21 janeiro, 2011

A QUINTA


                                          Heinrich Kühn, Wiese in Birgitz (Hans und Mary sitzend), c. 1908

Andei hoje a arrumar livros. Por vezes não resisto e abro um deles só para espreitar uma frase, um parágrafo, enfim, ver como começa. Foi o que aconteceu com a Sibila. Fui ver como começa e começa assim:

Há uma data na varanda desta sala - disse Germana - que lembra a época em que a casa se reconstruiu. Um incêndio, por alturas de 1870, reduziu a ruínas toda a estrutura primitiva. Mas a quinta é exactamente a mesma, com a mesma vessada, o mesmo montado, aforados à Coroa há mais de dois séculos e que têm permanecido na sucessão directa da mesma família de lavradores.

Esta casa é como se fosse uma pessoa. Tal como uma pessoa, também uma casa se constrói e reconstrói. Tal como uma pessoa, a casa não é hoje o que foi ontem nem o que será amanhã. E lá está a data na varanda para indicar o momento da reconstrução. As datas nas vidas das pessoas são como a data naquela varanda: inserem-nos no tempo, fazem-nos ser da mesma substância do tempo. Mutáveis, efémeros, feitos de uma memória de um passado que já não existe e de expectativas a respeito de um futuro que ainda não existe. 1870 é apenas uma data, um ponto perdido numa torrente de datas passadas e futuras. As datas, no fundo, não passam de jangadas às quais nos agarramos para não nos afogarmos num enorme oceano temporalmente indeterminado e onde todos os momentos da vida se misturam.
Mas, depois, há a quinta. A quinta surge aqui como um húmus da casa, uma matéria orgânica que alimenta e vitaliza a identidade da casa para além de todas as datas. A quinta não tem data. É como o fogo de Heraclito, de onde tudo parte e onde tudo regressa sem nunca se extinguir. A casa não é a quinta mas está na quinta, alimenta-se da quinta e renasce das cinzas a partir da força vital da quinta. É como se fosse uma espécie de inconsciente da casa que, com as suas pulsões atemporais, fazem a casa mexer-se, renovar-se, alimentar os seus próprios desejos.
As casas são feitas de desejos cronologicamente espetados no tempo mas é a quinta que faz a casa respirar, sustentar o bater do seu coração e espalhar um sangue quente e forte por todas as suas veias.

6 comentários:

josé manuel chorão disse...

As casas são algo mágico, para mim.
Mais ainda as datas, feitas de números, inventados para fingir que dominamos o Tempo.
Para fingir que percebemos o Tempo.
Para fingir, apenas.
________
(Deves ter arrumado muitos livros...estiveste a lê-los, foi o que foi. Confessa.)

José Borges disse...

É engraçado, porque sempre que me lembro da Agustina, há, em geral, uma palavra que me vem à cabeça: 'vessada'.

jrd disse...

Eu, sempre que penso em arrumar os livros, penso logo em mudar de casa e depois não faço nem uma coisa nem outra.

Boa reflexão, se for o caso.

Mar Arável disse...

Gosto dos livros desarrumados

é o único modo de os encontrar

Belo texto como sempre

Marina disse...

adorei o trecho, sem dúvida que irei adquirir esse livro, deixou'me com o bixinho cá dentro ')

Anónimo disse...

Arrumar uma estante é uma arte muito complicada... Pelo texto, o Sr. deve ter uma bela coleção de Heidegger por aí. Permita-me uma sugestão. Coloque do lado do "pensador" as obras de Lukács. "A Destruição da Razão" vai fica muito bem ao lado de "Ser e Tempo". Como diz, o Sr. mesmo e o bom e velho I. Berlin: equilíbrio é tudo!
Atenciosamente,
Cláudio.