18 janeiro, 2011

MÚSICA E MATEMÁTICA


Barry Lyndon (fotograma)

Se há coisa que não faltou aos iluministas franceses do século XVIII foram ideias brilhantes. D'Alembert, por exemplo, defendia que grupos de matemáticos deveriam entrar clandestinamente em Espanha com o objectivo de tornar o povo espanhol mais racional para, deste modo, acabarem com a Inquisição e a retrógrada mentalidade religiosa do país.
Estes delírios iluministas deram início a uma terrível ideologia, tão obscurantista quanto aquela a que se opunham: o racionalismo e uma visão do mundo baseada num modelo matemático. É verdade que a valorização ocidental da matemática já vem da tradição pitagórica/platónica. É verdade que houve Galileu, Descartes e toda a ciência moderna. E não esqueço Espinosa e Leibniz.
Mas foi com o iluminismo francês que o modelo matemático passou a adquirir um cunho mais político, ideológico, doutrinário, agravado posteriormente com o positivismo e o cientismo do século XIX.
Hoje, toda a gente aceita, como se fosse a coisa mais evidente do mundo, que o polvo da matemática deve estender os tentáculos a todas as áreas da vida e do saber.
Quem não sabe matemática é um desgraçado que não irá ser ninguém na vida. Para se ser médico ou enfermeiro tem que se estudar matemática, nas humanidades tem que haver matemática para as ciências sociais, o raciocínio lógico-matemático é o modelo de inteligência por excelência.
O cúmulo dos cúmulos é vir agora defender que as criancinhas devem aprender música e a tocar um instrumento porque contribui para o desenvolvimento do seu raciocínio lógico-matemático, ficando por isso mais inteligentes. Ora, ficando mais inteligentes irão ser certamente pessoas de sucesso, os melhores alunos das suas turmas, com as melhores médias e, posteriormente, pessoas muito felizes, realizadas, com bons empregos, belas casas e belos e inteligentes filhos tão racionalmente lógico-matemáticos quanto os seus pais de sucesso.
Aprender violino, saber tocar uma sonata para piano ou simplesmente alguém sentar-se num sofá para ouvir um quarteto ou uma sinfonia está para a inteligência matemática como um martelo que serve para espetar um prego na parede. Filho, toca Mozart para vires a ser um dia engenheiro, minha filha, aprende piano e um dia entrarás em Medicina.
Não estará já a chegar a altura de irmos aos armários retirar os românticos do século XIX para lhes sacudir a poeira e metê-los por aí a arejar?

8 comentários:

josé manuel chorão disse...

Tens razão; ainda por cima, a Matemática tem tão pouco de racional e objectivo, que surpreenderia os menos informados, habituados que estão a colocá-la no altar do Pensamento; refiro-me, não à expressão matemática mas à filosofia que lhe está subjacente, mais comparável à poesia, essa sim, verdadeiro veículo de compreensão da realidade.

José Borges disse...

Zé Ricardo, a ideia subjacente deve ser a seguinte: 'se as humanidades não humanizam, talvez as matemáticas o façam'. Não sei, eu pessoalmente tenho pena de não saber nem música nem matemática. Ainda assim, concordo consigo.

Ana Paula Sena disse...

:) Efectivamente, a meu ver, e no meu sentir, a música vale por si mesma, acima de tudo. Se alguns efeitos colaterais se fizerem sentir, aproveitem-se, claro!

...a poesia, verdadeiro veículo de compreensão da realidade - não poderia estar mais de acordo com o comentador anterior.

Beleza sufocante da imagem: Barry Lyndon, de Kubrick. Ou um must da 7ª arte.

Ega disse...

Falta ainda o grego clássico e o latim, disciplinas (ou unidades curriculares como hoje se apraz dizer) que, juntamente com a geometria e a música, deveriam ser obrigatórias para os catraios.

De modo a que, aos 12 anos, já pudessem traduzir livremente Tucídides ou tácito.

Filho, traduz Heródoto, para um dia seres um grande gestor de uma mmultinacional, ou um markteer de grande gabarito, ou mesmo advogado de uma grande sociedade,ou quem sabe, traduzindo Cícero com afoito , um grandessíssimo político, quiçá, primeiro-ministro.

jrd disse...

Se fosse capaz, gostaria de ter escrito este poste.
Assim, limito-me a dizer que andam por ai alguns modernistas a fazer da Matemática bruxaria.

Rita TSBGC disse...

A Educação pela Arte e Para a Arte, procura muletas nos lugares errados, em vez de se assumir como inutilidade indispensável, esgravata na lógica utilitária a razão da sua existência.
A arte, seja na perspectiva empenhada do fazedor, seja na perspectiva embrenhada do fruidor, não mata a fome, não paga a renda, não garante cuidados médicos , nem assegura a reforma. A Arte não serve para nada e no entanto é a produção artística que diferencia as sociedades, é a cultura que confere identidade. Pela lógica, deveremos abandonar todos os projectos de educação artística por falta de aplicabilidade directa!
( quando me falam em retorno nesta área, gosto de responder que os primeiros resultados se sentem após 20 anos, ou apenas na geração seguinte...

Anónimo disse...

Por ser seu leitor contumaz, sei que esse post é fruto de uma noite mal dormida. Investir contra a matemática já é uma temeridade (o sr. não teria um blog sem ela, para ficar em um exemplo fútil), agora convocar em socorro os Românticos é um pouco demais... Aqueles poetas campestres, que exaltavam a natureza, as ruínas, a Idade Média e jogavam pedras no Iluminismo são os vovozinhos engraçados de Adolfo Hitler.
Atenciosamente,
Cláudio.

José Ricardo Costa disse...

Claúdio, a matemática é uma das grandes conquistas da inteligente e racional humanidade. Ninguém põe isso em causa. Mas fazer, hoje, da matemática o que foi em tempos a teologia, é profundamente redutor igualmente redutor. A matemática é importante onde deve ser importante mas fazer da matemática um padrão geral de compreensão e acção é perigoso. E tão perigoso como deixar Rousseau sem Voltaire é deixar Voltaire sem Rousseau. Foi isso que tentou fazer uma pessoa que prezo muito chamada Isaiah Berlin. Em vez de defender os racionalistas contra os românticos ou românticos contra os racionalistas, criticou os racionalistas através dos românticos e os românticos através dos racionalistas.
Abraço.