07 janeiro, 2011

AFINAÇÃO OU DESAFINAÇÃO?

                                                                        Hammershoi

"E isto para não falar da inevitabilidade de ter de se ir a uma sala de concertos, ao vivo, começando por aquele ritual inicial das afinações dos diferentes instrumentos..."


Esta frase a respeito da prévia afinação dos instrumentos (sons que não são música) para se poder começar a produzir sons que são música, levou-me a pensar nalgumas diferenças entre os clássicos e os contemporâneos.
Ainda que não se seja melómano ou não se tenha o ouvido educado (como é o meu caso) ou mesmo que se o tenha deseducado através do lixo sonoro vindo do rock, da pop, do hip-hop e o raio, é impossível reagir mal aos primeiros acordes da 9ª sinfonia ou de uma suite francesa de Bach. Mesmo que não se aprecie por aí além, haverá inevitavelmente a consciência de uma seriedade estética e artística. Não por acaso, sempre que falo de música clássica aos meus alunos ou a dou a ouvir nas minhas aulas de Filosofia, não dou por reacções negativas, ainda que depois não percam 5 minutos das suas vidas a ouvi-la. E o mesmo se passa com a pintura clássica, a escultura, a literatura e a arquitectura também clássicas.
Ora, por que razão, grande parte da música erudita que hoje se faz, surja aos ouvidos das pessoas como os sons do "ritual inicial das afinações dos diferentes instrumentos"? Ou seja, mera cacofonia. E o que é válido para a música, é válido para a pintura, a escultura, a literatura ou a arquitectura. Há, claramente, um divórcio entre a arte moderna e o público, ainda que se trate de um público razoavelmente alfabetizado, ou seja, pessoas com cursos superiores.
Em Serralves, no Porto, não se paga entrada ao domingo de manhã. Das quatro vezes que lá fui (por acaso, sempre ao domingo de manhã) vi famílias inteiras a passear por aqueles enormes salões, olhando, perplexas, para as obras que ali vão sendo expostas. As pessoas olham mas não entendem. Algumas riem-se, mas a maioria, tendo certamente vontade de rir (eu tive várias vezes vontade de rir), não o fará certamente por pudor ou por achar que é estúpida e que o problema está nelas e não nas obras. Porém, se todas aquelas pessoas fossem, de repente, transferidas para o Louvre, o Prado, a National Gallery ou o museu do Vaticano, iriam certamente reagir de maneira diferente.
Eu não sou, no que diz respeito à arte, conservador ou reaccionário. Gosto muito de arte contemporânea nas suas diferentes expressões. Mas também estou certo de que se vende muito gato por lebre e que há muita infantilidade e vazias mistificações. Poder-se-á dizer que, hoje, muitas obras que no seu tempo foram incompreendias e até provocaram escândalo, têm um valor consensual e o aval das massas. A este respeito, é habitual dar-se o exemplo dos impressionistas. Sim, é verdade. Mas duvido que muita obra que hoje é compreendida venha a sê-lo no futuro ou que, nesse futuro, se torne referência com o estatuto de "clássica".
Uma das mais famosas teses de Hegel no campo da teoria estética é a da morte da arte. Será a arte contemporânea um sintoma disso mesmo? Por exemplo, a música que lembra o "ritual inicial das afinações dos diferentes instrumentos".

9 comentários:

helena disse...

Gosto da melodia que a imagem transmite.

Mar Arável disse...

Fez lembrar-me a interrogação

O Homem quanto mais culto mais livre ou o seu contrário?

Seja como for
afinados
os barcos
cumprem destinos
musicais

josé manuel chorão disse...

Há, de facto, um divórcio entre a arte moderna e o público, mesmo o público culto.
Ou os seres humanos estão a mudar ou a arte... deixou de cumprir a sua função.

jrd disse...

Conheci Hammershoi faz tempo, “encontramo-nos” na
National Gallery of Denmark em Copenhaga.
Confesso que desafinei, não me deixei seduzir pela sua pintura, talvez porque já estava negativamente sugestionado pela maneira exagerada como ele gostava de “ver as mulheres pelas costas”...
Mas quem sou para avaliar a obra do pintor?

José Manuel Vilhena disse...

É curioso...foi pelo meu fascínio por Hammershoi que vim ter ao Ponteiros Parados a 1ª vez.Em boa hora.
:)

Rita TSBGC disse...

A Arte precisa da experimentação e a experimentação é um processo de tentativa e erro; durante grande parte do tempo os resultados são esboços (roughs) nada apetecíveis.
Sem a experimentação os artistas estariam reduzidos a executantes, poderiam manter brilho e beleza mas arredariam a criatividade pura do processo artístico. O Labor da arte não é asséptico e nem será imune, contamina-se de mundo, e como este está entre o soluço e o grito, a arte vai tentar afinar a voz num diapasão desarmónico.
Um Professor da ESTC, costumava brincar com a ideia da arte Experimental, dizia que a arte contemporânea pedia aos fruidores que a completassem, apresentava-se fragmentada, como se uma aspirina se apresentasse em compostos pedindo ao doente que os juntasse e misturasse nas correctas proporções...
Talvez a fragmentação e a partilha dos tempos de processo em construcção sejam características da Arte na actualidade, talvez características transversais, presentes na civilização ocidental... ( fiquei a pensar ?)
Seja como for, prefiro contemplar um Rembrandt a tentar compor mentalmente a arte conceptual, mas creio que se prende com o factor emoção.
( para terminar, lembro-me de ser miúda e adorar a afinação da orquestra Gulbenkian antes dos concertos, mas também escutei muita dissonância e até a afinação prévia era mais apreensível, por mim que sou pouco dada a desarmonias ...)

José Ricardo Costa disse...

Rita, concordo absolutamente consigo. Como bem deve compreender, não estou a pensar no que de muito bom se faz hoje na arte, mesmo de um ponto de vista experimental, mas em muita banha da cobra que anda por aí e que se quer fazer parte por arte.

Rita TSBGC disse...

http://www.guardian.co.uk/science/2011/jan/09/why-we-love-music-research

Em tom de remate, lembrei-me de lhe enviar este artigo, combinado com o livro " O Sentimento de Si" do António Damásio, envia a fruição para o lugar da emoção e do sentir!

José Ricardo Costa disse...

Obrigado, Rita. Muito interessante. Eu sempre disse que a música tem um efeito no sistema nervoso central que mais nenhuma arte tem. Pode ter o cinema, por causa da música. Pode ter um texto, por causa da música. Mas imagem ou palavra sem música dificilmente terão o mesmo impacto.