12 dezembro, 2010

A TORRE

Bruegel

Aos fim-de-semana costumo fazer umas caminhadas mal o dia começa a nascer. Antes, porém, atravesso a rua para ir tomar café. No café onde costumo ir, àquela hora, estão sempre pessoas que ali vão acabar a noite, tomando o pequeno-almoço depois de saírem das discotecas. Falam, gritam, riem, gesticulam, fumam, como se ainda estivessem submersos numa ensurdecedora pasta cacofónica. Não deixa de ser um cenário engraçado: eles naquilo, e eu ao balcão de fato de treino e sapatilhas, pronto para iniciar a minha madrugadora caminhada.
Mas, mais do que engraçado, é um cenário bonito.
Eu sempre odiei discotecas. Literalmente, tudo nas discotecas. Há uns 6 ou 7 anos alguém me convenceu a entrar num desses manicómios nocturnos. Sim, foi horrível, uma mistura de Apocalipse de S. João com a festa do PSD Madeira. Mas se hoje alguém me perguntar o que poderá sentir um pinguim do Polo Sul que seja levado para uma floresta do Congo, saberei responder com conhecimento de causa.
Sei, por isso, o que representaria para mim passar a noite (e a manhã) como aquela gente que foge da cama como se o mundo fosse acabar no dia seguinte. Mas também entendo o que significaria para eles serem obrigados a irem para a cama às 11 da noite depois de beberem um chazinho e levantarem-se às 7 da manhã para vestirem os fatos de treino.
Eu acho aquela gente completamente tresloucada. Imagino também o que eles pensarão a meu respeito. No entanto, ali estamos todos juntos, cada um no seu mundo.
Este cruzamento espácio-temporal entre pessoas com sentidos de vida completamente distintos é um dos bens mais inestimáveis da civilização ocidental. A inexistência de um totem à volta do qual circulamos, havendo, em vez disso, uma procura individual da felicidade.
É isto que leva algumas pessoas a falarem em crise de valores. Mas não há crise de valores. O que há, cada vez mais, é uma pluralidade de valores. Já não vivemos no velho panóptico que era a aldeia horizontal onde todos vêem todos e são vistos por todos, ou onde todos controlam todos. O mundo, hoje, é cada vez mais vertical. No mesmo prédio podemos ter vários mundos e cada um vive no seu. E nem sequer se trata de uma torre de Babel. Não se trata de uma torre que todos partilham para se chegar ao céu. Aqui ninguém quer chegar ao céu.
Para muitos esta torre é um sinal de crise e de decadência. É uma torre onde se falam várias línguas, é verdade, mas também é uma torre onde as pessoas não precisam de comunicar entre si. Uns gritam, gesticulam e fumam ainda com as olheiras da noite, enquanto outros se preparam para caminhar ao som dos passarinhos e do cheiro matinal das ervas.
Isto, sim, é o paraíso. O deles e o meu.

5 comentários:

josé manuel chorão disse...

Não concordo. É claro que existe uma (enorme) crise de valores. Seria uma pluralidade de valores se cada um tivesse os seus e respeitasse os dos outros. Que bom seria o mundo, assim.
Mas não é isso que acontece, apesar de o quereres ver assim.
O que acontece é que alguns têm os seus valores, diferentes dos valores de outros.
Mas outros - muitos outros - não têm valores nenhuns, nem fazem ideia do que isso seja.Ou, sequer, que é possível.
Enquanto uns fazem os seus caminhos próprios (sem precisar de circular em torno de totem algum) outros limitam-se a errar pelos caminhos da vida, apardalados por existirem, tontos de não saberem pensar por si mesmos e optar pelo que lhes parecer melhor. E isso, meu amigo, é uma enorme crise de valores. Porque crise não é haver valores diferentes, relativos. Crise é não haver valores.Pelo menos para muitos.
E, por tudo isto, estamos todos cada vez mais distantes uns dos outros. Apesar da Internet e de toda esta cangalhada tecnológica...

jrd disse...

A crise de valores emerge quando há diferenças entre os ditos e, normalmente, são os valores dos outros que a determinam.

Não fora o hábito de madrugar e estaríamos mais de acordo. Discotecas!?... Bah!...

Fred disse...

Excelente leitura sem dúvida!

Um abraço!

estela disse...

também discordo.
não nos devemos iludir com um momento de aparente encontro. A coexistência de valores, o comungar da multiplicidade, só fariam sentido se fossem além desse momento das 7 da manhã, em que uns chegam e outros vão. Não é oluralidade, é mera coincidência ;)
Sermos uma estação de comboios moderníssima desta aldeia global, onde milhões de pessoas ao mesmo tempo, no mesmo lugar, seguem destinos absolutamente diferentes não deve ser confundido com o romantismo de estarmos afinal todos no mesmo barco, no mesmo planeta. não estamos.
que farias tu, se numa dessas manhãs não estivesse ninguém vindo da noite? desistirias da tua caminhada? irias à procura deles?

José Ricardo Costa disse...

Se não estivesse ninguém vindo da noite? Tomaria o café bem mais tranquilo. Mas quem diz que temos todos que estar no mesmo barco? Eu quero é ver muitos barquinhos cada um com o seu destino. É isso que nos distingue das formigas e das abelhas.

JR