30 dezembro, 2010

O CAVALO DE APELES


                                                                    Jackson Pollock

Sexto Empírico não parece nome de gente. Mas é nome de um filósofo ligado à tradição céptica. Nas Hipotiposes Pirrónicas lembra uma história passada com Apeles, um pintor grego do século IV A.C. Quis pintar a espuma no focinho de um cavalo. Tentou, tentou, tentou mas não conseguiu. Desesperado, atira uma esponja contra a pintura, apercebendo-se então que, por mero acaso, com esse movimento de renúncia, consegue finalmente criar o efeito que intencionalmente procurava mas sem conseguir.
Onde pretende Sexto Empírico chegar com esta história? É ele próprio que o diz no Livro I, comparando a atitude dos filósofos cépticos com a do pintor Apeles:

“Os cépticos pretendiam alcançar a tranquilidade decidindo sobre as anomalias em relação às sensações e aos pensamentos, e incapazes de conseguir isto, suspenderam o juízo. Ao fazê-lo, entretanto, descobriram que, como que por acaso, a tranquilidade seguiu-se à suspensão, como uma sombra segue um corpo”.


Pensar no futuro é pensar sobre o que devemos ou não fazer, o que queremos ou não na vida, os projectos e os meios para os concretizar. E guiamo-nos por aqui. Mas as coisas nem sempre são assim tão simples.
Imaginemos um acidente de automóvel no qual uma mulher fica ferida. Dramático, claro. Mas suponhamos que, no hospital, um enfermeiro e a condutora se apaixonam e serão felizes para o resto da vida.
Mas também podemos imaginar alguém que toda a vida quis ser músico de uma grande orquestra, que aprende clarinete durante anos à custa de sacrifícios e, quando finalmente tem a oportunidade de concretizar o seu sonho, morre atropelado quando se dirige para o primeiro ensaio.
Parece que a vida nos dá lições. Só que não não as podemos aprender pois o movimento dos átomos é imprevisível. Ora, se assim é, se não há critérios absolutos para avaliar o que devemos ou não fazer, como devemos reagir?
Diz Sexto Empírico que através da suspensão (epochê) e da tranquilidade (ataraxia). O que quer isto dizer?Digamos que há nesta suspensão e tranquilidade uma certa aceitação dos factos. Não se trata de uma crença no destino, uma aceitação da fatalidade, um cruzar de braços perante as adversidades da vida, um fechar de olhos perante os problemas. Nada disso. Trata-se antes de uma espécie de imunidade perante as adversidades e de alguma distância perante certas verdades aparentemente infalíveis. O dinheiro faz uma pessoa feliz? Não sei. Uma doença terá de ser uma coisa má? Não sei. Há pessoas que só começaram verdadeiramente a viver depois de terem sobrevivido a um cancro. Não sei, não sei, não sei.
Agora que vamos começar um novo ano, pense no gesto de Apeles e nos sábios ensinamentos de um velho filósofo grego sem nome de gente: preocupe-se, sim, mas com calma. Muita calma, sim? E muito cuidado com as verdades avassaladoras que nos querem impingir.

Um bom 2011 para todos os que costumam visitar este blogue.

10 comentários:

josé manuel chorão disse...

É tempo de ser prudente, em todos os sentidos possíveis.
De repensar tudo e de ter memória.
Bom ano, apesar de tudo, tambem para ti.

Fred disse...

Bom ano novo!


Um abraço!

Ega disse...

Suspensão do juízo?
Ora aí está uma excelente proposta para o novo ano.

Um abraço e boas entradas caro JRC.

jrd disse...

Diz o povo que: "o que tem de ser tem muita força".
Nunca entendi bem este 'discurso', mas aceito-o com tranquilidade.

Desejo-lhe um óptimo ano de 2011

divagarde disse...

Apenas aqui cheguei hoje, agora, mas levo o ensinamento sobre o qual meditar. E voltarei.
Um bom ano. Sereno.

Teresa

joao alfaro disse...

Bom ano e continuação do blogue que é um já um dos meus passeios.

Atenciosamente.

João Alfaro

addiragram disse...

UM FELIZ ANO para si!

um grande abraço!

José Manuel Vilhena disse...

:)
um abraço.

Ana Paula Sena disse...

Suspensão e tranquilidade, parecem-me dos melhores princípios para iniciar o Ano Novo. Mesmo que depois cheguemos a um momento em que a suspensão não possa manter-se mais... :)

Feliz Ano Novo!

P.S. - Sexto Empírico: de facto, sempre matutei bastante neste nome assim... como que exótico. E Sexto porquê? E Empírico porquê? É um nome e tanto, de tão estranho.

Wilson lira jr disse...

Gostei muito do seu blog e o texto que fala sobre Sexto e a escuma do cavalo de Apeles ficou bem interessante! Parabens Ricardo! (a proposito, me ajudou no questionário de Filosofia rs)