22 fevereiro, 2011

AS MULHERES DE JOYCE TENNESON




Quando as vi pela primeira vez tive a estranha sensação de já as conhecer. Lembrei-me logo do rosto de Calipso, a preclara ninfa de belas e longas tranças que quis casar com Ulisses e oferecer-lhe toda a felicidade do mundo, mas que este recusou porque o seu destino era Ítaca, onde Penélope fazia e desfazia o seu lençol de linho.Mas ocorreu-me igualmente a imagem de Pandora, a primeira mulher dada por Zeus ao Homem, vestida e adornada por Atena e Afrodite, mas presente envenenado cuja beleza e virgindade ocultava as desgraças que trazia. Não pude ainda deixar de pensar nas Ménades, aquelas ébrias sacerdotisas que subiam à montanha, dançando e cantando ao som de selvagens tambores para, no fim, se oferecerem nuas, à primordial Vontade de Dionisos. E Ofélia? Aquela Ofélia pintada por John Everett Millais em 1852 onde, morta, surge mais bela que nunca, deitada num riacho de águas serenas e rodeada de flores?
Mas depois pensei: não. Todas essas mulheres são demasiado reais comparadas com estas. Todas elas têm uma identidade, um rosto, um nome, uma impressão digital, ainda que literária.
As mulheres de Joyce Tenneson nem sequer são mulheres. São airosos novelos de luz que, de repente, decidiram repousar perante os nossos olhos, assim, vagarosas e mudas, com o pudor selvagem das pedras. Não se fazem ouvir: apenas sabem falar uma estranha forma de silêncio, só traduzível num dicionário feito de luz e de sombras. Porque silêncio é a única linguagem que sopra das suas bocas e, das suas línguas, sai apenas um sabor a musgo do qual deixam um húmido rasto na nossa perplexidade.
Não passam de nebulosas actrizes que representam o impossível papel de mulheres. Estas mulheres não são mulheres porque as mulheres não são assim. Mas estas mulheres são mulheres enquanto arquétipos do eterno feminino, do qual participam todas as outras mulheres.
Estas mulheres não vivem na penumbra dos bosques nem no fundo dos rios para se misturarem com o aveludado verde dos limos. Estas mulheres não vivem no cume das montanhas nem na solar liberdade da planície ou para explicar os ancestrais sinais da lua.
Elas nem sequer têm peso ou matéria, mas apenas uma pele que lhes dê uma visibilidade, um aspecto, um ar. E vivem só para poderem dar às mulheres uma respiração. Mas também um ritmo, ou até mesmo uma pulsação que lhes dê um motivo para dançar.
Estas mulheres não são gregas, nem romanas, nem bizantinas. Não são persas ou etruscas. Não são cristãs ou judias. Não são clássicas, nem modernas, não são românticas ou barrocas. Elas não conhecem a efémera passagem dos dias, anos ou séculos nem a fugaz geografia dos mapas onde foram surgindo países construídos por mortais.
Não conhecem o pecado, mas muito menos ainda a chave da virtude. Riem porque riem e não riem porque não riem. Talvez, em segredo, após desviarmos os olhos delas, possam andar, saltar, dançar ou rodopiar. Ou rir. E, se assim for, será então essa a sua maneira de elaborar uma moral.
Porque a sua única moral é a moral do sangue e do ar, do vento e da água, da penumbra e do fogo, das cores e da terra. Talvez um dia venham a comer laranjas ou figos, sujando com vívidas cores os seus dentes alvos. Ou até mesmo a pisar flores. Mas só para vislumbrar levemente o sabor da mortalidade.
Deixemo-las, por isso, ficar assim, absolutas e altivas na sua auto-suficiência. Não queiramos levá-las para as nossas mansões de ferro e cimento nem embrulhemos os nossos desejos como presentes inquinados. Não sejamos nós a abrir-lhes a caixa que Pandora um dia nos deixou.
Não lhes façamos perguntas, nem interrompamos a sua quietude e impavidez, abandonadas que estão no sonho que sonham sobre si próprias. Deixemo-las, assim, exactamente como sabem ser.
Pecado, sim, é expulsar alguém do seu sonho.

8 comentários:

Anónimo disse...

Essa tua imaginação não pára, amigo.
Uma mulher é um "airoso novelo de luz"? Talvez. Mas tenho dúvidas.
Para mim, uma mulher é um ser que se ama. Loucamente, apaixonadamente. E nisso se encontra a razão de viver.
Ou, então, uma mulher é um ser que nos é indiferente.
Tudo se esgota no afecto e no desafecto.
josé manuel chorão

jrd disse...

Deixemo-las pois sonhar sobre si próprias, todas as mulheres.
Se elas acreditarem que são belas,o mundo também acredita e eu faço parte desse mundo.

DESIGN TÊXTIL disse...

Você, sem se prender às rimas, versos, estrofes, ritmos, sílabas métricas, etc...consegue fazer a mais belas das poesias.

addiragram disse...

Um belo texto. um hino à mulher não-arquétipo?

Fred disse...

Excelente leitura!


Um abraço!

ANA disse...

Que ninguém,por ser jovem, tarde em filosofar nem, por ser velho, se canse da filosofia. Porque nunca se é nem demasiado jovem nem demasiado velho para alcançar a saúde da alma. O que diz que a hora de filosofar ainda não chegou, ou que já passou, é semelhante ao que diz que a hora de ser feliz ainda não chegou, ou que esta já findou. Por conseguinte, tanto o jovem como o velho devem filosofar, um para que, apesar de a idade avançar sobre ele, se conserve jovem em bens, por causa da alegria [que sente] em relação ao passado, o outro para que, embora jovem, possa simultaneamente amadurecer graças ao seu destemor diante do futuro. Convém por isso meditar sobre as coisas que dão origem à felicidade, pois quando ela está presente temos tudo, enquanto que se está ausente tudo fazemos para a alcançar. (...)
Carta de Epicuro a Meneceu, Saúde
José Ricardo, os seus textos são deliciosos, fazem-me sorrir, contribuém para a minha felicidade. Bem haja

Fevereiro 23, 2011

Alice N. disse...

Lindíssimos - texto e fotos. Poesia pura.

Anónimo disse...

E ao ser mulher, parte desta divindidade translucida emerge dentro de mim, ao contemplar estas criaturas, envolvidas de um pó fino que pareçe que se dispersa só de pensar que se pode tocar...é admirável...divino...