14 fevereiro, 2011

ENCONTRO DE GÉNIOS



Eu acho esta história, contada por Liv Ulmann, uma pequena maravilha.
Durante um período em que a actriz sueca esteve em Nova Iorque a fazer uma peça de teatro, Woody Allen convidou-a várias vezes para jantar apenas pelo prazer de a ouvir falar sobre Ingmar Bergman, o seu ídolo. Ela foi não só a mais bergmaniana de todas as bergmanianas actrizes mas também uma das suas seis mulheres, conhecendo-o, portanto, melhor do que ninguém
Entretanto, Bergman vai a NY com a sua então mulher, para verem a peça representada por Liv Ulmann.
Woody Allen sabe da visita do mestre e, entusiasmado, não resiste a pedir à amiga para o conhecer pessoalmente. Combinam então um jantar no hotel onde está o casal Bergman. Garante Ulmann que foi rigorosmente verdade o que aqui se conta.
Woody Allen e Liv Ulmann chegam juntos à suite de Bergman. Entram, Bergman e Woody Allen apertam as mãos e, sem nada dizerem, dirigem-se para a mesa para jantar. Durante o jantar passam todo o tempo a olhar um para o outro sem dizerem uma palavra. Foram as mulheres que, perante esta situação embaraçosa, tiveram de passar o tempo a conversar e a quebrar o gelo. A única reacção deles terá sido apenas um ligeiro sorriso perante uma graçola acerca da animada conversação das mulheres. De resto, nada. Limitaram-se, no fim do jantar, a apertar novamente as mãos para se despedirem.
Quando Liv Ulmann e Woody Allen saem do hotel, este vira-se para a actriz sueca e diz, emocionado: "Obrigado, Liv, foi genial!".
 Mais tarde, já em casa, ela recebe um telefonema de Bergman. Era para agradecer, entusiasmado, aquele maravilhoso encontro entre os dois cineastas.

4 comentários:

jrd disse...

Geniais: Os personagens, a história e o poste.
Quem (se é que há alguém) não os conheça, poderia dizer que se tratava de dois cineastas do cinema mudo...

(Gostou da resposta no bth?)

josé manuel chorão disse...

As palavras servem para falar das aparências, das ilusões.
O essencial não cabe em palavras.
Portanto, pessoas pequenas falam de coisas pequenas. Dois génios, como é o caso, não precisam dizer nada para se entenderem.
História deliciosa.

JCM disse...

Conheço uma história parecida, também deliciosa, mas onde o discurso flui como se fosse silêncio. Poucas pessoas saberão quem foi Nicolai Hartmann. No entanto, chegou, na Alemanha, a ombrear em fama com Heidegger. O Delfim Santos foi aluno dos dois. E a obra de Hartmann ainda era lida nos anos 80 do século passado. Tanto Hartmann como Heidegger são responsáveis por, no século XX, uma renovação do interesse pela Ontologia (juntaria também Jaspers). A certa altura, ambos foram professores em Marburgo. Traduzo, da introdução de Emilio Estiú à tradução castelhana do Neue Wege der Ontologie, de Hartmann, uma anedota veiculada por Robert Heiss: “Ambos viveram em Marburgo, e, no ambiente universitário da cidade, circulou uma caracterização que visava as relações entre os dois pensadores: Heidegger visitava Hartmann ao anoitecer; este deixava-o falar e, à meia-noite, quando o autor de Sein und Zeit estava esgotado, começava a sua exposição. Assim, um monólogo se opunha a um outro.”

Recordo apenas que o anoitecer na Alemanha, durante o período de aulas, deve ser muito mais cedo que em Portugal.

Sedentário disse...

Essa história é realmente perfeita. O cinema mudo faz parte não só na ficção dos seus trabalhos, mas tbm na vida dos dois grandes génios que não precisam falarem nada para dizerem o indizível. Abraços!