09 dezembro, 2010

DÁNAE E O NATAL


Lembrei-me da história de Dánae e da chuva de ouro.
Graças a uma profecia, o rei Acrísio soube que haveria de ter um neto que o iria matar. Apavorado, fechou a filha, a formosa Dánae, numa prisão, apenas acompanhada por uma criada. Deste modo, Dánae não teria filhos e Acrísio já não teria netos.
Zeus, que tinha visto Dánae, apaixonara-se por ela. Zeus era de paixões desenfreadas e não conseguia resistir à beleza de uma mortal. Como fazer então com Dánae? Vendo que a cela tinha uma pequena fresta, Zeus transforma-se então em chuva de ouro que vai banhando o corpo alvo de Dánae. Nove meses depois nasceria Perseu. Neto de Acrísio...
O episódio foi bem retratado na história da pintura. A versão que se vê em cima é de Ticiano, o grande mestre veneziano. Só à sua conta existem quatro versões. Esta é de 1553 e, tal como em outras duas, surge a criada. Mas há uma de 1545 onde Dánae está sozinha com um anjo. Obviamente, é dessa que gosto mais. Porém, é mesmo sobre a criada que eu quero agora falar.
Vejamos como Dánae recebe com naturalidade a chuva de ouro sobre o seu corpo, a mesma naturalidade com que uma mulher recebe o seu amante. Mas, se virmos bem, nada daquilo é natural. Não é o mesmo que olhar para uma parede branca e dizer que a parede é branca. É um momento de grande intensidade poética e de presença do Maravilhoso: um deus que se metamorfoseia em chuva de ouro para cair suavemente sobre o corpo nu de uma mulher.
Ora, como reage a criada face à presença do Maravilhoso? Em vez de, tal como Dánae, pactuar com o Maravilhoso, agarra no avental e começa avidamente a apanhar as gotas de ouro. Cega perante o Maravilhoso, não vê a chuva de ouro banhar o alvo corpo de uma mulher que a recebe em puro deleite. Vê apenas dinheiro e o seu único desejo é apanhar o mais possível.
Vamos mesmo imaginar que teria conseguido apanhar todas as gotas de ouro. Seria o fim do enlace entre um deus tranformado em ouro e o alvo corpo nu de uma princesa. E não teria nascido Perseu, o herói que matou a horrível e abjecta Medusa.
Eu lembrei-me deste quadro de Ticiano por causa do Natal. Do Natal na época do desencantamento do mundo no qual parecemos cada vez mais a criada do quadro de Ticiano. Crianças, jovens, adultos, todos de avental estendido, vendo dinheiro onde existe uma mágica chuva de ouro que vai dar à luz o filho de um deus.
O desencantamento do mundo não é apenas o resultado da morte de Deus e da crise da religião. Podemos já não acreditar que existem fadas no fundo do jardim mas isso não nos impede de continuar a descobrir a apreciar a beleza do jardim. O desencantamento do mundo é cada vez menos um simples desencantamento religioso para ser cada vez mais apenas desencantamento. Ou já não se vai ao jardim ou, quem lá vai, sente-se exilado perante a incompreensão de um mundo ao qual já não se pertence.
Ainda bem que a criada de Dánae não conseguiu apanhar as gotas, ou melhor, as moedas todas. Nasceu Perseu e a temível Medusa teve o destino que merecia.Mas muitas outras Medusas que nos transformam em pedra ficaram por matar.
A alegria do Natal, a alegria pelo Maravilhoso do Natal é quimicamente induzida pelo subsídio de Natal. Aliás, Natal é cada vez mais a época do subsídio Natal. O musgo do presépio e as velas alimentadas a azeite deram lugar às luzes dos shoppings centers. O Menino Jesus foi trocado por um velho gordo patrocinado pela Coca-Cola. As figuras do presépio foram assassinadas e substituídas pelos monstros de plástico da Matel. O frio silêncio do Inverno foi abafado pelo aquecimento global das televisões sempre ligadas e vomitando jingles comerciais.
Estava tudo previsto há muito tempo. Basta olhar para a criada.

4 comentários:

estela disse...

a história interessou-me e fui ler umas coisas. sabias que até existe um klimt com a dánae? :))
pois onde eu quero chegar é à criada ;)
quem te diz a ti que está a querer ficar com o ouro?
eu acho-a mais amedrontada a tentar proteger o regaço da moça.
não te quero estragar a teoria natalícia, mas quando o mais pequenino o ano passado perguntava se era o menino jesus que trazia os presentes eu respondia que sim e ele dizia que o amigo do infantário não acreditava. e eu respondia: quem não acredita que é assim, que são os papás, tem de arranjar outra explicação. quem acredita no menino jesus, sabe que é ele que traz os presentes. Ora, este ano a questão não é se é ele que vem, mas sim o que trará ;)
e tu, descrente, não acreditas nas boas intenções da criada.....
;))

jrd disse...

A excelência, diria mesmo, a perfeição da metáfora.

Permita-me discordar da ideia de que o Natal é cada vez mais a época do subsídio Natal.
É que o subsídio já 'lá vai' há muito quando o Natal chega...

josé manuel chorão disse...

Mais uma vez acertas na "mouche". Tens toda a razão quando te referes à beleza das coisas simples, à pureza do encantamento, do maravilhoso.
O Natal actual, triste corruptela do original, é reflexo da crise de valores que os seres humanos adoptaram, no geral.Já tudo parece relativo, já se deixou de acreditar no absoluto.
É o triste resultado do abandono das coisas simples, belas e puras, que nos encantaram no passado.
Muitas criadas ávidas do brilho do ouro nos rodeiam, por aí, pelas ruas da vida.
Muitos se perderam, por caminhos onde buscaram outros valores, mais sofisticados, mais engalanados e, aparentemente, de maior qualidade. Mas só aparentemente. Pobres dos que se deixam enganar pela sofisticação que mais não é que uma máscara, a afastar-nos da pureza, da originalidade das coisas simples.
O que fazer? Talvez recuperar o espírito original, buscar a beleza inultrapassável que existe no amor genuíno e desinteressado. Nunca nos devíamos ter esquecido disso...
(Post-Scriptum: claro que não estive a 'falar' do Natal; pessoalmente, não sendo religioso, estou-me a borrifar para o Natal)

Rita TSBGC disse...

Belo texto !!! ( as usual)
Destilo um profundo desprezo pelas comemorações engalanadas no capitalismo e na nossa passividade e incapacidade crítica.
Adoro o advento, o tempo de espera, a preparação, o bater de coração...
Se o filho de Dánae teve que matar medusas ( e era desprovido de bens materiais...) talvez o filho da criada se tenha safo, comprado uma casita, um cavalo ( último modelo) e tenha aberto um negociozito, à conta do ouro...
O que a uns dá prazer/ felicidade ( espiritual/ emocional) a outros dá garantias de sobrevivência ( certificados de aforro)....
É tudo uma questão de eleger modelos e escolher heróis...
Feliz advento !!!!
http://www.youtube.com/watch?v=a6MMW-NJmt8