04 outubro, 2010

BIS


                                                                          Chagall

Ontem, o meu filho lembrou-se de que está um circo em Torres Novas. Porém, logo de seguida, afirmou desanimado: "Também é sempre a mesma coisa...".
Pois bem, o que há de superior num circo é precisamente o ser sempre a mesma coisa. Os mesmos trapezistas, os mesmos malabaristas, as mesmas chapadas levadas pelo palhaço pobre, os mesmos cães, a mesma música, o mesmo círculo, as mesmas lantejoulas. A magia do eterno retorno sobre si mesmo.
Existe hoje uma obsessão pela novidade que nos leva a desejar a novidade apenas porque é novidade. Se fosse possível, alguém faria com que o Sol não nascesse sempre da mesma maneira e com que uma noite estrelada não fosse a mesma de sempre. Há quem goste da vertigem e do abismo, de atravessar o ar que nunca alguém tivesse atravessado. De cair no vácuo da novidade através de uma linha recta percorrida de cima para baixo.
Uma cultura da novidade é uma cultura da morte. Em cada novidade há uma morte sentenciada. A morte de quem matámos mas também a nossa própria morte antecipada. O eterno retorno, pelo contrário, torna-nos eternos. Os nossos actos são os actos daqueles que já morreram. E, um dia, quando morrermos, outros virão cujos actos irão ser os nossos.

4 comentários:

josé manuel chorão disse...

Que boa é a ideia de permanência, de eterno retorno.
Sou adverso à novidade,à substituição das coisas (ou das pessoas) só pela substituição por outras novas. Acho que há nessa atitude uma ânsia (inconsciente?) de se não encarar a si próprio, de se não ser aquilo que se é.
Mudar por mudar é uma espécie de esquecimento de si, de suicídio intelectual.

jrd disse...

Então e o Camões!?...

Margarida Fernandes disse...

Como já nos vem habituando...aqui está mais um bonito texto.

Um abraço

maísha disse...

if that's all there is my friends...