20 dezembro, 2010

NEVER ENDING STORY

                                                                            Paula Rego

Nas minhas caminhadas matinais passo por uma rua que aos sábados e domingos está sempre atafulhada de detritos do Macdonald's: caixas de papelão, copos, pacotinhos de batatas fritas, sacos de papel. Há uma explicação para isso. O Macdonald's está aberto para os carros até às 6 da manhã. Os garotos abastecem-se e vão depois para lá matar a fome, deixando tudo espalhado pelo chão como se vivessem numa pocilga.
Há dias estava a comentar isso com um amigo meu. Dizia ele que deveria ser o próprio Macdonald's a fazer a limpeza das ruas. Eu discordei. Disse que isso seria tão absurdo como alguém vir da Zara cheio de sacos, chegar a casa e atirá-los pela janela da sala para a rua, tendo depois um empregado da loja que ir fazer a limpeza. Ou tão absurdo como acusar o dono de uma loja que vendeu uma navalha a alguém que a usou para matar uma pessoa.
O modo como este meu amigo percepciona este problema de higiene pública tem uma explicação ideológica. Ele é daqueles que ainda acreditam que a Albânia era o paraíso na Terra, que o verdadeiro Messias se chamava Estaline, sendo Marx o seu João Baptista. Para ele, tudo o que lembre a América, excepto os Black Panthers e coisas do género, está associado ao Mal, uma espécie de vírus que infecta toda a humanidade. A América é a casinha de chocolate da humanidade.
Lembrei-me disto porque acabei de escrever 60 páginas para explicar por que razão para Isaiah Berlin a filosofia política jamais poderá ser convertida em ciência política ou a ciência jamais se poderá livrar da filosofia.
A filosofia é feita de colisões, de conflitos sem solução. Jamais conseguiremos abdicar de uma visão geral do mundo. Daí que, se formos cristãos teremos uma visão das coisas, se formos muçulmanos ou ateus teremos outra. Por outro lado, o mundo social e humano nunca será neutro, haverá sempre mecanismos mentais latentes (pulsões, desejos, emoções, sonhos, ideais) que podem ser mais racionais ou irracionais, impedindo uma abordagem da realidade puramente objectiva, positiva, experimental.
Claro que no caso do meu amigo se trata de uma irracionalidade grosseira que não tem nada de filosófico, uma birra ideológica, uma sobrecarga emocional relativamente a um país, uma reacção que está para um adulto normal como as personagens diabólicas das histórias infantis para uma criança.
Mas podemos tornar isto mais complexo. Por exemplo, para esse meu amigo, um miserável operário albanês era mais feliz e vivia mais realizado do que um operário americano que ganha várias vezes mais. Um operário da RDA sentia-se mais orgulhoso no seu Trabant do que um operário da RFA no seu VW. Porque, para ele, o critério da igualdade é mais importante do que o critério do consumo. Um operário ocidental jamais poderia sentir-se realizado ao comprar o seu VW, havendo outros alemães que compram Mercedes. Pelo contrário, o operário de leste, embora andando num carro ridículo, tinha a consciência de andar no mesmo carro em que andavam todos os seus compatriotas (excepto os do partido). E isso, sim, é que seria verdadeiramente importante.
A nossa visão do problema implica, por exemplo, saber o seguinte: será a igualdade preferível à liberdade? O que faz um ser humano feliz? Será que o Estado deve intervir activamente para tornar os cidadãos mais felizes? Será que o Estado deve proteger os cidadãos dos seus próprios defeitos?
Responder a isto não é o mesmo que responder a problemas que envolvam átomos, moléculas e protões. Haverá sempre elementos não racionais que servirão de mosto às respostas supostamente racionais que iremos filosoficamente construir. E enquanto o homem for o que é, em vez de outra coisa qualquer, irá continuar a ser assim.
A ciência jamais substituirá a filosofia. As histórias para adultos jamais substituirão as histórias infantis.

8 comentários:

estela disse...

uiiiiiiiiiiiii
O teu post, bem dividido dava três ;)
um sobre a higiene pública, outro sobre as colisões filosóficas e um sobre a igualdade.
Estando como está pego na questão da igualdade, que é uma colisão e uma questão de higiene humana ;)
É que acho uma maldade
continuar a referir exemplos da Albânia, da Rússia ou da RDA para comentar a igualdade, o marxismo ou o comunismo. Principalmente quando no mesmo parágrafo se invoca o pormenor, de os dirigentes políticos não terem Trabis ;)
Nada daquilo procurava em verdade chegar ao ponto em que, por liberdade própria (!) se escolhia o mesmo que o vizinho, se evitava consumir so porque nos convencem que sim, etc e tal.
Numa primeira abordagem concordaria contigo, nao é o McDonalds que tem de ir limpar a rua. Mas num mercado liberal, onde não se ensinam responsabilidades mas culpas, caberia ao Mackie resolver o problema. E como? provavelmente subornando os clientes com mais engodo, caso devolvessem o lixo... marketing moralisador ou coisa que o valha...

o que eu quero dizer é que se jamais poderemos abdicar de uma visão geral do mundo, sei que podemos mudar a que temos para melhor, muito melhor.
Política e filosoficamente.

Anónimo disse...

No meio: a verdade. Onde já se viu liberdade onde não existe uma certa (eu disse certa) igualdade?

Aqui, onde vivo, as pessoas acharam que, finda a ditadura, a liberdade resolveria tudo. Então vai um conselho: quando comer nos restaurantes da cidade, escolha as mesas internas porque senão vão lhe roubar o bife! Sabe o que é um bife? É um pedaço de carne frita ou assada. Mendigos pegam o bife do seu prato e saem correndo!

Isso é o aspecto anedótico da situação, já que ser assaltado é rotina e morrer de tiro também. Neste ponto (e somente nesse ponto) eu bem que preferia viver na Albânia ou na RDA.

Existe em toda sociedade a possibilidade da pessoa sair de casa e não voltar, mas aqui essa possibilidade foi multiplicada várias vezes. Aqui não existe nem igualdade, nem liberdade. Não existe a banal liberdade de ir e vir, de sair de casa para jantar e voltar um pouco mais tarde. Tudo é medo, tudo é servidão.

Entre nós, não poucos,já sonham com os "bons e velhos tempos da ditadura"...

Mas os sinos badalam: é natal! Feliz natal para o Sr., para os seus e para esse amigo tão esquisito que deveria viver em Cuba ou na Coréia do Norte.

Atenciosamente,
Cláudio.

PS: quando lhe escrevo, ouço passando um helicóptero militar que a polícia usa para combater os traficantes. Barulho rotineiro por aqui...

Alice N. disse...

Não podia estar mais de acordo.

Tive uma amiga romena que me explicou muito bem a felicidade que se vive onde a igualdade é imposta com mão de ferro.

Chamava-se Aurélia e vivia em Paris. Tinha conseguido fugir da Roménia de Ceausescu, abandonando o seu trabalho de professora de Romeno e Russo. Estudava Francês na Alliance Française de Paris, a fim de se preparar para entrar na Sorbonne. O seu sustento? Um humilde emprego de porteira, num prédio parisiense, e umas horas de limpeza em casa de algumas senhoras. Dizia, com um sorriso luminoso, que nunca se sentira tão feliz e que agradecia todas as manhãs poder comer a sua baguette com manteiga e ser livre.

Uma sociedade justa procura esbater as diferenças, lutar contra as desigualdades e dar igualdade de oportunidades. Num mundo ideal, todos teríamos acesso ao mesmo, é verdade. Estamos longe desse mundo justo, provavelmente nunca o alcanceremos, mas não me parece que a ditadura da igualdade seja o caminho para a felicidade.

jrd disse...

'Histórias' com fim, só mesmo na mente tortuosa do filosofo do cowboy Reagan, o Francis Fukuyama.
Mal vamos nós (salvo seja), quando nada mais temos para opõr aos Trabants e ao que foi o país das águias, do que o lixo do Macdonald's (passe o pleonasmo)e a Zara.

josé manuel chorão disse...

A igualdade é a anulação da humanidade.
Só livres podemos ser o que queremos ser. E isso é, sempre, diferente, caso a caso, pessoa a pessoa. Portanto, para sermos humanos, temos de ser livres. Nem que isso implique passar fome.
O Estado? Sempre foi a anulação da humanidade, da personalidade, da liberdade. Enquanto tivermos Estado, continuaremos a lamentar a oportunidade perdida, a inteligência ausente, a culpa (que é sempre dos outros...).
Estamos muito longe de terminar o caminho...

Ana Paula Sena disse...

Importantes questões. Que nunca estarão resolvidas, que nunca nos abandonam. Afinal, a liberdade nunca nos é dada de uma vez só, e para todo o sempre. Que ela nos interpele constantemente é bom sinal. Parece-me que, nesse sentido, nem se vislumbra um fim da história.

Gostei de o ler, como é hábito. E, sim, não deveria ser o MacDonald's a fazer a "limpeza", também a meu ver.

estela disse...

gosto do tom anarquista do José Manuel Chorão!! :)

josé manuel chorão disse...

Estela: em cheio.
Tambem gosto desse tom. E de outros, obviamente. Cumprimentos.