14 janeiro, 2011

A PROFANÍSSIMA TRINDADE

                                                         Elias Goldensky, Portrait of Three Women (1915)                                      

O título, na verdade, apresenta-nos três mulheres. Mas há aqui uma ambiguidade que não me deixa de surpreender. Serão três mulheres, certo, mas bem poderiam ser três perspectivas diferentes de uma mesma mulher. A semelhança entre elas é tão grande que permite mesmo  pensar numa montagem.
Mas façamos agora o seguinte exercício. Imaginemos que a fotografia tinha o título Portrait of a Woman. Desconfio que, neste caso, iríamos em busca de diferenças entre as três figuras, conseguindo ver as diferenças que não consegue ver quem vê apenas uma mulher. Em suma, tanto é possível, aqui, configurar uma multiplicidade na unidade como, em sentido inverso, procurar a unidade na multiplicidade.
A nossa percepção da realidade nunca é passiva e inocente. É por isso que é diferente de uma simples sensação. Esta envolve um processo meramente fisiológico e sensorial. Tem que ver com o modo como um estímulo exterior afecta um órgão sensorial (o olho, o ouvido, a pele). A percepção é mais complexa. Pressupõe uma experiência mental activa, dinâmica, que organiza a multiplicidade dispersa de estímulos vindos do exterior, conferindo-lhe um sentido. Se afastarmos ligeiramente os três lados de um triângulo, dando origem a três linhas descontínuas, continuaremos a ver um triângulo, apesar deste já não existir. Se eu escrever "0s 0lhos" e "201340480", onde víamos letras passamos a ver números. E, mentalmente, sabemos que não há qualquer semelhança entre números e letras apesar de serem fisicamente iguais. Explica-se assim, também, as ilusões ópticas. Uma ilusão óptica é um processo mental em que passa a haver uma descontinuidade entre os olhos e a mente. Por exemplo, uma incapacidade para, numa imagem, isolarmos uma parte de um todo.
Seria interessante, no caso desta fotografia, fazer uma prova cega. Tentar adivinhar se se trataria de uma mulher ou de três mulheres. E ver quem apostaria numa única mulher ou em três mulheres. Mas podemos ainda fazer outro exercício: tentar ver, em simultâneo, uma e três mulheres. É perfeitamente possível. Uma estrutura trinitária com o mesmo valor ontológico da Trindade divina na qual três Pessoas distintas se consubstanciam no mesmo deus ou em que um deus se manifesta através de três Pessoas distintas. Santo Agostinho, para o explicar, fala da mesma água que pode surgir no estado sólido, líquido e gasoso. Realidades físicas tão distintas mas que nunca deixam de ser água. Água, sempre a mesma água. Mas levar com um bloco de gelo na cabeça não é o mesmo que refrescar o rosto com água. E mais confusos ficamos ao sabermos que tanto o gelo pode derreter, como a água com que molhamos o rosto poderá solidificar.
Não sei explicar como, mas consigo ver, nesta imagem, ao mesmo tempo, três mulheres e uma única mulher. Esta fotografia deveria chamar-se Sem Título.

5 comentários:

jrd disse...

Era inevitável. Já sabia que, mais tarde ou mais cedo, eu iria ficar entalado e sem saber como comentar.
E agora, o que e que eu faço?...

Já sei! De repente lembrei-me de José Prat quando disse que: Sempre que alguém afirma que dois e dois são quatro e um ignorante lhe responde que dois e dois são seis, surge um terceiro que, em prol da moderação e do diálogo, acaba por concluir que dois e dois são cinco.

Para mim são duas, as mulheres…
jrd

josé manuel chorão disse...

Eu acho que são 3 gémeas; ou seja, sendo aparentemente 3, na verdade são uma apenas em diferentes versões.
E, como diziam os amigos romanos, que "seja feliz aquele que compreender a causa das coisas".

Margaridaa disse...

Caro JRC
É verdade que vou passando assíduamente e não comento muito, mas hoje não escapa! É sempre com muito prazer que leio o que escreve, sobre os mais variados temas. Gosto, gosto muito!

José Ricardo Costa disse...

Margarida, obrigado. Beijinho.

Ega disse...

É por estas e por outras que a arte nos é tão proveitosa.