28 janeiro, 2011

CARNAVAL E QUARESMA

                                                             Pieter Bruegel o Jovem | Luta entre o Carnaval e a Quaresma

Ontem, numa aula de Filosofia, confrontei os meus alunos com a célebre provocação de John Stuart Mill: é preferível ser um homem insatisfeito ou um porco satisfeito? Ser alguém provido de qualidades como a inteligência, sentido estético, cultura, mas infeliz, ou um porco com uma vida cheia de prazeres, quer dizer, boa comida, bem tratado, numa pocilga de 5 estrelas?
O filósofo faz a pergunta com a clara expectativa de que todos os seres humanos irão escolher a primeira alternativa. Alguns alunos, porém, assumiram preferir a vida do porco.
Seria fácil fazer humor com a opção desses alunos. Acontece porém que a pergunta é falaciosa, padecendo de uma falsa dicotomia. Eu entendo o seu ponto de vista. Na verdade, existem elevadas qualidades humanas que pouco valerão num ser humano triste, deprimido, angustiado. E, por outro lado, a ideia de levar uma vida cheia de prazeres intensos não deixa de ser sedutora, sobretudo para um jovem.
A felicidade, porém, não se encontra nem na pocilga ideal nem naquele tipo de angústia intelectual, estética e existencial de que padecem apenas os seres racionais. A felicidade está algures entre o Carnaval e a Quaresma. No fundo, desde os gregos que encontramos um conflito entre o "Carnaval" e a "Quaresma". Trata-se, no entanto, de dois modelos completamente errados, escondendo ambos o facto de poder existir o meio-termo acerca do qual teorizou Aristóteles. Pode-se viver o Carnaval sem caírmos no buraco da irracionalidade, pode-se viver a Quaresma sem nos auto-flagelarmos existencial e intelectualmente. A vida e a morte, a alegria e a tristeza, o prazer físico e a sobriedade intelectual fazem parte da vida. Basta apenas saber vivê-los com equilíbrio para nos tornarmos num ser humano satisteito.

6 comentários:

josé manuel chorão disse...

Então e as outras alternativas?
Pode ser-se um homem feliz ou um porco insatisfeito. Ou não?

Alice N. disse...

Absolutamente de acordo e excelente, como sempre. Saber ser feliz é uma arte. Curiosamente, muitos defendem que no meio é que está a virtude, mas vivem mais de excessos do que de equilíbrio. Enfim, a velha distância que vai do dizer ao fazer... Fala-se muito da felicidade e pratica-se tão pouco por falta de sabedoria.

Um fim-de-semana entre o Carnaval e a Quaresma, Zé Ricardo. :)

jrd disse...

Eu acho que a pergunta devia também ser colocada aos porcos.
Por outro lado, não me parece razoável deixar o Carnaval para os porcos e a Quaresma para os outros que dizem que não são…

Fred disse...

Exactamente, concordo completamente com a Senhora Alice N. (desculpe-me mas não sei a sua faixa etária).

Realmente saber ser feliz é uma arte mesmo. Acima de tudo temos que ser optimistas.

Um abraço!

Alice N. disse...

Caro Fred,

Bem, a faixa etária já vai estando adiantadita demais para o meu gosto... A arte de viver é também saber aceitá-la e vivê-la bem.
Quanto ao resto, apenas "Alice" está muito bem. :)
Cumprimentos,
Alice Nascimento

Fred disse...

Da próxima vez trato-a somente por Alice então!

Cumprimentos.