18 dezembro, 2010

O UNO E O MÚLTIPLO


                                                                     Peter Severin Kroyer

Pronto, sei que é uma vergonha, mas nunca li o Moby Dick.
Há dias, estava eu a trabalhar na biblioteca da escola, olho para uma prateleira e dou com ele. Sinto um impulso para ler o seu início e então, minhas caras e meus caros, vou dar com isto:

Chamem-me Ismael. Há alguns anos, quantos ao certo, não importa, com pouco ou nenhum dinheiro na bolsa, e sem nada de especial que me interessasse em terra, veio-me à ideia meter-me num navio e ver a parte aquática do mundo. É uma maneira que eu tenho de afugentar a melancolia e regularizar a circulação. Sempre que na minha boca se desenha um esgar carrancudo; sempre que me vai na alma um Novembro húmido e cinzento, sempre que dou comigo a deter-me involuntariamente em frente das agências funerárias ou a engrossar o séquito de todos os funerais com que me deparo; e, especialmente, sempre que me sinto invadido por um estado de espírito de tal maneira mórbido, que só os sólidos princípios morais me impedem de descer à rua com a ideia deliberada de arrancar metodicamente os chapéus a todos os transeuntes, nessa altura, dou-me conta que está na hora de me fazer ao mar, quanto antes. É o meu estratagema para evitar o suicídio. Catão lança-se sobre a espada com um floreado filosófico; eu, calmamente embarco. Nada há de surpreendente nisto. Embora não se dêem conta, tal como eu, quase todos os homens acalentam, mais tarde ou mais cedo, este desejo de mar.

Logo de seguida, começa a falar sobre a ilha de Manhattan.

Há, neste início, neste desejo de mar, uma sabedoria antiga que tem tanto de grego como de oriental: um desejo de absoluto que é ao mesmo tempo um desejo de unidade. Unidade, neste caso, traduzida numa atracção por um vazio despojado de toda a multiplicidade. Um absoluto que, ao prescindir da negatividade, do conflito, da luta, da contradição, fica reduzido à sua máxima vacuidade.
Como afugenta o narrador a melancolia? Vagueando pelas agitadas ruas da cidade como seria previsível? Na verdade, a multiplicidade distrai, faz-nos olhar para a direita, para a esquerda, para cima, para baixo, na diagonal. E sob cada perspectiva há um pedaço de realidade diferente dos outros pedaços, um mundo sempre renovado em cada esquina, um feixe incontável de estímulos nos quais mergulham extáticos os sentidos. A cidade é a expressão mais eloquente do múltiplo, uma unidade despedaçada, uma unidade desfeita em pedaços dispersos no espaço e no tempo. Porém, não é na cidade que ele afoga a melancolia. Não é a cidade que faz secar a humidade e o cinzento outonal que lhe vai na alma. Não é a estridente exuberância urbana que lhe faz virar a cara ao abismo do suicídio.
É a homogeneidade abstracta do mar, que é à direita o mesmo que é à esquerda, que é ao fundo o mesmo que é mais próximo, até terminar num horizonte cujo fio parece feito de uma fina seda prestes a volitizar-se.
O que significa este desejo de mar? A redução da vida à sua máxima simplicidade, a depuração de tudo o que é supérfluo e insignificante. Este desejo de mar corresponde ao desejo de deserto dos velhos monges que atingiam a plenitude tendo apenas areia por baixo dos olhos mas um céu azul por cima das almas. Este desejo de mar é uma espécie de higiene poética que transforma o resto do mundo num amontoado de detritos, ficando apenas uma síntese da síntese da síntese, onde não cabem os mais sólidos princípios morais, sólidos sim, mas que no vazio do mar se desfazem como um pedaço de terra seca que se comprime na mão.
Ainda não li o Moby Dick. Mas este belo começo já ninguém me tira!

10 comentários:

José Cipriano Catarino disse...

Livro genial desde a primeira frase. Como gosto e como se usava no séc. XIX. Apreciei menos as longas descrições dos "peixes" baleia e cachalote. É uma bela história, muito, muito bem contada.

jrd disse...

Li o Moby Dick quando era adolescente e recordo-me que quando falei ao meu pai no apelo do mar, ele levou-me a Cacilhas.
Não consegui ver uma baleia, apenas mútiplos golfinhos (bons tempos).
Enfim, nem todos podemos sonhar ser navegadores.

josé manuel chorão disse...

Os que a si próprios se procuram, melhor se encontrarão rodeados de simplicidade do que se estivessem rodeados de distrações mundanas.
É, de facto, um bom começo. O que prova que bons começos, muitas vezes, não dão bons desenvolvimentos. Não é um grande livro. Mas isso é apenas uma opinião, obviamente polémica.
E, claro, não te quero estragar a leitura, não te vou dizer a continuação...julgarás por ti.

João Delicado sj disse...

Belíssimo!

Também nos meus estudos de Teologia por vezes me encontro em emaranhado tão complexo de construções teológicas que sinto a necessidade de regressar constantemente ao essencial. Por momentos abstraio-me de todos Padres da Igrejas, de todas as heresias e definições dogmáticas, de todos os artigos dos Santos Concílios e recordo aquele que - imagino - poderia ser o Credo de Maria: "Deus é amor. Jesus é o Senhor".

Abraço!

Anónimo disse...

É dessas ironias que eu gosto: digno varão de um povo de marinheiros, o Sr. não leu M.D. Bom, esse deve ser o último livro que um português pensaria em ler: mar quanto do seu sal, etc. etc.

Segue uma paródia de M.D., escrita por Arturo Pérez-Reverte, que espero que lhe agrade.

Atenciosamente,
Cláudio

Uma Baleia

Em certa ocasião, La Ponte e ele tinham imaginado juntos uma segunda versão de Moby Dick. Ismael escreve a história, introduz o manuscrito no ataúde calafetado e se afoga com o resto da tripulação do Pequod. Quem sobrevive é Queequeg, o arpoador selvagem e sem pretensões intelectuais. Com o tempo, aprende a ler e, um dia, mergulha no romance de seu companheiro, para descobrir que a versão deste e suas recordações pessoais do sucedido não têm nada a ver uma com as outras. Então escreve sua versão da história. Chamem-me Queequeg, começa, intitula-a: Uma Baleia. Do ponto de vista profissional do arpoador, Ismael foi um erudito pedante que desvirtuou as coisas: Moby Dick não é culpada, apenas um cetáceo como outro qualquer, e tudo se reduz a um capitão incompetente que antepõe um ajuste de contas particular – que importa quem lhe arrancou a perna, escreve Queequeg – à sua obrigação de encher barris de óleo”. (“O Clube Dumas”, de Arturo Pérez-Reverte, Martins Fontes).

José Ricardo Costa disse...

Que sacrilégio, Cláudio! Imagine "Guerra e Paz" escrito pelo soldado Schweik....

Abraço, com os olhos bem enxutos.

JR

homburg disse...

Nalgunha páxina desa novela, pero non sei en cal, atopei eu anos atrás unha interesantísima reflexión (mándolla en español, que foi a lingua na que a lin): 'El mortal que lleva en sí más dicha que dolor no es sincero: o no es sincero, o no se ha desarrollado plenamente. Lo mismo ocurre a los libros.'

estela disse...

estou como tu.
de moby dick li o mesmo que tu, contando que não tenhas lido mais do que aqui apresentas ;)

e com espanto
sei exactamente de que unidade na multiplicidade é essa. para mim nem era preciso embarcar, bastava-me estar ali a olhar para o mar - mas sou mulher, deve fazer alguma diferença ;).

demorei anos a achar graça a uma subida à montanha. porque lá no alto sentia a tal multiplicidade. eu chamava-lhe outra coisa. falta de horizonte. porque há sempre um cume atrás doutro. este teu post fez-me compreender essa falta de horizonte, aparentemente lineal, essa falta de paz, que tem uma paisagem com altos e baixos.
e deixou-me ainda com mais saudades do mar, do que já tenho.

Ega disse...

Também partilho um pouco da sua vergonha, caro JRC.

Mas está prometido (adoro fazer promessas): para o ano desbravarei o Moby Dick.

E não farei a coisa por menos, pois gostaria muito de lê-lo no original (apesar de desconfiar que a edição da Relógio d'Agua esteja dotada de uma boa tradução).

Ana Paula Sena disse...

Por acaso, este li :) E gosto muito dele, por uma série de razões, algumas delas assinaladas no seu texto, que muito gostei de ler.

Mas faltam-me sempre tantas leituras...