14 novembro, 2010

GORECKI, SINFONIA Nº3, OPUS 36


"Não escutar esta sinfonia é um pecado que o deus mais misericordioso é incapaz de perdoar"

O meu primeiro LP haveria de marcar-me para o resto da vida. Eu tinha 13 anos, gostava de ouvir o quando o telefone toca e as canções do festival. Entretanto, no Natal, recebo, vinda de França, uma prenda cuja importância eu ainda estava longe de entender. Era um disco. Com uma capa estranha. E de um grupo com um nome estranho. Aquele disco está para mim, como a Figueira da Foz para Cavaco Silva, a Guiné para António de Spínola, o Portugal-Coreia para o Eusébio. Aquele disco não foi apenas um disco. Foi uma revolução dentro da minha cabeça, um sinal vindo dos céus como acontece com os velhos profetas do Antigo Testamento. Posso afirmar com segurança que nesse mítico dia de Dezembro nasci para a música. E tornei-me um ser humano novo. O disco chamava-se Dark Side of the Moon
Há depois um segundo momento decisivo três ou quatro anos depois. Um dia chego a casa e ouço uma música completamente diferente do habitual. Uma música que me provocou uma sensação que até ali nenhuma outra tinha conseguido. Percebi, nesse dia, que também era bom ouvir música clássica. A obra chamava-se Abertura 1812, op.49.
O terceiro momento importante foi na Alemanha, andava já eu na universidade. Estou em casa de um tipo que tocava contrabaixo num grupo de jazz. Num serão, pôs no gira-discos uma música tocada por John Coltrane chamada My Favourite Things que eu já conhecia da Música no Coração. E explicou-me aquilo. Foi então que, depois de passar anos e anos a achar o jazz uma música sem sentido, descobri finalmente o que só o jazz poderá dar.
O quarto momento importante foi já de regresso a Torres Novas, após vários anos na universidade. Um dia estou na discoteca do Baltazar a ouvir música e ele põe um disco a tocar. Descobri nesse dia a ECM, uma editora alemã de um genial produtor chamado Manfred Eicher. Já agora, o disco chamava-se All Those Born with Wings de um norueguês chamado Jan Garbarek.
Anos depois a ouvir praticamente só música clássica já estava mentalizado de que a vida não me traria mais surpresas em termos musicais. Que já não havia mais céu para subir. Pronto, está certo, a gente ouve as Variações Goldberg e, meu Deus!Por muito que ouçamos a Appassionata de Beethoven ou o Concerto para Piano e Orquestra de Ravel, ou o Stabat Mater de Pergolesi, iremos ficar sempre arrebatados.
Mas não é isso que eu quero dizer. O que eu quero dizer é que, depois dos 40 anos, já pensava não haver nada de novo que me pudesse dar a volta à cabeça e que, a partir daqui, iria só continuar a gerir o que já conhecia vindo de trás.
Mas, ó leitores, nunca percais a esperança. Quem vos fala é alguém que precisou de chegar depois dos 40 anos para poder sentir de novo aquilo que sentiu naquele dia de 1973 em que ouviu pela primeira vez o Dark Side of the Moon.
E pensar na violência e humilhação que foi ter vivido tantos anos sem ouvir a Sinfonia nº3, de Gorecki. E acreditem que morrerão incompletos se nunca a ouvirem. E se por acaso a ouvirem, mas não gostarem, bem podem dar um tiro na cabeça porque não andam cá a fazer nada.

10 comentários:

Rita TSBGC disse...

Como compreendo !!!
A minha Epifania privada dos 40 foi com o Ärvo Part
http://www.youtube.com/watch?v=QtFPdBUl7XQ
E também acho que a minha vida era uma planura sem fim até mo terem revelado...
Foi um amigo, que está na Dinamarca há quase 20 anos e que de vez em quando me envia cartas sonoras para me apaziguar o espírito de Tormenta.
A música é uma casa, através daquilo que ouvimos e damos a ouvir, contruímos castelos, casebres, abrigos d'alma...
Diz-me o que ouves dir-te-ei quem és!!!

jrd disse...

"The other side of the music"
Magnífico!
Obrigado

josé manuel chorão disse...

Essa forma de ouvir e sentir a música é uma forma de amar; reconheci, nas tuas palavras, o mesmo fascínio, o mesmo encanto, a sensação de que "antes disto eu nada sabia e andei a perder tempo", o sentimento de que sou uma pessoa nova e a vida ganha outro significado... quando conheci a minha mulher.
Ouvir música (da boa) é uma forma de amar; ou, então, amar será uma forma musical de viver. Ou, ainda, porque é que o amor e a música têm de ser coisas diferentes?

m.a.g. disse...

É impossível não ficar profundamente comovida com esta obra tão sentida, tão triste quanto sublime.
Talvez equipará-la ao adágio para cordas de samuel Barber ou à Sinfonia nº 5 de Mahler.
Excelente esta divulgação.

estela disse...

ia lendo e fazendo apostas de mim para mim, sobre qual seria a peça musical... :))) quase não acertava no dark side, mas mais por culpa da foto que aparece, matreira, antes do texto.
depois, apaziguada e decidida a ir amanhã à procura do gorecki para o cumprimentar e lhe dar lembranças tuas, vim ler os comentários. não vinha com necessidade de expressão, só mesmo cheia de música no olhar. mas leio o comentário do josé manuel chorão e...... também gostava muito de o cumprimentar!

josé manuel chorão disse...

Obrigado, Estela.
A minha mulher tem uma voz melódica, musical, tranquila, que me encantou como se de uma música se tratasse, desde o momento em que a conheci, já lá vão décadas. E quem foi o responsável por ma apresentar? Pois... o senhor José Ricardo, nem mais. Não fosse ele e era eu, provavelmente, ainda solteiro. Cumprimentos

Pedro Partidário disse...

Muito obrigado por Goreki. Fui levado numa viagem.
Deixo a paisagem em desordem, e sem a gravidade do confronto com a razoabilidade de dar tiros na cabeça para quem não se deixe tocar por ela:

.A abertura de Tristão e Isolda de Wagner (que me veio no perfume que a Opus 3 de Gorecki me deixou no ar);
.O Quarteto pelo fim dos tempos de Messian (pelo cheiro a pólvora, gás, Gestapo e Auschwitz ainda nas plantas dos pés, depois de Gorecki me ter alcatifado a sala);
.Troisième Leçon de Ténèbres à 2 Voix (François Couperin)
.Quinteto para Clarinete e Cordas em Lá Maior, K. 581: II. (Mozart)... e aqui falta um mundo todo!;
.o Larghetto do Concerto nº2 para piano e orquestra (Chopin);
.A Milonga del Angel de Piazolla;
."Flamingo" do Charles Mingus;
.The Poem (Vanessa Daou)
. e (porque não?) Volver, Volver (Concha Buika).
...mas a paisagem é interminável e à velocidade a que ia, não consegui distinguir Bach (estava lá), Satie, Coltrane, Nina Simone, Sara Vaughn...

estela disse...

JMchorão:
bom, assim compreendo em absoluto isso de a música e o amor serem um só :)
o zé ricardo fez muito bem :)
acho que merecem os três os meus cumprimentos!!!!

e agora vou ouvir o gorecki ;)

paulo,sj disse...

Caro José Ricardo,

Mais uma vez muito obrigado...
Agradeço também a quem deixou comentários.

Como também gosto muito de dança, recordarei sempre o "Requiem", coreografia de Rui Lopes Graça, com o segundo andamento desta obra... Deu-lhe uma complementaridade fortíssima. Em 10 minutos evocou uma densidade de Vida, de morte, de recordar, de sentir a força de quem nos é querido, da brutalidade do silêncio perante a impotência... Deixo aqui o que escrevi a propósito dessa peça:
http://oinsecto.blogspot.com/2010/03/proposito-de-requiem-de-rui-lopes-graca.html

Um Abraço!

Ana Paula Sena disse...

Foi um grande prazer lê-lo, e, do mesmo modo, acompanhar este seu percurso musical, que senti como verdadeira educação da sensibilidade :)

Eu vou ouvir e voltar a ouvir, como toda a excelente música merece.