19 fevereiro, 2011

ERA UMA VEZ




Quando andava na escola ensinaram-me que a História serve para conhecermos o passado a fim de melhor compreendermos o presente para mais facilmente prevermos o futuro. Três falsidades.
1. A História não serve para conhecermos o passado.
A História dá-me informações sobre factos passados. Mas factos são uma coisa, a sua interpretação, outra. Sabemos, graças à História, que os Persas invadiram a Grécia, Júlio César foi assassinado, Roma caiu às mãos dos bárbaros, na Idade Média o ensino era feito nos mosteiros ou o que aconteceu nas vésperas da Revolução Francesa. Podemos ter números sobre as crises agrícolas, as taxas de natalidade, a economia, conhecer os sistemas políticos passados, etc. Mas nada disso nos permite conhecer o passado. As pessoas, e são as pessoas que fazem a História, não são simples objectos dispostos no espaço e no tempo cujas acções estão determinadas por leis e cuja vida está reduzida a uma simples exterioridade física. As pessoas têm uma estrutura mental, sentimentos, desejos, crenças, motivações, sonhos e toda uma estrutura de acção que jamais poderemos conhecer a posteriori. E se ousarmos falar aqui em conhecimento estará muito mais perto dele um romancista, graças à sua imaginação criativa, do que propriamente um historiador obcecado com uma leitura objectiva e rigorosa dos factos.
2. A História não ajuda a compreendermos o presente.
Eu sei que neste momento está a cair água sobre a minha cabeça porque está uma nuvem por cima dela. Há, pois, um efeito que resulta de uma causa. De facto, há uma razão suficiente para que tudo aconteça. Houve 25 de Abril porque havia uma guerra colonial. Mas o facto de existir uma causa não significa que essa causa por si só explique o efeito. A causa pode provocar aquele efeitos mas outros efeitos poderão resultar daquela causa. Efeitos completamente diferentes poderão ter origem numa mesma causa, do mesmo modo que duas causas diferentes poderão produzir o mesmo efeito. Pode estar a cair água na minha cabeça porque alguém despejou um alguidar numa janela pela qual ia a passar. E a água pode ser atirada 3 segundos antes ou depois de eu ter passado naquele lugar.
3. A História não permite prever melhor o futuro.
No dia 10 de Setembro ninguém previu o 11 de Setembro. Em 1916 ninguém previu a Revolução de 1917. Marx, com as suas inexoráveis leis históricas, não conseguiu prever a revolução russa. Ninguém consegue prever o que irá ser o mundo daqui a dois anos. Sabemos que, não tarda, está aí a Primavera, depois virá o Verão e a seguir o Outono. Mas ninguém sabe o que irá acontecer em Teerão, Moscovo, Atenas, Pequim ou Nova Iorque daqui a dois anos. Os seres humanos não são, como pensava Condorcet no século XVIII ou Watson no século XX, castores cujos comportamentos possam ser previstos e sujeitos a leis. Felizmente.

8 comentários:

estela disse...

discordo :)
a história pode tudo isso.
nada mais podemos conhecer além de factos ;) e esses são-o no passado. depois: como não somos bem capazes de existir fora da causalidade, o que foi serve de caminho e traz-nos onde estamos. pelo que os factos passados são um excelente mapa para a localização actual. e quanto ao futuro, não sei se é uma questão de previsão. lendo o que platão escreveu sobre a democracia, ou leonardo da vinci sobre o homem, ou até shakespeare, todos eles souberam "prever".
o mal disto não é a história - somos nós. nós que a interpretamos (desmerecendo os factos), que a usamos mal (inutilizando o presente) e teimamos repetidamente nos mesmos erros (envenenando o futuro). somos nós que damos cabo da história ;)

homburg disse...

O debate podería resultar tan apaixoante coma aburrido, e aínda excesivo para este formato, así frío, sen inmediatez nen posibilidade de enriquecer/empobrecer os argumentos con xestos, burlas, risos, miradas, etc.
Eu concordo no básico, sen dúbida. Que é o básico? A Historia é producto da interpretación e, a súa funcionalidade para o noso día a día e para prever o futuro é máis que discutible. Agora ben, talvez se o aplicamos a unha escala persoal, seguramente de nda nos sirve saber quen son os nosos pais ou que os nosos avós, onde é que nacimos e por que, etc. Talvez non nos vai salvar eso das quebras do presente ou dos desastres do futuro, é posible que papá zoupara en mamá e que nós repitamos (xa non en mamá). Talvez. Pero que sería de nós sen todos eses datos, sen esa 'necesidade' de buscar/nos cara atrás? Polo momento non é posible facelo cara adiante.
Algo así podería ser unha primeira intervención miña nese suposto debate. Eso por non falar da súa perversa intención de deixarme sen traballo, claro.

Anónimo disse...

Até que enfim... escreves um post com o qual não concordo.
Todo o texto é um enorme sofisma.
O facto de, em 10 de Setembro não ser possível prever o 11 de Setembro, não significa que, noutros aspectos, a História não nos permita compreender melhor.
O que foi e o que aí vem.
Aliás, gostava de te pedir que imagines um mundo sem História, um mundo sem memória do seu passado, sem compreender porque somos o que somos e chegámos onde chegámos.Seria possível?
Acredito que te divertiste a escrever este post; mas tu sabes que é um enorme sofisma, uma brincadeira intelectual.
Bom domingo,
josé manuel chorão

José Ricardo Costa disse...

Meu deus! A história devia ser disciplina obrigatória do 1ºano ao 12ºano. Massacram-nos com doses industriais de Matemática quando, se exceptuarmos engenheiros, coisas financeiras e mais uns saberes avulsos, seria bem mais importantes saber História. Eu adoro História! O que eu estou a problematizar é o estatuto científico da História e a obsessão positivista e racionalista de transformar a História numa ciência inspirada no modelo das ciências da natureza. O que eu quero dizer é que a História não tem leis, não tem regularidades e mecanismos intrínsecos de previsibilidade. Ok, depois do jogo de futebol acabar, sabemos por que razão o Benfica ganhou 2-1 ao Estugarda. Mas um jogo de futebol não está sujeito a leis como a natureza. Por outro lado, o que significa ter acontecido o que aconteceu? O que pensavam, o que sentiam, o desejavam as pessoas que fizeram o que aconteceu? E era mesmo aquilo que queriam que tivesse acontecido? Sabemos lá nós. Entre nós e eles há um imenso nevoeiro. É neste sentido que julgo que, para conhecermos melhor as Guerras Napoleónicas, talvez seja mais indicado pegarmos no Tolstoi do que num livro qualquer que me dê apenas indicadores sociais, económicos, políticos e o raio. Mas temos que os conhecer, claro. Não estou a dizer que devemos queimar os livros de História. Não sou nazi nem me chamo José Sócrates, desejando reduzir o conhecimento humano e a cultura à posse de um Magalhães.

sLx disse...

É evidente que o nosso querido bloguista não vê a História como algo inútil, pelo menos deve ser essa a opinião para quem leu meia dúzia de posts do Ponteiros Parados.

É evidente que a História nos dá informação e conhecimento que não teríamos de outro modo, e ainda hoje há miséria desnecessária por não se dar ouvidos à História. Por exemplo, a administração Bush teria feito melhor se soubesse um pouco mais do passado que define as relações entre sunitas, xiitas e curdos no Iraque (conhecimento do presente). Outro exemplo: não é preciso ser futurologista para ter adivinhado, em 2005, que a Venezuela de Chavez iria por este caminho (conhecimento do futuro).

O que me parece do José é que ele reclama da História a incapacidade de recolher a essência das diversas épocas que a História pode estudar. É verdade mas porque simplesmente não existe essência alguma. Existiram pessoas com crenças, desejos e repulsas, intenções e medos, com mais ou menos poder e com diversas personalidades que uma rede causal infinitamente complexa juntou no mesmo local. E nesse interagir construiu-se o presente deles que é agora o nosso passado. Tudo o resto é interpretação, mapas de um território que de outra forma estará sempre indisponível. E a História é a melhor forma, até agora, que conhecemos para desenhar esses mapas, para construir essas interpretações. A Ficção é realmente outra dessas formas, se tivermos a sorte de ter escritores dessa época (infelizmente, não há para muitos casos). Mas não é tão confiável como o método histórico moderno.

jrd disse...

Reconheço que muitas das ‘estórias’ que a História nos conta, carecem de autenticação e não “sei” da existência de um notário supremo.
Não obstante, existem fontes históricas que são fidedignas e que, a priori, não devem ser contestadas porque é a própria ciência que as comprova.
Quanto a previsões para o futuro (só podiam): Ocultistas como Nostradamus, Cartomantes de feira, Pitonisas e Adivinhos de vão de escada, sempre os houve e desconheço se alguns acabaram por morrer ricos, com excepção dos que também eram economistas, evidentemente…

homburg disse...

Unicamente por complementar un pouco o que xa escribín no meu anterior comentario: dicía que concordaba no básico, eso quería tamén dicir que me parecía entender o sentido que tiña/ten o post (para nada asociei o plantexamento do discurso cun sentido nazi, que conste); digo ademais que en todo caso a Historia si que nos ensina por adiantado evidencias: todo acaba (grandes imperios, grandes culturas, grandes recursos, etc.) e, polo xeral, todo acaba mal. Finis gloriae mundi.

PR disse...

Era um daqueles jantares muitos “chatos” : A meu lado, um sujeito, cheio de importância, gestor empresário, todo cheio de si. Com alguma condescendência, estando a meu lado, sentiu-se na “obrigação” de estabelecer alguma conversação, questionou:
O que faz? Respondi: lecciono, história, mais propriamente história da arte. Resposta: - ah! Isso não tem lá grande utilidade nos dias de hoje,…pois não?
Retorqui: Reparo que usa aliança, não me leve a mal, mas quantos anos de casamento?
Respondeu de pronto: 32, muitos bons!
Tornei a retorqui: - Muito obrigado pela sua resposta, acaba de fazer prova da importância da história e do fato de a conhecermos.
Respondeu: Como? Não entendo?
Expliquei-lhe, de forma paciente, como costumava fazer com os meus alunos: É simples, para se casar pelo registo civil ou pela igreja necessita de uma certidão de nascimento: Para solicitar essa certidão tem de saber quando nasceu e onde nasceu, para poder saber onde requerer a sua certidão. Como vê acabou de utilizar dois paradigmas fundamentais da história: tempo e espaço.
Mas tudo isto, meu carão JR, eu sei que tu sabes, ou não ilustrasses o teu post com a Liberdade guiando o povo, desse magnífico romântico Eugéne Delacroix; um óleo sobre tela datado de 1830, que hoje podemos apreciar no Louvre.
Cumprimentos. PR