16 janeiro, 2011

O HOMEM É A DESMEDIDA DE TODAS AS COISAS

    Bruegel, Os Peixes Grandes Comem os Pequenos (1557)


Hamlet

Um homem pode pescar com um verme que de um rei tenha comido, e comer o peixe que desse verme comeu.
Rei

Que quereis dizer com isso?
Hamlet

Nada, se não mostrar-vos como pelas vísceras de um verme pode desfilar um rei.

William Shakespeare, Hamlet, Acto IV, cena III


Apesar das diferenças, é possível uma relação entre este desenho do pintor flamengo e a passagem do Hamlet.
A reflexão de Hamlet será mais metafísica: pensa, biblicamente, no pó a que todos nos reduzimos independentemente da riqueza ou estatuto social. Neste sentido, até mesmo um rei pode ficar abaixo de um verme, que está abaixo do peixe que pode ser pescado por um pobre. Um pobre, com uma cana de pesca, pode matar a fome graças a um peixe apanhado graças a um verme que se alimentou de um rei. Não há aqui a ideia de uma cadeia alimentar, de uma hierarquia, de uma ordem crescente, mas antes de uma unidade primordial que aglutina tudo o que é diverso e múltiplo e que, por isso, não passa de mera aparência. As vaidades e ambições humanas serão, pois, absurdas, perante esse murro no estômago existencial que é a consciência da nossa verdadeira condição.
No desenho, por sua vez, vemos um homem que abre a barriga de um peixe enorme. Do interior desse peixe saem outros mais pequenos dos quais saem outros ainda mais pequenos. Trata-se, por isso, de um conteúdo mais social e político. Mesmo assim não deixa de existir uma familiaridade com a ácida ironia do príncipe da Dinamarca. Também aqui a grandeza é relativa. Por muito grandes que possamos ser haverá sempre alguém maior do que nós. Um homem pode ser rico, importante, ter poder mas haverá sempre alguém mais rico ainda, mais importante e com  mais poder. Um leão é grande ao lado de um cão mas é pequeno ao lado de um elefante. O mesmo se passa com as hierarquias sociais. Se somos grandes aqui já seremos pequenos acolá. Não existe a grandeza absoluta. O pescoço de um rei pode acabar debaixo de uma guilhotina, o presidente de um país pode ter que fugir para outro perante a fúria dos pequenos que, todos juntos, serão maiores do que esse presidente, um empresário pode acabar esmagado por outro empresário, um grande país ser absorvido por outro país.
Duas belas imagens para os tempos que correm.

3 comentários:

josé manuel chorão disse...

Mais do que o homem ser a (des)medida das coisas, os tempos que correm são mais do género "As coisas são a medida de (quase) todos os homens".
Até os mais insuspeitos se vão vendendo em nome sabe-se lá do quê. Vão desacreditando.
A nossa era é a da morte dos valores. Outros surgirão, talvez. Se houver tempo para isso.

Alice N. disse...

Excelente. Um texto de leitura obrigatória, sobretudo para os que trazem o rei na barriga...

Abraço,
Alice

jrd disse...

Estranha cadeia esta, em que um pobre consegue ‘comer’ um rei –morto-, mas só depois deste ter ‘devorado’ muitos pobres –vivos-.
Aliás, para ‘comer’ um rei vivo são precisos muitos pobres…
A lei do mais forte impera até na maneira de como e quando, cada um ‘come’ cada um.
Fugi do tema? É natural, não sou forte em Shakespeare, que, se acaso lesse este comentário, seria muito capaz de responder: Words, words, words…