05 outubro, 2010

CEM ESPINHAS

                                                                         Frans Hals

Se os assassinos de 1908 e a rapaziada de 1910 tivessem ficado sossegadinhos e Portugal continuasse uma monarquia, não seria hoje muito diferente do que é. Talvez fosse ligeiramente melhor, tendo-se evitado o caos político e social da I República, os 48 anos da II República e parte da confusão da III República. 
Em 1910, Portugal não precisava de uma república, precisava de um bom governo. O problema da monarquia não era a monarquia mas os governos da monarquia. O problema da república não é a república mas os governos da república. O problema de Portugal não é a monarquia ou a república. O problema de Portugal são os portugueses.
A Suécia habitada por portugueses há muito que teria entrado em decadência, Portugal habitado por suecos há muito que estaria no leque dos países mais desenvolvidos. O plano Marshall resultou na Alemanha porque foi aplicado por alemães, os fundos comunitários não resultaram em Portugal porque foram aplicados por portugueses.
Repito, o problema de Portugal são os portugueses e começa logo nos políticos. Neste caso, porém, poderão existir diferenças entre a república e a monarquia. A república portuguesa está cheia de políticos que nem sequer sabem comer bolo-rei. Fosse Portugal uma monarquia e nenhum rei perderia a compostura, ainda que fosse a comer uma fatia de pão com manteiga Président.

9 comentários:

Anónimo disse...

sim, concordo completamente. 800 de monarquia e uns anitos de república/democracia e os problemas continuam os mesmos.
Helena

José Borges disse...

Bom, os exercícios de história contra-factual são muito interessantes, mas raramente valem mais do que meros exemplos de ficção.

Certo, o problema de Portugal são os portugueses, da mesma maneira o problema da Suécia são os suecos, e por aí fora. É bom que assim seja. Agora, acreditar que a forma de regime não tem nada que ver com o progresso de uma nação não me parece uma conclusão lógica do facto de o nosso problema ser sempre 'os portugueses'.

Vamos ser honestos. Quem é que gostaria de exacerbar ainda mais o ego dessa gente que por ser filha deste ou daquele julgam logo serem os velhos nobres construtores da nação (dos que se fizeram Barões por decreto com medo de se fugirem serem feitos Viscondes)e levarem logo com o Dom atrás? É absurdo e não há nada que o justifique. Mais, porquê prescindir da possibilidade de eleição do Chefe de Estando?

Quer dizer, todos sabemos dos excessos da Primeira República, mas quantos conhecem os da Monarquia Constitucional? Todos sabemos dos méritos desta última, mas quem conhece os da primeira tão denegrida?

Achar que o Estado Novo (e não segunda república, que essa é a actual) foi uma consequência lógica da República e que não teria acontecido se houvesse monarquia parece-me absurdo. Do mesmo modo, e aqui sem dúvida alguma porque a história demonstra-o, a República é consequência directa da Monarquia. Porque na ideia de Progresso, é um passo natural, representa de algum modo uma libertação. Lembrar o silêncio confrangedor dos segundos que sucederam ao rolar da cabeça de Luís XVI. De certo modo o povo soube que a partir daí não teria mais o velho bode-expiatório e que só poderia contar consigo. Esta emancipação é importantíssima no povo. Os portugueses precisam de um pai oitocentos anos depois?

E isto, já sabe José Ricardo, com o máximo respeito.

José Ricardo Costa disse...

Zé, claro, eu percebo o seu comentário. Eu não sou monárquico. Sou, filosoficamente, republicano.
O que eu apenas pretendo é desmistificar alguns delírios republicanos e exprimir o meu nulo entusiasmo relativamente à comemoração do centenário. Por outro lado, exprimir a ideia de que tanto o que temos de bom como de mau, não resulta do tipo de regime. Dentro da república, terá feito toda a diferença a passagem da ditadura à democracia. Porém, a passagem da monarquia à república não explica grande coisa.
A república não nos salvou de nada. Viu-se pelo que veio a seguir. 1910 não nos permite falar numa dicotomia entre uma obscura ditadura monárquica e uma avançada democracia republicana (Falou em Luís XVI, ou seja, no século XVIII. Nas actuais e já velhinhas monarquias constitucionais não encontra Luíses XVI mas monarcas modernos perfeitamente assimilados pelos regimes). Não sou historiador, estarei a falar do que não sei mas parece-me qualquer coisa de evidente.
Sem quer fazer história contra-factual, parece-me, repito, parece-me, que Salazar pode ser explicado pela I República, do mesmo modo que Hitler pode ser explicado por Weimar. Não sei se com D. Manuel II teríamos tido Salazar ou pelo menos o Salazar que tivemos.
Quanto à aristocracia, bem. Preferia uma aristocracia assumida feita de duques, condes e barões do que esta que temos produzida pela república, na qual os duques, condes e barões foram substituídos pelo cartão de militante do PS e do PSD. Como digo no post, saber comer bolo-rei não é para todos.

P.S. Considero igualmente pouco elegante andar a cortar as cabeças às pessoas ou andar a matar pessoas no meio da rua. Provavelmente, alguns dos políticos que a nossa democracia produziu mereciam mais ficar três meses a pão e água do que o pobre do D. Carlos levar os tiros que levou.

Anónimo disse...

A ideia de que o progresso é uma via única, tipo auto-estrada, como sugere o José Borges, incomoda-me profundamente, existem tantas possibilidades de evolução, e muitas vezes, aquilo que rejeitamos é tão decisivo quanto aquilo que elegemos...
Com os formalismos inerentes a uma hierarquizada sociedade enjeitámos a educação e a civilidade e provávelmente a cultura.
Mantemos barões e baronesas cujo comportamento roça o burlesco do vaudeville.
Cada povo enaltece os heróis em que se reconhece...

jrd disse...

"Un precioso final"(*)como diriam "nuestros hermanos" que preferiram deixar-nos escapar em 1640, para ficar com a Catalunha que, ingrata, quer agora dar de frosques à coroa.
Razão tinha aquele general romano quando disse a Julius Caesar que, havia um povo, por estas bandas, que não governava nem deixava governar.
(*) Sinceramente, acha mesmo que a linhagem do D. (risos) Duarte, merece manteiga Président?
Eu cá, se tivesse de lhe pagar uma sande, seria com Planta e vá lá que agarras...

josé manuel chorão disse...

Quanto à república, comemorei ignorando olimpicamente tudo o que metesse governantes. Desliguei a televisão, não li jornais nem revistas histéricas (a distribuir tudo o que lembrasse república, só faltou a reprodução fac-simile do papel higiénico que usou o presidente das não sei-quantas...),vi um bom filme (em DVD)e, principalmente, conversei com os meus filhos. Não me parece que haja seja o que fôr que valha apena comemorar...
Quanto ao que afirmas acerca dos portugueses...onde é que eu assino?

vera disse...

E não são estas afirmações de puro Sebastianismo ? se fosse ... se fosse ...
acho muito bem que se celebre a républica e não se celebrem coisas obsoletas porque obsoletos já nós somos e é fundamentalmente essa a diferença entre a Suécia e Portugal e não o resto,( que é de facto ali também obsoleto - a herdeira ao trono casa com o personal trainer e coisas que o valham ...)
O Presidente ou rei que aprenda a comer com compostura pão com manteiga com manteiga Milhafre dos Açores e não com manteiga Président, que é bem pior , e verão como o país se endireita

homburg disse...

Unicamente unha curiosidade: por que esa obra de Halls, é realmente a súa visión concentrada dos portugueses? Polo demais, seguramente se trata dunha argumentación (a que vostede fai, vaia) que podería ser subscrita por moitos outros cidadáns doutros moitos estados, máis aínda nestes tempos de vacas fracas.
Entro moitas veces pero nunca antes deixara pegadas.
Un saúdo.

p.s.: Nunha ocasión esoiteille dicir a un francés que resultaba incrible ver como Italia funcionaba a pesar dos italianos. Non sei se lle aporta algo.

José Ricardo Costa disse...

Caro homburg, cada um queixa-se do que tem, não é verdade? E provavelmente uns terão mais razão de queixa do que outros.
Quanto ao Hals, lembrei-me dele a respeito de um político português que um certo dia falou para uma câmara de televisão enquanto comia bolo-rei...