05 fevereiro, 2011

DIAS FELIZES


Dizia há dias uma aluna que antes queria que lhe cortassem uma mão do que ficar sem telemóvel. Um ser humano que diz que antes queria que lhe cortassem uma mão do que ficar sem telemóvel, não merecia que lhe cortassem a mão mas que lhe cortassem a língua.

19 comentários:

Fred disse...

Isso é que é amar o telemóvel acima de tudo! lol

Um abraço!

ANA disse...

É radical mas concordo. Eu até estou a pensar desfazer-me do meu... Recordo com saudades os tempos em que tal aparelho não existia... Aliás nem compreendo qual o interesse dos miúdos em estarem sempre contactaveis/controláveis pelos pais...

Alice N. disse...

Bom, pelo menos a cabeça, essa, parece que, em parte, já foi cortada...

josé manuel chorão disse...

Coitada da aluna. A sociedade em geral e a escola em particular já se encarregou de lhe cortar na inteligência até ao mínimo que lhe permita apenas alimentar a sociedade de consumo sem pensar nela...e tu ainda lhe queres cortar a língua?
Deixa a rapariga comunicar as suas banalidadezinhas; a escola já lhe fez suficiente mal, já lhe deu cabo da vida, não lhe tire ainda as amigas...

estela disse...

que exagero Zé Ricardo ;)
não lhe perguntaste o que faria ela quando lhe tirassem o telemóvel 2 vezes? ;)

jrd disse...

Mas se lhe cortassem a língua, ela ainda podia usar telemóvel para ouvir...

Anónimo disse...

"A sociedade em geral e a escola em particular já se encarregou de lhe cortar na inteligência"...

1ºerro crasso: "encarregou" em vez de encarregaram (ou teve, de facto, maus professores (que os há, claro, como noutros sectores profissionais), ou foi um mau aluno).

2º erro crasso: "na" em vez de a, para não criar equívocos semânticos.

3º erro ainda mais crasso: confundir as competências da família, e a dos pais em particular, com as da escola.

4º erro: quem deu cabo da vida à garota foi a geração que a pôs neste mundo, e a convenceu de que, comprando-lhe tudo e mais alguma coisa, mesmo antes de o desejar, lhe dava o céu (que é, em verdade, o que todos os pais anseiam dar aos seus filhos.Um céu sem escolhos nem dor nem esforço.
É legítimo, mas depois não culpem a escola desta maneira, que apanha as criancinhas a meio do filme e carrega sempre com o ónus da factura. Não encontram forma de fazer "mea culpa" e aceitar que dizer "a escola" é uma generalização abusiva?

Se sou professor?
Sou, sim senhor. Por isso me indigno ao ler escritos destes sobre o nosso trabalho. Dedicado a "essas criancinhas" que, assim, nos chegam às salas, e a quem temos de ensinar que o telemóvel é menos importante que um braço, uma perna ou a capacidade de reflectir; e que esta, em se perdendo, faz do mundo uma tela só a preto e branco. Coisa que o mundo não é.
Haja um limite!

M. Sousa Reis, (às 2:15 da madrugada, no fim de um sábado(!) a trabalhar para as crincinhas de muita Exª que para aí anda. Pois é verdade. Mas quem quer saber?)

josé manuel chorão disse...

Caro M. Sousa Reis:
1º: obrigado pelas correcções; escrevi ao correr do teclado, dirigindo-me ao autor do Blog, Amigo de longa data, esquecendo-me da necessária correcção; claro que isto não é desculpa, a realidade é que fui, de facto, pior aluno que o senhor. Mas é bom saber que há sempre um professor de caneta vermelha na mão, disposto a remeter-nos à nossa insignificância... reconforta-me a alma.
2º: apesar da hora a que escreveu o seu útil comentário, poderia ter reconhecido uma certa ironia no meu comentário, um certo cansaço de quem, há muitos anos, lida com os malditos telemóveis nas suas aulas, de quem já quase desistiu de fazer compreender às criancinhas o que é, de facto, importante nas suas vidas. "Quase", eu disse "quase".
3º: eu compreendo a sua amargura, acredite que compreendo (sou professor, exactamente dessa área que pretende pôr as crianças a pensar por si). Mas, apesar de todas as razões que possamos ter, não devemos levar as coisas tão a sério; as pessoas inteligentes são aquelas capazes de brincar consigo próprias.Digo eu, que fui mau aluno.
Polémica encerrada (por mim) e, mais uma vez, obrigado pelas suas correcções, tomei nota.

Alice N. disse...

Ontem, limitei-me a brincar com um assunto que não deixa de ser muito sério, mas, para a nossa sanidade mental, por vezes, é preciso. Quem está no ensino sente muitas vezes que o humor é um precioso balão de oxigénio para aguentar a asfixia em que vivemos. Porém, depois de ter lido os comentários de J.M.C. e de M.S.R., não resisti voltar ao assunto. Desde já, peço desculpa por meter a foice em seara alheia e espero que não me levem a mal a intromissão.

Em 1.º lugar, creio que ambos falam de aspectos diferentes e ambos têm razão. O sistema educativo que temos e a filosofia que lhe subjaz querem, de facto, cortar a inteligência aos alunos, embora todos finjam que não. Andamos muito preocupados com as "competências" dos alunos, mas poucos estão preocupados com um ensino competente. O que importa, para quem nos governa, é, como sabemos, o sucesso estatístico. É essa a escola que temos - "escola" no sentido em que J.M.C. usou o termo, creio eu. Apenas conheço a realidade do ensino secundário através do meu filho, pois dou aulas ao 3.º ciclo há muitos anos, mas vejo a desgraça crescente no ensino básico. No entanto, se ainda existe alguma na inteligência dos alunos, isso deve-se em boa parte à resistência de dedicados e resistentes professores como o serão certamente J.M.C. e M.S.R.. A escola também é essa escola dos que resistem e ainda tentam dar um sentido ao trabalho que se lá faz. E quem não é conivente com o faz-de-conta que tomou conta de tudo só pode sentir a amargura de uma oportunidade perdida e de um esforço pouco reconhecido. Remar contra a maré é cada vez mais difícil, mas vamos resistindo e talvez por isso ainda nem tudo foi cortado na inteligência dos alunos (e dos professores).

Em 2.º lugar, concordo inteiramente com M. Sousa Reis quando refere a culpa das famílias. Não é justo responsabilizar a escola por todos os males. Muitas vezes, o mal não é maior graças ao que os alunos recebem na escola. Mas também concordo com José Manuel Chorão quando diz que a escola tem feito muito mal aos jovens. Basta este exemplo que se dá na minha escola e em tantas outras: tenho vários alunos no 9.º ano que, desde o 7.º, têm vindo a transitar com cinco e seis negativas (ups, deveria dizer "níveis inferiores a três" para não traumatizar ninguém). Porquê? Porque o Conselho Pedagógico os tem passado, opondo-se às decisões dos conselhos de turma. Culpas? A legislação que o permite e os professores que têm pena dos meninos “coitadinhos-que-não-ganham-nada-em-ficarem-retidos-e-logo-darão-o-salto-e-ficarão-muito-mais-desmotivados-se-ficarem-no-mesmo-ano”. Nem todos gostam de remar contra ventos e marés... Enfim, creio que não é apenas a inteligência que se tem vindo a cortar, mas, acima de tudo, o decoro e bom senso: o problema vem de cima para baixo e, muitas vezes, somos mais papistas do que o Papa.

Peço desculpa pelo longo comentário. Depois de ter passado boa parte do meu sábado a corrigir testes intermédios e de me preparar para também assim passar o domingo, creio que também já perdi algum sentido de humor. Vamos lá ver se, com isto, não vai por aí algum erro crasso imperdoável. Todos temos distracções, já que não somos infalíveis. Pelo menos, já constatei com alívio que não me esqueci de fechar nenhum parêntesis nem misturei graus com numerais ordinais (1º/1.º) - de resto, um erro ordinário bem desculpável face ao grau de gravidade do assunto em causa. Aceito humildemente as correcções que me queiram fazer, esperando, no entanto, merecer o benefício da dúvida, já que estarei longe de ser a melhor professora do mundo, mas não serei das piores, apesar de tudo. :)

Os meus cumprimentos a ambos os colegas e, mais uma vez, espero que não me levem a mal ter entrado na conversa.

Alice Nascimento

Anónimo disse...

"Enfim, creio que não é apenas a inteligência que se tem vindo a cortar, mas, acima de tudo, o decoro e bom senso: o problema vem de cima para baixo e, muitas vezes, somos mais papistas do que o Papa."
Colega Alice: exactamente!
Colocou o dedo onde vale a pena colocá-lo.
A sociedade está errada? Pois está. Muitos pais tambem o estão. Mas a escola não está isenta de culpas. E não são pequenas.
Cumprimentos.
josé manuel chorão

Elisabete Silva disse...

Caro José Ricardo: a mim interessa-me é saber se a foto não é de uma encenação de uma peça do beckett, creio que a do " Dias felizes". Se souber, diga-me.
Qt aos telemóveis, "frankly my dear i don't give a damn", gone with the wind, como sabe.
Atentamente,
E.

José Ricardo Costa disse...

Cara Elisabete, "Dias Felizes". obviamente.

Cumprimentos,

JR

José Trincão Marques disse...

O que a aluna queria era provocar-te. E conseguiu. Com direito a post e tudo.

Abraço

Anónimo disse...

Caro J.M.C.,
não vi assim tanta ironia no trecho do seu comentário, que assinalei. Noutros comentários, sim. E sem qualquer intenção de polemizar, refutei-o, porque me pareceu que, nesse passo, ela não existia.
Mas claro, só pode ter sido mesmo falta de inteligência. Seguramente "a escola" deve ter-me cortado alguma. Vou trabalhando com a que restou. É o que se arranja.
:=))

Colega Alice:
como sabe, não há erros escritos imperdoáveis, mas assinaláveis. Apreciei as suas reflexões, bem mais temperadas que as minhas. Mas faz-me sempre muita impressão ouvir dizer "a escola", como se fosse uma entidade abstracta.

Obrigado a todos.
M. Sousa Reis

Ana disse...

Se me permitem, e não pretendendo ofender ninguém, falamos muito "nesta nova geração"... mas serão só as novas gerações que vivem para o consumismo? Serão só essas que tem cabeça para usar chapéu? A verdade é que este espirito se instalou por todo o lado e não apenas nas novas geraçoes. Lógicamente ha aqueles que, em qualquer geração, remam contra a corrente, no entanto acho um erro que se descarte as geraçoes mais velhas: que estão a educar com base naquilo em que acreditam e que estão ao mesmo tempo, sempre que fazem as suas proprias escolhas, a marcar a sua posição no mundo.

Anónimo disse...

lindo, Ricardo, até me fez lembrar a parábola do Rei Salomão. Esta sim, é a verdadeira mãe... do telemóvel :)))

Helena

doce laranja amarga disse...

No outro dia, estava eu num forum de um dicionário na net e apareceu a expresão portuguesa, "prefiro ficar sem ouvidos do que ouvir tanto disparate".
O brasileiros dizem exactamente o contrario: "prefiro ouvir tanta asneira a ficar sem ouvidos".

Posturas contrárias perante a mesma realidade.
Tem de haver uma razão para isto, não tem?

José Ricardo Costa disse...

Claro que tem. Se considerarmos a asneira como parte integrante da vida, ficaremos certamente mais apaziguados com ela. Com a vida, claro, não necessariamente com as asneiras.

DESIGN TÊXTIL disse...

Mas...qual é o problema de dar a mão, o corpo, a vida pelo telemóvel?
E qual é o problema de conseguir viver sem telemóvel nos tempos de hoje?
E qual é o problema de criticar quem usa demais??
Nesta vida, temos que SER.
Não ter vergonha de assumir um vício ridículo, nem ter vergonha de colocar um tema tão absurdo no blog AHAHAH
Um artista plástico falando do Rio de Janeiro, comentou: " Eu adoro o Rio, porque aqui as pessoas SÃO."
Parabéns aos dois pela coragem!!! Já agora à minha também, de vos defender! AHAHAH