01 fevereiro, 2011

BUÍÇA, O REGICIDA


                                                                           JRC

Buíça. Chamava-se Buiça o homem que matou o rei D. Carlos naquela fatídica tarde de Fevereiro. Nome heróico para alguns, maldito, para outros. Para todos, ficou como Buíça, o regicida. Palavra feia que lembra pesticida, espermicida, fungicida. Compadre de Aquilino Ribeiro, frequentador do café Gelo, era um professor culto, um intelectual que acreditava na humanidade. Tornou-se regicida por imaginar a República como o início de uma sociedade justa.
Era ainda um homem bom, delicado, sedutor. Tinha uma irmã jovem muito doente. Buíça visitava-a de propósito para pegar nela ao colo e levá-la a passear pelo campo e apanhar ar puro.
Ainda hesitou bastante antes do regicídio. Viúvo, havia ficado com dois filhos pequenos que adorava: Elvira, uma menina de 9 anos e Manuel, um rapaz de 4 anos. Mas uma passagem do seu testamento, escrito 4 dias antes do regicídio, explica tudo. Vale a pena ler:

"Meus filhos ficam pobrissimos; não tenho nada que lhes legar senão o meu nome e o respeito e compaixão pelos que soffrem. Peço que os eduquem nos principios da liberdade, egualdade e fraternidade que eu commungo e por causa dos quaes ficarão, porventura, orphãos".

Quatro dias depois, com 32 anos de idade, estava morto. Elvira e Manuel, órfãos de pai e de mãe.
A República não fez de Portugal uma sociedade livre e justa. Nem a primeira, e muito menos a segunda.Tornou-se mesmo, tal como Weimar em relação a Hitler, no ovo da serpente que gerou Salazar.
A História é uma coisa complicada. Muitas vezes, é escrita direita por linhas tortas, outras, torta por linhas direitas. A ilusão de Buíça é a ilusão de quem pensa que as acções individuais, livres e racionais, se podem sobrepor às enxurradas dos fluxos históricos. Como se a nossa pequena mão pudesse decidir a direcção do vento.
Não sei se Elvira e Manuel viveram muitos anos. Se viveram, viveram num Portugal obscuro, miserável, triste, isolado. Com a preciosa ajuda da carabina do pai. Não tivesse sido assim e talvez Portugal, com Luís Filipe ou D. Manuel II, reis constitucionais, inteligentes, cultos, cosmopolitas, "europeus", continuasse a aperfeiçoar a democracia nascida em 1822 como qualquer outra monarquia democrática da Europa que nunca tivesse chegado a conhecer tiranos como Estaline, Hitler, Mussolini, Hosha, Ceausescu ou Salazar.
Buíça, pai babado, teria continuado, como o pai de Ulisses, a ensinar os nomes das árvores a Elvira e Manuel, e estes teriam crescido num país muito diferente daquele que viriam a conhecer. Não sei teria sido assim. Poderia ter sido assim.
Não faço ideia do que terá passado pela cabeça de Buíça naquele instante supremo e único, antes de perder os sentidos, após o tiro fatal. Terá pensado em liberdade, igualdade, fraternidade?
Acho que teria morrido mais feliz se tivesse imaginado a sua jovem irmã levada nos seus braços, tendo pela frente um enorme prado verde e florido, numa manhã quente de sol, olhando os lírios do campo levemente ondulados por um vento brincalhão e cheio de alegria. Os lírios do campo não são monárquicos nem republicanos. Podemos olhar à vontade para eles e ver apenas lírios do campo levemente ondulados por um vento brincalhão e cheio de alegria.

8 comentários:

estela disse...

buiça legou-lhes mais, muito mais que nome, respeito e/ou compaixão. legou-lhes a desimportância de poderem ser eles os lírios do campo de seu pai.

jrd disse...

Vou comentar com dois postes:

http://bonstemposhein.blogspot.com/2008/02/os-crimes.html

http://bonstemposhein-jrd.blogspot.com/2010/06/estampa-real.html
(vale a pena ler os comentarios)

Nada de pessoal contra os monárquicos.

homburg disse...

Sei que a pregunta pode resultarlle absolutamente fóra de lugar, seino, mais teño que facerlla: de que cor son para vostede eses lirios do campo?

José Ricardo Costa disse...

Caro homburg, mas os lírios do campo não têm cor. São demasiado livres para estares presos a uma cor.

JR

josé manuel chorão disse...

Excelente texto, mais uma vez.
Sabias que o Buiça era alentejano? Queria mudar o país e mudou. Não sei se foi para melhor ou pior. Não sou monárquico. Mas estes republicanos que temos tido...quase me dão vontade de o ser.

jrd disse...

Meu caro,
Não se trata de gostar ou não do homem. Não fora a sua (dele) sanha ridícula contra Saramago e eu nem sequer dava pela existência do personagem.
Entendo que se a monarquia não consegue sugerir outro pretendente (o fadista não conta), o tema tem de ser tratado com ligeireza óbvia.
Não me agradam reis, sejam eles monárquicos ou “republicanos”, sucessões dinásticas são um atentado ao direito a livre escolha pelos cidadãos.
Sou um grande admirador dos países nórdicos e não tenho dúvidas de que o seu sucesso tem, sobretudo, a ver com a idiossincrasia e o nível cívico dos povos e com os sistemas políticos adoptados, não com o facto de o regime ser ou não monárquico.
jrd

Anónimo disse...

Prezado Professor:
Ouvi dizer que o Marine Corps tem orgulho profissional dos belos tiros de Lee Oswald, que foi treinado por eles. Manuel Buiça foi instrutor de tiro e, como se viu, conhecia o que ensinava. O Exercito Português pode também se orgulhar do seu ex-instrutor. Sua má fama vem apenas do equivoco dos alvos, em vez de atirar em negros de além mar, foi atirar em príncipes cosmopolitas. Um mero distúrbio ideológico.
Atenciosamente,
Cláudio.

Nuno Gomes disse...

Caeiro em Ricardo ou Ricardo em Caeiro? Excelente mais uma vez.. Abraço. Nuno.