11 outubro, 2010

LE CAUCHEMAR SUR L'HERBE

The figure who dominates the ninetheenth century as an image is the tousled figure of Beethoven in his garret. Beethoven is a man who does what is in him. He is poor, he is ignorant, he is boorish. His manners are bad, he knows little, and he is perhaps not a very interesting figure, apart from the inspiration which drives him forward. But he has not sold out. He sits in his garret and he creates. He creates in accordance with the light which is within him, and that is all that a man should do. Isaiah Berlin, The Roots of Romanticism

A conclusão que posso extrair de todas estas reflexões é que não fui feito para a sociedade civil, onde tudo é opressão, obrigação, dever; o meu temperamento independente tornou-me sempre incapaz das sujeições necessárias a quem quiser viver entre os homens. Enquanto posso agir livremente, sou bom e não pratico senão o bem; mas, logo que sinto o jugo, quer da fatalidade quer dos homens, torno-me rebelde, ou antes, insubmisso, e passo a ser nulo. Quando é preciso fazer o contrário da minha vontade, não o faço, aconteça o que acontecer. Jean-Jacques Rousseau, Os Devaneios do Caminhante Solitário (sexto passeio)

Beethoven e Rousseau, dois heróis românticos. Um, sozinho no seu sótão, compondo música. Outro, sozinho no meio do campo, pensando numa sociedade na qual todos os seres humanos possam ser livres e na qual a vontade individual esteja em harmonia com a vontade geral.
Há, por isso, apesar da solidão de ambos, diferenças. Um é artista, faz arte, o outro é filósofo, escreve filosofia. E as consequências também não poderiam ser mais diferentes. A música do primeiro será sempre inocente. Não tem valor moral, político, ideológico, apenas estético. Por muito que se associem certos compositores alemães ao nazismo ou certos compositores russos ao estalinismo, a música estará sempre acima desse território demasiado humano e superficial. Altos oficiais nazis gostavam de Beethoven? Mas que culpa tem Beethoven disso? As suas sinfonias não matam ninguém, as suas sonatas ou os seus quartetos não provocam qualquer deformação moral ou política.
Já com Rousseau é completamente diferente. Tal como Beethoven, era um revoltado, um solitário. Mas enquanto Beethoven se sentava ao piano para escrever notas musicais, Rousseau sentava-se à secretária para escrever ideias. Ideias sobre o aperfeiçoamento moral, social e político do ser humano. Algumas das ideias de Rousseau até poderão ser simpáticas. Há mesmo uma atracção romântica pela noção de Vontade Geral. Mas as ideias são como segredos nucleares que escapam ao seu criador. Ao entrarem nas cabeças de pessoas que querem purificar o mundo passam a ter o mesmo efeito que têm barris de petróleo num armazém que começa a arder.
A música, a arte em geral, não são perigosas. O mesmo não podemos dizer das ideias. O romantismo deveria ficar mesmo limitado à arte. Um filósofo romântico lido por políticos e ideólogos românticos ou sonhadores pode levar a grandes pesadelos, muitas vezes sem ter qualquer culpa.
Eu continuo a sentir uma enorme simpatia pela solidão de Beethoven, sabendo que lhe devo horas de prazer. De Rousseau, confesso, gosto cada vez menos.  O ar do campo deu-lhe a volta à cabeça. O campo não é para todos. Devia estar apenas reservado a quem não precisa de pensar. Estar sozinho no campo, longe das pessoas e, ao mesmo tempo, pensar numa sociedade ideal para essas pessoas, pode ser o começo de grandes tragédias.
Eu gosto de tragédias. Mas se forem escritas por Ésquilo ou Sófocles ou compostas por Mahler, Brahms ou Schubert.

9 comentários:

josé manuel chorão disse...

Totalmente de acordo quanto a Beethoven. Mas parece-me que estás a ser um pouco injusto ao desgostar de Rousseau; o pobre homem limitou-se a ser honesto consigo próprio, um génio entre ignorantes, um ser genuíno e bom incapaz de suportar os outros, a sociedade, fonte de todos os males; apesar disso, consciente da sua humanidade, sonha a possibilidade de melhores sociedades. É puro, irredutível. Admirável, portanto. Na minha humilde opinião, claro(tenho uma enorme simpatia por todos os que arrenegam a Humanidade...).

Rita TSBGC disse...

Algumas discussões nunca me deixam indiferente...
Hoje as palavras estão bicudas e receio falar como quem dá pontapés, mas amanhã regresso.
Fica um agradecimento pelo texto!!!

João Delicado sj disse...

Bem visto!

Como pode um homem isolado querer definir a vida daqueles de quem se isola? E, porém, é assim que nascem as utopias que abrem horizontes... ou levam a catástrofes sociais.

Ricoeur falava disto em "Ideologia e Utopia": o perigo dos extremos e a necessidade da dialéctica.

José Ricardo Costa disse...

Zé, desculpa, olha que és capaz de estar um pouco equivocado relativamente ao carácter do amigo Jean-Jacques. Seria interessante ouvir o que a mulher e os seus filhos teriam a dizer sobre ele. E conheces o episódio com o David Hume, em Inglaterra? Não te fies no que as pessoas escrevem...

Abraço,

JR

josé manuel chorão disse...

Já liguei para o céu para confirmar com a mulher do Rousseau se é verdade aquilo que afirmas, mas não consigo falar com ela, atende-me uma gravação que repete:
"Aqui fala do Céu. A sua chamada é muito importante para nós e será atendida por um dos nossos anjos segundo a ordem de chegada. Neste momento, há um enorme número de chamadas de pessoas a reclamar caerca de Sócrates; assim, agradecemos o seu contacto e solicitamos que tente mais tarde."
De modo que vou ter de confiar em ti, não consigo falar com ela.
um abraço

José Ricardo Costa disse...

Pschiuuuu... Deixa lá então o pessoal fazer o seu trabalhinho sossegado. Outros valores se impõem!

JR

Mar Arável disse...

Tudo bem

mas de tantas vezes sós

nunca isolados

Anónimo disse...

Se é verdadeira a ideia de que a arte, ou melhor a obra, é desprovida de culpa quanto à sua utilização por outros,não é menos verdadeira a ideia de que o carácter do artista enquanto homem, não deixa de ser reflectido ( mesmo que involuntariamente) na obra.
Beethoven não provocou o extermínio de judeus já Rousseau, deliberadamente, abandonou os 5, repito 5, filhos na roda dos órfãos.
5 filhos deve ser um número complicado para homens artistas, o sr. Gauguin também largou 5 filhos...

JCM disse...

Esta coisa de a música, ou a arte, apresentar tanta inocência, peço desculpa, mas faz-me sorrir. Devo estar a ficar muito velho.

Que sabemos nós dos efeitos do estético na dimensão moral? Por exemplo, não se sentiriam os oficiais nazis mais esclarecidos sobre a superioridade alemã ao ouvir Beethoven ou Wagner. Os acordes vindos dessa música não lhe terão dado mais vontade de matar judeus e com maior eficiência?

Eu defenderia uma tese oposta à do Zé Ricardo. As ideias são mais inofensivas que a arte. As ideias expressam-se claramente, podem ser contrapostas por outras ideias, há a possibilidade de as desmontar, evidenciando as falácias que escondem.

Mas a música ou a pintura? Como contrapor aos estados emotivos que promovem? Não admitem a contraposição, a desmontagem, o mostrar do falacioso. Elas não são ideias. No entanto, podem produzir representações e estados de alma que levam os homens a agir, e de que maneira. Como a cavalagada das Valquírias me torna mais capaz de lançar napalm sobre os camponeses do Vietname. Talvez o senhor FF Coppola soubesse alguma coisa do assunto.

Não será a arte bem mais perigosa que as pobres ideias, que se expõem ao opróbrio da refutação?

Aliás, nada disto que estou a dizer é particularmente novo. Platão lá tinha as suas razões para expulsar o poeta da cidade.