01 dezembro, 2010

LUÍSA FRANCISCA

As histórias da História trocam muitas vezes o não dito pelo dito porque, não havendo cronista à escuta, quem pode saber o que diz uma duquesa a dois passos do trono? Há como que uma falsa memória colectiva da qual nos chegam as frases nunca ditas mas possíveis, os gestos nunca começados, os desejos que nunca tiveram voz. Terá alguma vez Luísa Francisca dito que antes preferia ser rainha uma hora do que morrer duquesa? É possível. O conde-duque de Olivares tinha-lhe contratado o casamento: a filha do duque de Medina Sidónia, que era Gandia e Medina Coeli pela parte da mãe, com o 8º duque de Bragança, D. João, parecia ser casamento talhado no céu e com ele se acertavam contas e se forjavam planos. Mas as voltas da vida dão sempre volta ao que dela se pretende. Quando chegou a altura, parece que D. João tardava em decidir-se a partir para Lisboa, olhava em redor, naquele apego telúrico que os Bragança têm a Vila Viçosa, que as duquesas respeitam mas não partilham. Era ambiciosa, com firmes intenções políticas entre os lenços de cambraia, ou estava entediada naquele Advento de 1640? O palácio era um desconforto? À calma do Estio alentejano sucediam-se aquelas tardes que se arrastavam todas iguais, sem novidade? Não podemos saber. Vemo-la no retrato, composta, em pose de estado, Dona Luísa de Gusmão, pela graça de Deus rainha de Portugal, os olhos espanhóis no rosto moreno, as rendas seiscentistas sobre o vestido de corte. E recordamos.

1 comentário:

José Borges disse...

As cartas pessoais de D.João IV são escritas em castelhano, o homem já não sabia falar português. Estas coisas da independência, para ele e sua mulher, era apenas uma questão de projecção pessoal, qual pátria qual quê! A nobreza portuguesa, essa, tornara-se quase toda castelhana dos sete costados.