23 outubro, 2010

NINGUÉM


                                                              Jeffrey Michael Harp

No Frei Luís de Sousa, quando perguntam ao romeiro quem ele é, responde: "Ninguém!". É também isso que responde Ulisses a Polifemo quando este lhe pergunta o nome. A resposta de ambos é a mesma, porém, há uma diferença da noite para o dia. Literalmente, da noite para o dia.
Enquanto o Ninguém do romeiro é uma marca do seu desespero e angústia, de um drama profundo, do apagamento da sua identidade, o Ninguém de Ulisses é o resultado da sua astúcia e capacidade de fingir, dissimular, de um instinto de sobrevivência.  Não representa um apagamento da sua identidade mas uma afirmação da sua identidade. Ulisses é Ninguém para se salvar, para controlar, para dominar. Torna-se Ninguém como resultado da sua Vontade de Poder. O Ninguém do romeiro, por sua vez, é uma marca da sua auto-aniquilação, a consciência de um nada no qual submergiu toda a sua existência.
Ulisses torna-se Ninguém para poder chegar salvo e seguro a Ìtaca. Quando o romeiro diz que é Ninguém, acabamos de assistir a um naufrágio.
Perceber isto é perceber um pouco da História da humanidade desde os primórdios até aos nossos dias. Seja nos grandes movimentos históricos e sociais, seja no recato da vida doméstica, em frente à lareira, à hora do jantar.
A matéria orgânica de que é feita a filosofia tem uma forte textura literária.

2 comentários:

josé manuel chorão disse...

Quer-me mesmo parecer que é na literatura que encontramos a melhor filosofia; em primeiro lugar, porque a literatura é mais livre e abrangente que a filosofia, mais técnica por natureza; em segundo lugar porque a literatura chega a mais pessoas, cumprindo assim a vocação original da filosofia (a qual, por auto-distanciamento dos praticantes da mesma, tantas vezes se afasta do comum dos mortais, isto é, da realidade).
Nas páginas da boa literatura encontramos reflexões fundamentais, a estimular o nosso próprio pensamento e a dispensar os filósofos de serviço.

jrd disse...

O melhor é o (Zé) Ninguém de Reich: Nu como um recém-nascido ou um general em cuecas.