imaginar aqui uma lógica narrativa: o maneta a caminho do mar, depois, a mergulhar, a sua atrapalhação ao nadar e, finalmente, o seu regresso, ecoando nos seus ouvidos os gritos estridentes daquela criança. Uma criança do Restelo que, como um coro grego, o confronta com a sua própria desgraça.
Nós, portugueses, somos aquele maneta.

11 comentários:

Helena Oneto disse...

Passo muitas vezes aqui para ver as horas! mas hoje, confesso, parei diante este mar "portuguez"... A emoção foi grande! esta noite não vou conseguir acertar o relogio.
Meu Deus! somos mesmo assim???

C. disse...

Um texto belíssimo, uma prosa enxuta e incisiva. Mas o tom... também ele um tanto português, não será? Até a dizer as grandes verdades parece que não nos livramos dessa alma pátria. De resto, não há só a linguagem que dizemos, mas uma linguagem que nos diz.

Abraço

José Ricardo Costa disse...

Helena, agradeço a sua discordância. Vamos lá ver, a própria ideia de um povo ter uma personalidade é discutível. O que é isso de ser português, francês, servo-croata, senegalês? E isso de ser ribatejano ou minhoto? E isso de ser europeu? O que é ser europeu? Depois, é verdade, já somos menos assim. A geração da internet, do FB, do Erasmus, que-já-faz-o-que-qualquer-outro-europeu-faz, já estará muito mais longe do maneta. Já não é o povo que lava no rio, o povo do sud- express ou, ainda antes, o povo vítima da Contra-Reforma.
Quanto à nossa história, ao que nós fomos e que perdemos, vai-me perdoar, mas somos mesmo uns manetas.

C, muito obrigado. Bem, há-de haver para aqui uns genezitos sem braços...

Abraço,

JR

Anónimo disse...

Pois eu acho que tens razão. Não tanto pelas "manetices" dos braços, antes pelas "manetices" mentais.
O que prende os portugueses é a sua falta de crença em si mesmos. Vê o caso do 1º ministro que nos desgoverna: o povo, no fundo, sente que não vale a pena sair da porcaria, que não merece melhor, que antes isto que o desconhecido. É assim em muitas outras áreas.
E nem se tenta, prisioneiros que somos dos receios que nos habituámos a inventar...
josé manuel chorão

jrd disse...

Um poste excelente.

Por acaso,o maneta até era ‘franciu’ e tratou-nos muito mal. Ontem como hoje.
Quanto ao Mar, está cada vez mais insonso talvez porque, ao português, se secaram as lágrimas e já deixou de chorar e, sobretudo, de mamar...

Alice N. disse...

Adorei o texto e concordo.

Penso que o nosso problema maior não é o de sermos aquele maneta. O problema maior é o de não tentarmos nadar com o outro braço.

O jovem cá de casa que, por acaso, é nadador de competição, mostrou-me uma belíssima e comovente prova: a de um atleta nadando mariposa sem braços.
http://www.youtube.com/watch?v=gwsG1ic388E

Somos contraditórios como povo: ou queremos dar o passo maior do que a perna ou esquecemo-nos que, mesmo manetas, ainda temos o outro braço... É mais fácil virar as costas e chorar a desgraça.

Anónimo disse...

Infelizmente concordo, penso que essa "manetice" é um herança bem pesada que nós (portugueses) carregamos há muito.

Helena

joao alfaro disse...

Não concordo nada. Absolutamente nada. Como em todo o lado há o bom e o mau; o trágico e o alegrete; a virtude e o defeito. Há de tudo. Sem petróleo, nem ouro; sem grandes cabeças pensantes nem visionários da modernidade, parece-me que, na minha modesta opinião, estamos no sítio certo, o que significa que conseguimos sempre arranjar uma escapadela para subir na vida, sem dúvida, com muito sonho e engenho. Coisas dos portugueses. Felizmente.

DESIGN TÊXTIL disse...

AHAHAHHAHAH Dá uma vontade de rir...e rir! É o meu super ego a rir do meu ego. Muito bom.
Já tinha lido este texto há algum tempo, e hoje apeteceu-me ler de novo.
Como eu entendo o q está escrito.
Dá vontade de ouvir "saudades do brasil em portugal" de Amália Rodrigues e Vinícius de Moraes, na rua dos Clérigos, coberta de casacos...AHHAHAHAHA Muito bom rir da tristeza.

Sedentário disse...

A sua escrita é fortificante, fantastica e esse texto mostra o quanto a sua logica é aguçada e maravilhosa. Não posso falar de portugal ao pé da letra, pós nunca estive por ai, mas se portugal estiver contindo dentro da imagem que vc postou, então sou obrigado a concordar contigo. Abraços!

CF disse...

Muito bom post...