30 outubro, 2010

CRY ME A RIVER

Aviso à navegação: este post é fútil, muito fútil. Começa em broas de mel e acaba em roupa.

Aos sábados de manhã, leio o jornal, converso com as amigas e vou ao supermercado. Hoje impunha-se a compra de uns ingredientes para umas broas de mel solicitadas pela secção mais nova cá de casa. Diga-se, em abono da verdade, que a secção mais velha também não desdenhou a ideia
Comecei as minhas leituras com o Público e a Blue Cooking. Passei do relato das misérias do país para as fotografias glamourosas de um bacalhau em massa folhada a que meterei mãos para o almoço de amanhã. Depois, para me afastar definitivamente da subida da taxa da Euribor, mergulhei na leitura da Vogue italiana que, como sabe quem a folheia, é um deslumbramento que nunca mais acaba, desde as belíssima photo-story de Steven Meisel até a uma viscontiana produção de moda que aquela gente fotografou num pallazzo decadente com paredes onde morrem os frescos barrocos e o trompe-l’oeil do tecto parece acordar por instantes e cair de novo num sono de séculos.
Houve um tempo em que as roupas que se usavam numa estação ficavam imperativamente obsoletas na estação seguinte. Hoje as coisas mudaram: tudo pode ser usado, com um pequeno toque de imaginação, um pequeno nada que faça a diferença. Fizemos uma aprendizagem dos clássicos, dos básicos, conservamos casacos compridos sem lhes olhar aos anos, usamos aquela saia justa Outono sobre Outono e sabemos bem como brilham as pérolas sobre o tweed.
No entanto, a magia recomeça a cada estação. Dentro de cada revista de moda, mora, neste momento, o universo americano dos escritórios de publicidade da Madison Avenue nos anos 50. A série Mad Men inspirou todos os criadores, as saias rodopiam, o lady-look impera. Lembro-me de um episódio em que um dos criativos dizia que todas as mulheres são ou Marilyn ou Jackie: um curva ou uma linha. As tendências do Inverno aí estão a prová-lo: casacos cintados, saias pencil, saias rodadas, blusas estruturadas.
Mas o que é curioso, pensei eu enquanto tendia as broas e as punha no forno, é que esta evocação dos fifties é uma evocação de um tempo de paz, de um tempo de mudanças e de oportunidades. Durante a 2ª Guerra, as saias das mulheres eram justas, pela altura do joelho, não por uma capricho da moda mas porque as fábricas de têxteis produziam pouco, era preciso racionar tudo, o sabão, o arroz, o tecido gasto na roupa. Na Primavera de 47, Christian Dior lançou uma colecção que a editor da Harper’s Bazaar, Carmel Snow, baptizou com o nome com quem ficaria conhecida: New Look.
Quem tem fotografias antigas das mães e das tias, saberá o que é: umas imensas saias rodadas, talhadas em chapéu-de-sol. Eram usados metros de tecido porque as saias não só eram muito amplas como, segundo os ditames, a bainha deveria ficar a 40 cm do chão, tendo a senhora os sapatinhos já calçados.
Escrevia Dior : “Nós saímos de uma época de guerra, de uniformes, de mulheres-soldados, de ombros quadrados e estruturas de boxeur. Eu desenho femmes-fleur , de ombros doces, bustos suaves, cinturas marcadas e saias que explodem em volumes e camadas.”
Agora, com algumas alterações porque o tempo pede sempre alguma mudança, os criadores voltaram o trilhar esse caminho.
Resta-nos procurar uma saia rodada e pensar nela com um talismã, como o passaporte para uma twilight zone onde não há crise, ninguém se chama Sócrates, a Euribor encravou e não nos vão roubar uma fatia do ordenado.

Um mundo de saias rodopiantes com um Don Draper em cada esquina.


P.S. As broas ficaram boas.

5 comentários:

Woman Once a Bird disse...

E é este um post fútil?
Boa sorte também para o bacalhau de amanhã.

marteodora disse...

Como o tipo "rodado" não me fica bem,fico-me pelas "pencil".
Do bacalhau em massa folhada...hum, fica a curiosidade (um destes dias, em sede própria, peço-lhe a receita!)
Quanto à crise vs glamour: I'll cry a river over you!

m.a.g. disse...

Excelente futilidade.
Atenção que bacalhau em massa folhada é meio caminho andado para acumulação de "redondezas":)
Eu diria o glamour (palavra que detesto) da crise!

Margarida Fernandes disse...

Um pouco de futilidade não faz mal a ninguém.:-)

Quanto ao bacalhau em massa folhada...confesso-me doida por bacalhau e massa folhada :-).

Saias rodadas não são muito ou mesmo nada o meu género.

Crise e Glamour...Não me apetece comentar aqui e agora. Prefiro concentrar-me no bacalhau e nas saias...

Beijinho

Margarida Fernandes disse...

SE me permite deixe-me acrescentar e utilizando as palavras de "Woman Once a Bird":
E é este um post fútil?!?!?!?


Bj