16 outubro, 2010

OXIGÉNIO



Já aqui disse uma vez que os romances de Saramago não são a minha chávena de chá. E só consegui chegar ao fim de dois livros porque, tendo-me sido oferecidos, senti-me na obrigação de os ler. Mas, confesso, à custa de um enorme sacrifício. De Mario Vargas Llosa li os Cadernos de Dom Rigoberto, que adorei. Tendo a pintura de Egon Schiele como pano de fundo, é um maravilhoso romance cheio de graciosidade, ironia, humor e marcado por um erotismo que ferirá as almas mais sensíveis.
Só com um livro lido não teria legimitidade para vir aqui falar do Vargas Llosa escritor. Mas ao ler hoje, no PÚBLICO, a sua entrevista a Alexandra Prado Coelho, pensei de imediato no escritor enquanto figura socialmente interventiva e, por associação, lembrei-me de Saramago.
Saramago e Vargas Llosa têm concepções de sociedade completamente diferentes. Filosoficamente identifico-me mais com o escritor peruano. Sou anti-comunista, o comunismo foi uma das grandes tragédias do século XX e, nesse sentido, jamais poderia partilhar o modelo de sociedade defendido por Saramago. Admito, porém, que muitas das suas intervenções críticas a respeito das nossas democracias  davam que pensar. Não concordava com muito do que dizia mas fazia-me pensar. Tal como Llosa.
Perante o gravador de Alexandra Prado Coelho, voltou a falar de um cancro cujas consequências ainda não foram devidamente reconhecidas: o Maio de 68 e o espírito da coisa em geral. A terrível influência de sociólogos e antropólogos, sobretudo franceses, cujas ideias vieram relativizar a importância de alguns valores que deveriam continuar a ser sagrados. A crítica a Michel Foucault ou as "asfixiantes análises de Derrida" que ergueram "artificiosas desconstruções" que levaram ao "vazio", "monumentos de palavras inúteis", "uma gratuidade verbosa que carece de moral". 
As consequências foram completamente desastrosas para a nossa cultura ou até mesmo para a nossa civilização. E não é apenas o relativismo. É o fim do respeito aos professores como transmissores do saber,  ou a crise de uma cultura que se desligou da própria vida.
Podemos não concordar com o que pensam e dizem homens como Saramago ou Vargas Llosa. Ou até podemos nem ler os seus livros. Li dois livros de Saramago que não me deixaram saudades e do segundo, como disse, apenas um. Mas precisamos de homens e mulheres assim, não como de pão para a boca, mas como de oxigénio para o cérebro.

9 comentários:

manufactura disse...

...não sei se podemos dizer o comunismo já foi testado... foi propagandeado...

josé manuel chorão disse...

Acho que o Prémio Nobel da Literatura anda sobrevalorizado. Atribui-se a uns porque são contra o regime, a outros porque são a favor de um outro regime, raramente pelo valor literário em si.
Claro que isto da qualidade literária é uma classificação subjectiva, mas cada um de nós tem direito ao seu juízo pessoal.
De Vargas Llosa conheço parte da obra, de Saramago conheço-a praticamente toda. Ora eu poderia apontar aqui duas ou três dezenas de escritores que, na minha opinião, são merecedores de Nobel, mas nenhum desses nomes seria Llosa ou Saramago (muito menos Lobo Antunes).
São opções, a vida é feita delas e eu tenho as minhas. Não preciso de comunistas nem de anti-comunistas. Prefiro pensar por mim próprio, fora dessas categorias artificiais. Mas respeito o teu ponto de vista, sempre estimulante e controverso (no bom sentido da controvérsia).

JCM disse...

Acompanho a crítica ao Maio de 68 e aos valores que criou, bem como a certa deriva da filosofia francesa. No entanto, acho excessiva a importância que lhe é dada. Parece-me, antes, uma forma de ocultar outros bem mais responsáveis, e que não nasceram em França.

Se há um fenómeno dissolvente nas sociedades europeias ele foi introduzido, ao nível popular, pelas culturas juvenis anglo-saxónicas. Desde os filmes dos heróis de Dean ao rock and roll do Elvis, e à cultura do rock, e a tudo o que com ela se relacionou (a luta contra o formalismo nas relações pessoais às drogas leves, semi-leves e duras, etc.). Fenómenos como os Beatles, os Stones, os P. Floyd não nasceram com o Maio de 1968. Este, por muito que tenha parado França e criado uma intelectualidade mais ou menos invertebrada, foi um fenómeno de elites. O resto, nascido fora de França, propagou-se pelo mundo fora.

Também é curioso que, nesta oratório da degradação do Ocidente a partir do Maio de 68, se esqueça a degradação que o par Thatcher (uma conservadora) e Reagan (outro conservador) introduziram na vida do Ocidente, nomeadamente abrindo caminho para a intensificação das rupturas sociais e familiares que o capitalismo anglo-saxónico (há muitas outras formas de capitalismo) introduziu com o empenho de evangelizadores.

Em 1968 a França já nem sequer era uma potência média. A sua capacidade de influência, mesmo intelectual, estava morta. Haverá excepções, nomeadamente em países periféricos como o nosso, mas isso não faz de França o ninho da víbora, pois nem víbora tinha já poder para ser.

Na educação, as grandes modas desastrosas não vêm de França (embora também lá existam), vêm dos americanos e dos ingleses e do seu conflito com a escola pública. O Maio de 68, toda aquela idiotice de filhos família cansados dos pais, tem as costas demasiado largas.

jrd disse...

"A cabeça dos seres humanos nem sempre está completamente de acordo com o mundo em que vivem..."

Será por falta ou por excesso de oxigénio?

Lembrar-me eu que gostei de ler Celine e sou anti-fascista.

o anão gigante disse...

"Na educação, as grandes modas desastrosas não vêm de França ..."

Discordo aqui. Os EUA importaram Freinet.

http://oanaogigante.blogspot.com/2010/10/monsieur-freinet.html

Clau disse...

Parece-me que as desconstruções são sempre positivas, "Derridarianas" ou outras. No final, podem acabar por não fazer sentido, mas o exercício de desmontar pressupostos e questioná-los valerá sempre a pena.

António Ventura disse...

Recomendo-lhe vivamente a leitura dessa extraordinára epopeia que é "A Guerra do Fim do Mundo".
Aconteceu-me o mesmo que com os "Cem anos e Solidão":
uma noite inteira e uma manhã sem largar o livro!

Um abraço!

Margarida Fernandes disse...

O meu aplauso para o Nobel atribuído ao Mario Vargas Llosa.
Só li duas das suas obras mas gostei.

Quanto aos telhados de vidro...queria mesmo dizer o que escrevi.Quem não os tem?!?!?!? Nem que seja por uma mentirinha. piedosa :-)

Beijinho

Do Saramago só consegui ler o Memorial do Convento.

Rita TSBGC disse...

Tenho motivos genéticos para não confiar nos 68huitards e nos seus seguidores, gostavam de utopias mas deixaram-nos o detrito da utopia, a ausência do desejo como possibilidade, ou a impossibilidade do tempo que vai entre a vontade e a concretização.
Creio que Portugal manteve a influência francófona até tarde, bem depois do desmoronar do mito, muita da nossa inteligentzia manteve França como referencial da liberdade, por oposição ao sufoco nacional e ao nosso sentimento de marginalidade (na margem) perante a Europa.
O relativismo é no fundo o absurdo de achar que se pode viver acreditando numa coisa e no seu oposto em simultâneo, se olharmos para a Europa hoje, saberemos que isso a deixou sem identidade civilizacional.
O que é a Europa hoje ?
Geografia ...
Cultura...
Religião...
Política...
Valores...
Onde é a Europa hoje ?
Nota final : A cultura popular é nalguns casos a digestão e o seu fim, da cultura das elites.
A inconsequente atitude de James Dean e a sua revolta são parábolas existencialistas, mastigadas com uma mistura de pastilha elástica de Hollywood.