15 janeiro, 2011

POVO

                                                                 Bruegel, Baile de Camponeses
                     
Detesto toda esta retórica de enaltecimento do povo. Mas o que tem o povo assim de tão recomendável? Mas o que é o povo? O povo, como qualquer outra classe social, tem gente boa e sacanas da pior espécie. E que mérito existe em ter nascido humilde? Ter nascido humilde não faz um ser humano melhor ou pior. Ser humilde é mau e não é nenhum motivo de orgulho. Nem torna necessariamente um ser humano numa pessoa boa ou social e moralmente recomendável. Esta retórica da lama, do berço de lata, do ter andado descalço na aldeia e a comer pão duro é absolutamente abjecta. Esta canção do pobrezinho para embalar o povo que fica orgulhoso por ver um dos seus no altar da sociedade, dá-me vontade de vomitar.

5 comentários:

jrd disse...

Já somos dois com o estômago às voltas, mas eu também estou com urticária.
O que vai ser do povo?
Com tanta lama, vai ter de deixar de lavar no rio.

josé manuel chorão disse...

Para além desta retórica de sabujos que só se misturam com o povo para lhe pedir o voto (e no resto do tempo o desprezam)o curioso é observar que o próprio povo se despreza a si mesmo e ambiciona deixar de o ser.
Mas gostam que lhes vão dar palmadinhas nas costas antes do voto. É a oportunidade de todas as varinas deste país dizerem umas tretas (aos gritos, normalmente) nos Telejornais. Haja pachorra...

Anónimo disse...

A náusea, de que partilho, não nos encaminha, afasta-nos.
A repulsa distancia-nos.
Fica o caminho livre para o "povo" que se identifica.

José Cipriano Catarino disse...

Pois eu digo como Cesário Verde:
"Povo! No pano cru rasgado das camisas
Uma bandeira penso que transluz!
Com ela sofres, bebes, agonizas;
Listrões de vinho lançam-lhe divisas,
E os suspensórios traçam-lhe uma cruz!"
Porquê? Por isto:
http://jose-catarino.blogspot.com/2010/11/as-enguias.html

Alice N. disse...

Sim, essa retórica é abjecta. Vale tudo para caçar votos.

É verdade: ter nascido humilde, por si só, não é motivo de orgulho e não torna necessariamente um homem bom. O mesmo se aplica a quem nasce rico, mas isso já desperta vaidades, sentimento de superioridade e orgulho. Porquê? De que se deve orgulhar alguém que já nasceu rico e nada fez por isso? Quando muito, deve ficar contente com a sua sorte, mas não o autoriza a olhar do alto. Mas quantos assim procedem?

Ser pobre não é motivo de orgulho, mas menos ainda motivo de vergonha. Porém, a humildade e pobreza são frequentemente alvo de desprezo, ainda que não assumido explicitamente. Mas vencer dificuldades tremendas, com esforço e trabalho duro, vencendo humilhações, só pode ser motivo de orgulho. Assim, parece-me que esse "orgulho" é mais uma afirmação de dignidade, o querer manter a cabeça erguida, apesar do corpo vergado - o que é bem mais fácil para quem nasce num berço de oiro. É por isso que considero que o povo, mesmo tendo pessoas boas e pessoas desprezíveis, no seu todo, merece ser enaltecido e as suas dificuldades, a sua luta pela sobrevivência respeitadas; do mesmo modo que merece ser enaltecido o rico que enriquece honestamente e contribui para o bem comum. O que é detestável, de facto, é toda essa demagogia e aproveitamento político. O povo não precisa de um dos seus no altar. Precisa de ser menos povo e menos humilde.