28 dezembro, 2010

SOL OU SOMBRA


Pode chover ou abater-se uma tempestade, mas não é isso que conta; uma pequena alegria pode surgir frequentemente num dia chuvoso e fazer um homem parar algures, para ficar sozinho com a sua felicidade, ou então levá-lo a levantar-se e olhar para diante, independentemente do sítio onde se encontre, para depois se rir tranquilamente uma e outra vez, enquanto observa tudo em seu redor. O que é que existe à nossa volta que nos faça pensar? Uma vidraça límpida de uma janela, um raio de sol na vidraça, o avistamento de um regato ou talvez uma faixa de azul entre as nuvens. Não é preciso mais do que isso.
Noutras alturas, mesmo os acontecimentos pouco habituais são insuficientes para retirar um homem do aborrecimento e da pobreza de espírito; pode-se estar no meio de um salão de baile e mesmo assim permacer-se impassível, indiferente, sem se ser afectado por nada. Knut Hamsun, Pan, Cavalo de Ferro


Muitas vezes pensamos em certos períodos históricos como se de um dia ou instante se tratasse. Ou sujeitos a certos condições meteorológicas consoante a imagem positiva ou negativa que temos deles. Antigamente falava-se na "longa noite fascista". Como se 48 anos de História pudessem ficar reduzidos a uma noite. Nós pensamos na "Grécia Antiga" ou no "Renascimento" como se fossem luminosos dias de Verão ou de Primavera. Pensamos na Idade Média como se fosse um dia cinzento e chuvoso (veja-se, a este respeito, a importância plástica da luz  em O Nome da Rosa).
Mas a transformação da realidade em esquemas imagéticos desta natureza não deixa de ser ilusória ou de ter qualquer coisa de sincrético e infantil. A Grécia Antiga e o Renascimento estão cheios de pesadelos sociais, políticos, morais, de terríveis períodos negros. Morreram muito mais felizes inúmeros goliardos medievais do que um génio como Giordano Bruno no Renascimento. E quantas pessoas foram felizes na Alemanha nazi, incluindo judeus? Quantas belas amizades e paixões se formaram durante as guerras? E quantas pessoas viveram os melhores anos das suas vidas ou tiveram grandes alegrias durante a longa noite fascista em Portugal? E quantas pessoas se aborrrecem de morte durante os gloriosos anos de democracia, paz e bem-estar social, adormecendo no sofá em frente ao televisor?
Há, na vida, belos dias cinzentos e de chuva. Como há dias de luz e de sol que são insuportáveis. A infelicidade  está muitas vezes onde menos se espera. A felicidade também.

3 comentários:

josé manuel chorão disse...

Que bela ligação entre o texto de Knut Hamsun e o Benfica.
Tens toda a razão, a vida é feita destas pequenas (?) coisas: um raio de sol, uma flor que desponta entre as ervas, um golo do Glorioso a aquecer-nos a alma numa noite chuvosa.
Os mecanismos da felicidade estão ainda por compreender.
Talvez nem seja importante compreender, desde que continue a haver coisas como uma flor, uma gota de chuva a pingar da agulha de um pinheiro e, sobretudo, golos do Benfica (muitos, muitos golos). Assim vamos reinventando a felicidade, em cada dia de vida.

jrd disse...

De como eu “revi a felicidade no par de botas” do grande José Águas. No ano seguinte ainda houve uma alegria semelhante, mas logo se seguiu o “longo Inverno do meu descontentamento”, que dura há 48 (!) anos. Faça sombra ou faça sol.

Tudo isto é muito relativo, digo eu, que concordo que é redutor chamar aos 48 anos de ditadura “a longa noite fascista”
Entendo mesmo que devemos acrescentar-lhe o dia, a fim de perfazer as 24 horas e dar maior dimensão à metáfora.
Aliás, aconteceram outras noites famosas como a de Cristal, a das facas longas, a da 'Bücherverbrennung', todas com a mesma imagem de marca, cuja repercussão ainda hoje se faz sentir, por exemplo graças a 'criatividade' da descendência dos tais judeus que se sentiam felizes na Alemanha nazi.
É claro que também havemos de ter o dia da ira, mas por aí não me meto.
Enfim, trata-se de um velho hábito considerar a noite pior do que o dia, mesmo considerando que as noites de uns, são melhores do que os dias de outros. Tudo depende do turno.
Quanto aos goliardos e a Giordano Bruno, a distância é “infinita”: Aqueles morriam a fazer cabriolices, este morreu quietinho no churrasco da santa inquisição.
Como diria Sherlock, Guillaume de Baskerville: Elementar, meu caro Watson Adso de Melk.

JPV disse...

O futebol é um triste fado e uma ilusão, como o outro F.