16 dezembro, 2010

NOITE E NEVOEIRO



Estava hoje sentado a trabalhar numa mesa da biblioteca da minha escola, olho para uma estante que estava a meu lado e começo a ver: Morte em Veneza, FicçõesGente de Dublin, Moby Dick, Doutor Jivago, Pela Estrada Fora, O Monte dos Vendavais e tantos outros.
Chamo biblioteca da minha escola à biblioteca da minha escola apenas por tradição e em homenagem aos velhos tempos em que uma biblioteca escolar era um espaço de leitura e de silêncio. Essa biblioteca morreu. Os livros estão ali como aqueles retratos de antepassados que enchem as paredes de certas mansões decrépitas para invocarem um nobre passado que já não existe.
No tempo em que a biblioteca era uma biblioteca sabia-se que havia pelo menos um espaço da escola em que havia silêncio. As pessoas andavam devagarinho, falavam baixinho e a funcionária diziam "psiuuuu" quando alguém elevava um pouco a voz. Era como entrar numa igreja.
Antigamente, eu próprio se visse um aluno que fizesse mais barulho, tinha legitimidade para o advertir. Hoje já não a tenho pois são os próprios professores que muitas vezes mais barulho fazem pois a biblioteca está transformada numa sala de reuniões e de convívio. As pessoas entram e saem como se entrassem ou saíssem de um café, já não em biquinhos dos pés e sem precisarem de falar baixinho ou de desligarem os telemóveis. Não temos culpa, claro. Na escola de hoje, reunir é tão importante como dar aulas e a biblioteca está mesmo preparada para essa função e eu também lá reúno e faço tanto barulho como os outros.
Mas hoje vejo a Morte em Veneza a meu lado e, à minha frente, professores absorvidos nas suas grelhas. Olho para o lado, vejo o Moby Dick e, à minha frente, professores a falarem de evidências, itens disto e daquilo e portáteis abertos no Excel. Quer dizer, caí em mim.
Há quem goste mais da biblioteca assim. Dá um ar de dinamismo, de actividade, de escola em movimento, uma escola moderna onde o aristocrático silêncio de outrora se tornou no democrático e cacofónico ruído presente. O silêncio era só para alguns enquanto o ruído está ao alcance de todas as goelas. É a chamada escola inclusiva, a escola para todos, alunos e professores. E onde há movimento e ruído, há vida. Onde há silêncio, há morte, tédio.
Não é fácil trocar a ruidosa noite de Las Vegas por uma matinal e silenciosa Veneza mergulhada no nevoeiro.

13 comentários:

estela disse...

leio-te e sorrio:
a bliblioteca em bicos dos pés é o teu passeio matinal aos domingos, e o ponto de reunião que agora lhe é "acrescentado" são os que tomam o pequeno almoço sem terem dormido ;)
sabes, vai dar tudo ao mesmo.
estamos capazes de tudo e até morrer em veneza hoje já não é a mesma coisa.

José Borges disse...

Muito bem.

José Borges disse...

Nunca utilizei as bibliotecas das minhas escolas, entre outros motivos, por esse.

josé manuel chorão disse...

Na escola onde eu trabalho (repara que não lhe chamei a minha escola, há alguns anos que deixei de o fazer...) a Biblioteca continua a ser um lugar sagrado, onde se lê,estuda, escreve, onde se pode ver um filme ou ouvir música (com auscultadores, sem incomodar os outros). O tecto é altíssimo (equivalente a dois pisos), os sofás são confortáveis, as mesas práticas, o ambiente de recolhimento e tranquilidade. Nada dessas confusões e falta de educação (professores com telemóveis a tocar na Biblioteca???).
Apesar de se situar na escola onde eu trabalho, a Biblioteca continua a ser a 'minha Biblioteca'. Como antigamente.

jrd disse...

E nessa Biblioteca também se lê?
Sei de uma onde se pedem "french fries, burgers and milkshake".

José Cipriano Catarino disse...

Faltam ainda os miúdos a jogar às cartas, a namorar pelos cantos... E os livros, os pobres livros, parecem cada vez mais decoração fora de moda... Até quando terão o direito de ocupar espaço nas BE, que foram CRE e agora suponho que já o não são? O tempora!

Ega disse...

Excelente e acertadíssimo texto, e não menos bela a imagem que o abre.

Rita TSBGC disse...

Talvez não tenha nada a ver...
Parece-me que a informalidade é doentia quando invade certos espaços.
Gosto tanto do silêncio das catedrais como gosto do estilhaçar de um concerto dos Red Hot Chilli Peppers, mas não gosto de os misturar!!!
Estamos a transformar a nossa sociedade numa sociedade adolescente ( tardia e cretina), onde os rituais se destroem para dar lugar à pornografia mental de ostentação do privado, no espaço público.
Até as botas parecem pantufas ...
A formalidade e a convenção são características civilizacionais que permitem a contenção do instinto primário.
http://www.youtube.com/watch?v=Wi8sYY0pCdE
Se o ruído viesse do exterior das almas , por dentro reinaria o silêncio apático

m.a.g. disse...

Dantes o silêncio era de ouro, hoje é de "lata".

Anónimo disse...

O caro mestre não está muito saudosista? Seja como for, a tecnologia, filha dileta da ciência, vai lhe salvar. Com o e-reader o Sr. vai poder levar sua biblioteca para onde quiser.
Atenciosamente,
Cláudio

Anónimo disse...

Há cerca de um ano atrás, um pouco mais talvez, voltei a TN e ía muitas vezes estudar para a Biblioteca nova que é, como se sabe, um lugar lindo, confortável, moderno. Passado alguns dias, comecei a cansar-me (senão de não conseguir ter paz e silêncio) de mim própria, por insistir em tentar fazer os funcionários cumprirem aquele que eu achava ser um dos seus papéis naquela sala. Virada para o rio, procurei abstrair-me. Até que uma bela tarde, por volta das 16h, uma espécie de fanfarra, música, vozes indistintas, soa por toda a sala. Assustei-me e levantei-me para procurar a sua origem. Espantada, percebo que o som está por toda a parte, dentro e fora das salas, sem que lhe conseguisse perceber a origem. Perguntei então a um dos funcionários o que era aquilo ao que me responderam que era a «Hora do Conto». Duas vezes por dia, durante uns 20m talvez, a hora do conto soava por toda a Biblioteca, por determinação do Sr. Presidente da Câmara. Calhou lá estar naquele dia àquela hora para ser obrigada a ouvir. Fiquei perplexa, sobretudo por não ver mais ninguém perplexo. Ainda hoje me custa acreditar nisto, como se eu pudesse tê-lo imaginado e tirado essa imagem (ou esse som) de um lancinante pesadelo.
Também há quem faça um doloroso luto dessa morte.

um bj
marta

José Manuel Vilhena disse...

vamo-nos tornando meio exóticos meio excêntricos...é o lado positivo de quem não faz qualquer questão em ser confundido...
:)

helena disse...

Gosto de bibliotecas silenciosas, austeras. Nada de ruídos sonoros ou até mesmo visuais.