25 outubro, 2010

PENSAMENTO MÁGICO


                                                                Jeffrey Michael Harp


Li no PÚBLICO de sábado mas só agora me sinto em condições psicológicas de falar sobre isso.

Jornalista: Não se qualificam pessoas para ficar bem nas estatísticas, como dizem alguns críticos?

Resposta (de Luís Capucha, director da Agência Nacional para a Qualificação, responsável pelas Novas Oportunidades) : Que mal existe em o país ter uma boa imagem? Essas pessoas preferiam que apenas 20 por cento dos adultos activos possuíssem o secundário? Essa era a imagem...

Eu li isto e não quis acreditar. Esfreguei os olhos mas continuei a ler e a entender a mesma coisa. Resolvi então deixar passar o fim-de-semana, não fosse o meu espírito encontrar-se obnubilado pelo ócio e o torpor mental. Voltei a ler agora. Mas não, infelizmente não estava enganado. O que lá está é mesmo o que lá está, o que este socrático director quis dizer.
Perante tão delicada pergunta, assume sem vergonha na cara que é mesmo tudo uma questão de imagem . E se a imagem é que conta o que havia para fazer era simplesmente mudar a imagem.
Esta mentalidade tão portuguesa não começou com o socratismo. Mas foi um primeiro-ministro irresponsável, megalómano e demente, produzido no aviário das juventudes partidárias e engordando no mundo virtual da política, do poder, do jogo, que veio agravar fortemente esta doença nacional.
Vou só dar um exemplo. Sou professor de filosofia. O Ministério da Educação obriga-me, repito, obriga-me a fazer uma acção de formação em quadros interactivos e outras tretas tecnológicas. É a única acção com carácter obrigatório. Admito que colegas meus fiquem fascinados ao verem luzinhas a mexer como se fossem umas melgas tontas. Eu, porém, jamais irei usar aquilo e não vejo como isso pode piorar a minha actividade docente.
O problema não é fazerem-se tais acções. Cada um sabe o que é mais importante para si e acredito que para muitos professores a alma do ensino e da pedagogia esteja nos botões e luzinhas a acender.  O problema é ser obrigado a fazê-las e passar a viver num mundo tecnologicamente chocado de tanto choque tecnológico.
As nossas crianças e jovens podem não saber ler, escrever, conversar ou pensar. O insucesso real, contrariamente ao estatístico, pode estar a aumentar dramaticamente nas nossas escolas. E nós andamos entretidos e fascinados com quadros mágicos, magalhães e todo um Admirável Mundo Novo de sucessos estatísticos e de novas oportunidades que messianicamente hão-de conduzir a pátria à sua salvação.

6 comentários:

Ana disse...

Como eu o entendo. Mas não desista. Resista sempre pois os nossos alunos merecem Professores, reconhecem-nos e ficam-lhes gratos pela vida fora.

josé manuel chorão disse...

Vivemos num mundo de aparências. O parecer sobrepõe-se ao Ser (e esse casal da foto parece-me que são os pais da Mª de Lurdes Rodrigues, não são?)

Anónimo disse...

Como eu o entendo!
Mas não desista. Resista sempre, pois os nossos alunos merecem Professores críticos, vivos,estimulantes, que eles reconhecem e a quem ficam gratos pela vida fora... Melhores dias virão. Também cabe aos Professores manter vivas, junto dos jovens, formas alternativas de ser humano.

joshua disse...

Brilhante, meu caro colega. Eu resistirei a que me obriguem seja ao que for. Resistirei e resistirei.

Um abraço e parabéns pelo belíssimo blogue.

PALAVROSSAVRVS REX

José Manuel Vilhena disse...

Nem parece seu...
então,Pisco logo existo.Não está a par da nova filosofia pirilampo?Pareço logo sou e outras coisinhas do género...?!?
um abraço
:)

manufactura disse...

...eu nem fiz a tal certificação nas novas tecnologias... não percebi qual a importância daquilo...