13 outubro, 2010

DRAMATISMO

                                                         William Hoghart, O Contrato de Casamento

Existem três géneros literários: o narrativo, o líríco e o dramático. O que mais se aproxima da vida real é o dramático. Um texto dramático é escrito para ser representado num palco. A sugestão de observarmos a realidade é por isso mais forte ( numa representação clássica) do que acontece com a leitura de um romance ou de um poema. Não é por acaso que se chama "género dramático". Etimologicamente, drama significa acção, aparecendo já com este sentido na Poética de Aristóteles.
Com o tempo, a palavra "drama" adquiriu um sentido completamente diferente. Quando pensamos em drama, pensamos em tudo menos num género literário. Mas eu gosto destas confusões e misturas. Vejo-as como sendo conceptualmente muito interessantes.
Em primeiro lugar, gosto da mistura entre o teatro e a acção. Podemos dizer que o teatro simula a acção. Mas também podemos dizer que há muitas acções que simulam uma representação teatral. Ou seja, se muitas peças de teatro pretendem reproduzir com verosimilhança o que se passa na vida, há também muitas coisas na vida que pretendem reproduzir o que se passa em cima de um palco. E chegamos a um ponto em que o teatro e a vida se confundem.
Mas gostaria de, em segundo lugar, salientar uma outra confusão. Já vimos que, em rigor, um texto dramático é simplesmente um texto escrito para ser representado teatralmente. E se for uma comédia? Neste sentido estamos perante um texto dramático que é cómico.
Ora, se pensarmos no actual e comum sentido da palavra "dramático", fora do plano técnico da arquitextualidade, a confusão torna-se mesmo deliciosa. Um "drama cómico" está muito longe de ser um paradoxo. Na verdade, a vida, ou seja, a acção, ou seja, o drama, está cheia de situações que dão ao mesmo tempo vontade de rir e de chorar.

4 comentários:

jrd disse...

Mais um texto de excelência.
Já agora, quando é que cai o pano?...

José Ricardo Costa disse...

No palco da vida não há panos desses. Só panos de limpar o pó. Mas, ainda assim são sempre em número insuficiente.

Mar Arável disse...

De facto

não existe pano

e o tempo passa

joao alfaro disse...

Tudo não passa de uma "salada russa": vida, teatro, drama, comédia, verdade e mentira.