26 dezembro, 2010

ÉCLAIR DE LUNE



Pensemos numa pessoa, um europeu, que viva numa casa sem água canalizada e sem electricidade. Que nunca andou de carro. Aliás, nem sequer o pode comprar, como não pode comprar televisão, aparelhagem ou computador. Nunca falou ao telefone e irá viver toda a sua vida sem olhar para um. Se tiver uma infecção não tem qualquer farmácia à sua disposição para comprar antibióticos. Vive num país com centenas de praias mas nunca vestiu o fato de banho para tomar um banho de mar nem conhece a sensação de estar deitado numa toalha a apanhar banhos de sol.
Ora bem, parece, à primeira vista, estarmos perante um miserável, um sem abrigo, um daqueles indigentes que vivem abandonados sem qualquer dignididade. Não necessariamente. Basta recuarmos no tempo e até podemos estar perante os mais ricos e poderosos homens do mundo. Carlos V nunca andou de carro, nem poderia comprá-lo; Luís XIV nunca viu televisão; D. João V nunca apanhou banhos de Sol na praia. Nem sequer conheciam as maravilhosas funcionalidades do fecho-éclair. Filipe II não tinha roupas com fecho-éclair, talvez por isso tivesse este ar maldisposto e cara de poucos amigos que aqui vemos.
Ok, ok, ok, eu sei que a qualidade de vida tem que ser vista em termos relativos e não absolutos. A um rico burguês do século XIX faltaria muita coisa que hoje dá conforto a uma pessoa da classe média baixa. Um português médio vive mal se comparado com um nórdico mas somos uns felizardos se pensarmos em grande parte da humanidade. Tudo isto é verdade.
Mas vou já dizer onde pretendo chegar. Há dias, lembrava-me um amigo que os actuais jovens iriam ser a primeira geração da história a viver pior do que os pais. É verdade. Mas temos que ver o seguinte.
Eu acho que é bom ter um BMW. É bom ter uma segunda casa, na praia ou no campo. É bom ter uma cozinha Miele e é bom molhar o rabinho nas águas cálidas da República Dominicana. A vida está, de facto, cheia de coisas boas. Mas seremos necessariamente infelizes se não tivermos um BMW, uma casa na praia, uma cozinha Miele e se não formos passar férias à República Dominicana?
Muitas pessoas pensam erradamente a este respeito. Pensam que o dramatismo por não possuir X é inversamente proporcional ao prazer de possuir X. Se ter X é bom, não ter X, é mau. Se ter X é muito bom, não ter X é muito mau. Se ter X é  magnífico, não ter X é uma tragédia. Mas será mesmo assim?
Depende das coisas. Por exemplo, o antibiótico. De facto, o benefício por termos acesso a ele é inversamente proporcional ao prejuízo por não o termos. A morte é o contrário da vida e o antibiótico pode fazer a diferença entre estar vivo e estar morto. Mas, no que diz respeito aos outros exemplos, já não será assim.
O facto de a próxima geração não ter os benefícios materiais da geração anterior não significa que vão ser mais infelizes e viver pior. Pensar na felicidade, na qualidade de vida, no bem-estar não é o mesmo que pensar na composição química da água. Depende de representações subjetivas e de um flexível e mutável quadro de valores. Há monges que vivem parte dos seus dias numa cela a ler e a meditar ou a tratar do jardim e que são felizes e há pessoas com cozinhas Miele que se suicidam. Há pessoas que nasceram, viveram e morreram felizes sem saírem da sua aldeia, outras há que vão à República Dominicana como eu vou ali à Nazaré, que vivem à custa de ansiolíticos e anti-depressivos.
O que os nossos filhos vão ter que pensar não é quanto vão ganhar a menos do que nós e quão desgraçados vão ser por mudarem de emprego ao longo da vida. Devem pensar, sim, no que torna uma pessoa verdadeiramente feliz, no que é verdadeiramente importante na vida. Muito provavelmente irão até ser bem mais felizes do que nós. Depende tudo do seu quadro de valores e do modo como vão organizar a sua hierarquia das necessidades.
A pedagogia deveria começar já a ser feita. Infelizmente, não é isso que vejo à minha volta.

5 comentários:

josé manuel chorão disse...

Totalmente de acordo.
A felicidade não se encontra nas toneladas de lixo que nos rodeiam (BMW, casas de praia, brinquedos) e sim na nossa própria mente.
O que procura a felicidade na riqueza material não passa de um pobre de espírito. Um estúpido, digamos.
Há que encontrar a felicidade em nós próprios: no que fazemos, no que pensamos, no que amamos, na pessoa que somos.Só isso tem valor. Reencontrar a beleza e a riqueza das coisas simples.
Eu só me sinto infeliz por não ter um BMW se alguma vez tiver desejado tê-lo. E esse desejo foi-me criado pela indústria (automóvel e publicitária). Mas, como eu nunca quis ter tal objecto, estou-me nas tintas para o facto de não o ter.
Para livros tem chegado. Tanto me basta.

C.M. disse...

Este seu artigo deveria ser de publicação obrigatória na primeira página de todos os jornais deste País! Para todos em conjunto reflectirmos e mudarmos de trajectória...

Um Santo Natal!

jrd disse...

Comentário quadripartido:
1-O Filipe II não tinha fecho-éclair, mas foi um rei acima da média, desenrascava-se com a abotoadura de ouro e prata. O melhor dos Filipes que por cá andou, incluindo o Filipe (IV) Scolari, que até bateu nos espanhóis.

2-BMW não liga com República Dominicana, a não ser que sejam BMW's em terceira ou quarta mão, daqueles que os “tugas estilistas” adoram comprar nos stands ao ar livre do eixo S. Domingos de Rana - Cacém, onde, emtempos, o Santana Lopes esteve para montar um estaminé.

3-Quanto aos nossos filhos viverem melhor do que nós!? Só se lhes oferecermos ‘um par de botas’ e, simultaneamente, fizermos a pedagogia da ‘felicidade’ que é, não andar descalço…

Já agora e a propósito, este poste tem um ano e meio e reza como segue:

«Há dois anos atrás, mais ou menos por esta data, escrevi assim:
"Os Escandinavos abandonam a casa dos Pais por volta dos 17 a 18 anos e, enquanto estão a estudar na Universidade, recebem mensalmente um subsídio do Estado.
Em Portugal saem de casa depois dos 30, quer tenham estudado ou não, continuam a ser subsidiados pelos Pais e regressam todos os fins de semana para se abastecerem no frigorífico."

E agora? -Agora, queo "prometedor" consulado Socrático está prestes a terminar, só posso introduzir uma ligeira nuance: É que os jovens retornam e voltam a dormir no quarto de solteiros.»

4-Tudo é relativo se pensarmos, por exemplo, que os frequentadores da praia do Meco não precisam de fato de banho e que os idosos tem farmácias à disposição, mas não têm dinheiro para os medicamentos.

jrd

Ana Paula Sena disse...

Eu nunca fui à República Dominicana. Acho que por isso fui mais feliz.

Não posso é viver sem livros. Mas, isso, está tudo explicado neste seu texto.

José Borges disse...

Zé Ricardo, eu concordo consigo e sinceramente não me preocupo muito, mas agora vá explicar, como eu ando a tentar fazer há meses, aos meus pais, que apesar da minha formação e das minhas oportunidades se eu tiver uma vida tão boa como a deles já vai ser uma grande sorte. E eles não tem propriamente uma grande vida. Não é por mim, o que mais me custa é desiludir os meus pais porque eles não compreendem estes tempos.