06 novembro, 2010

LES UNS ET LES AUTRES



O “Fugas”, no Público deste sábado, traz uma reportagem de Cristina Ferreira sobre Hyannis Port, o mítico refúgio familiar dos Kennedy em Cape Cod. Toda aquela zona pertence a uma América elegante, tradicional como as selectivas praias de Martha’s Vineyard.
Mas Hyannis Port é especial. Todos os grandes momentos dos Kennedy, as vitórias e as tragédias, de lá partiram e para lá voltaram. Era para lá que John-John se dirigia com a mulher, Carolyn Bessette-Kennedy, uma Jackie pós-moderna que vestia camisas de cetim branco sob casacos Yamamoto, quando se despenhou no mar e entrou na lenda.
Eu, europeia que ao resto do mundo sempre hei-de preferir as ruas em redor do Palazzo Vecchio, sempre me deterei, encantada, a olhar para as fotografias do Camelot americano, em tempo de lazer, para os filhos de Rose Kennedy que parecem saídos de um catálogo da Ralph Lauren a conversar sobre os destinos do mundo, sentados no chão. Se não eram os melhores eram, certamente, os mais belos.
Consta que quando Sarkozy foi eleito, Cecilia Albeniz lhe terá dito: “Vamos agora brincar aos Kennedy.” Depressa perdeu a vontade de brincar, mas basta olhar para as fotografias de Carla Bruni na visita a Inglaterra para perceber que, se não o disse também, pelo menos pensou.
Estes mitos constroem-se de uma teia de símbolos que parece tangível e próxima: o homo publicus fotografado na moldura da sua res domestica cria a ilusão da proximidade. Como se fosse possível ao homem comum ser assim também e como se todas as possibilidades de um mundo finalmente ordenado não fossem uma ilusão.
Basta olhar para a fotografia, também no Público de hoje, em que Sá-Carneiro pesca de pé num barco, sob o olhar Snu Abecassis, envolta num trench-coat e de cabelos presos num lenço de seda.
Se alguém, daqui a muitos anos, olhasse para fotografias tiradas num jantar em casa de Helena Sacadura Cabral onde, sob o olhar da mãe, se juntassem a serenidade assertiva de Miguel e a fulgurante inteligência de Paulo, havia de lá encontrar todos os sinais daqueles cujo caminho não é o de toda a gente.
A história do mundo é, também, uma história de diferenças.

4 comentários:

jrd disse...

Le charme (pas)discret de la bourgeoisie.
Que fazer!? A nós resta-nos a Maria e o seu (dela) Chanel,'coco'...

Reinaldo Amarante disse...

Quando estava na Guerra Colonial em Moçambique, a minha companhia fez a defesa da Barragem de Cabora Bassa. Fomos convidados para uma festa dos engenheiros da dita obra. Haviam duas camisas "iguais" nesse evento; eram às risquinhas azuis e brancas, cintadas, e com os colarinhos compridos e arredondados, como se usavam na época: a minha, feita (e muito bem) pela mãe do Kapa (o nosso famoso artesão) e a do Frederico Jardim (esse mesmo, filho do milionário engenheiro moçambicano). A camisa dele tinha vindo da Suíça e trazia a etiqueta "Pierre Cardin". Eu era alferes miliciano pára-quedista e ele, furriel. Quando chegamos aos cifrões, não vale a pena ter peneiras.
Ah, pedi-lhe para me dar a etiqueta quando já não usasse a camisa...

estela disse...

excelente.
reconheço as imagens nas palavras e reconheço-me no voyerismo singelo de quem olha para um palácio.

Helena Sacadura Cabral disse...

Este post é um belo texto.
Apenas acrescento que, apesar das diferenças, todos nascemos e morremos do mesmo modo!
E, no caso do Miguel e do Paulo, não só têm a mesma origem como, por mais que isto possa surpreender, é muito mais o que os aproxima do que aquilo que os separa.
Mas comoveu-me a possibilidade de, mais tarde, alguem poder olhar uma fotografia de um jantar em minha casa, na qual eu, de certo enternecida, olharia os meus filhos.
Só por isso, muito obrigada!