09 outubro, 2010

A RAPARIGUINHA DE SERRALVES


                                                                  Thomas Dewing

Eu não gosto muito de cidades. Para mim, são todas iguais: ruas, avenidas, casas, lojas, restaurantes, carros, pessoas nos passeios. As cidades cansam-me e eu não gosto de me sentir cansado. Ainda assim, gosto mais de certas cidades do que de outras. O Porto faz parte das cidades de que gosto. Entretanto, a respeito desta notícia, lembrei-me de uma coisa.
Um dos meus sítios preferidos no Porto são os jardins de Serralves. Aqui há uns anos, num dia outonal como o de hoje, andava pelos jardins com as minhas rêveries de promeneur solitaire, quando começo a ouvir ao longe o som de um violoncelo. Tal como um insecto atraído pela luz nocturna vou-me aproximando cada vez daquela música grave e soturna. Consigo então identificar uma das suites para violoncelo de Bach que, por acaso, andara a ouvir há pouco. Aproximo-me ainda mais até que vejo uma jovem, sozinha, debaixo de um telheiro, a tocar. Sem assistência, ninguém ali parado a ver ou a ouvir. Como se fosse uma estátua de jardim que começasse de repente a movimentar-se e fizesse tanto parte daquele jardim como os canteiros de flores e as árvores. Eu próprio não parei. Continuei o meu errático passeio, ouvindo aquela música como se viesse do além para me acompanhar.
Bach, naqueles dedos jovens e imaturos, podia não ter a qualidade da minha versão, tocada por Pierre Fournier. Podia ser mesmo um Bach traído. Mas, naquele momento, naquele sítio, naquele dia fresco e chuvoso de Outono, era a melhor versão do mundo.
Um hora e tal depois apanho o autocarro para o centro da cidade. Quem haveria de entrar também? Sim, a rapariga, continuando sozinha, apenas acompanhada do seu violoncelo. De repente, aquela estátua de jardim transformou-se numa pessoa empírica, uma adolescente, uma estudante, uma cidadã do Porto. Como se aquela rapariga de carne e osso, num transporte urbano, no meio da cidade e tendo como música de fundo o som do autocarro, tivesse deixado o seu fantasma no jardim e voltasse para o mundo real. Ou como se fosse uma alma platónica acabada de chegar a um espaço e tempo urbanos do qual se evadira e ao qual, por castigo divino, tivesse sido condenada a regressar.
Há muitos anos, o Rui Veloso e o Carlos Tê, compuseram uma canção dedicada a uma figura do Porto: a rapariguinha do shopping. Eu nunca conheci a rapariguinha do shopping. A rapariguinha de Serralves, porém, jamais irei esquecer.

8 comentários:

Margarida disse...

:))))))))))))

Alice N. disse...

Belíssimo.
Lembra-me uma senhora que, todas as manhãs, sempre sentada no mesmo canto, com ar ausente, tocava harpa numa certa estação de metro em Paris. Uma sonoridade e execução espantosas. Silêncio absoluto naquele cais. Ambiente mágico numa estação fria e impessoal igual a tantas outras. Imóveis, desejávamos que o metro não chegasse (cheguei a esperar pelo seguinte). Esquecíamo-nos de ter pressa e a música aquecia a manhã. Não era Serralves, mas era como se todos os belos jardins do mundo povoassem aquele cais.

josé manuel chorão disse...

Tu tens um coração de poeta; não escreves poesia, mas és um poeta, porque só um poeta sabe ver assim o mundo, dessa forma bonita.

m.a.g. disse...

Quem vem e atravessa o rio, junto à Serra do Pilar...

E esse teu ar grave e sério
dum rosto e cantaria
que nos oculta o mistério
dessa luz bela e sombria...

Bach, Serralves e tudo o mais que não digo porque sou suspeita.

Lindo o seu texto.

José Manuel Vilhena disse...

Soube-me bem este texto neste sábado chuvoso.
:)

Xoán Abeleira disse...

Que fermosa obra... e rapariga! Vouna apañar, co seu permiso. Unha aperta.

Anónimo disse...

Visto assim a vida tem mais encanto.

graça martins disse...

uma melodia de pintura tão serena...