12 setembro, 2010

SENHORAS E SENHORES TELEVISÕES



A minha relação com a televisão resume-se a alguns jogos de futebol, partes de noticiário e alguma coisa avulsa que, por acaso, sei que irá passar. É por isso natural que, só hoje, tenha sabido pelo jornal que Carlos Cruz, depois da sua condenação em tribunal, passou a viver na televisão: telejornais, programas de entrevista (Judite de Sousa), programas de debates (Prós e Contras).
O que deveras me espanta é o espanto das pessoas perante a omnipresença do "senhor televisão". A televisão é uma máquina que se alimenta de si própria. Cria laboratorialmente a sua realidade e, depois, alimenta permanentemente essa realidade com os seus próprios órgãos. Carlos Cruz é um produto da televisão. Neste sentido, o seu julgamento é tão televisivo, tão telegénico, como se estivesse a apresentar o "1,2,3" ou o "Quem Quer Ser Milionário". Carlos Cruz no tribunal, Carlos Cruz à saída do Tribunal, Carlos Cruz sentado na televisão a falar no seu processo, será qualquer coisa que já não faz parte da realidade mas da própria televisão. No fundo, a televisão é assim mesmo. Constrói personagens e ficções que, depois, se transformam nas pessoas verdadeiras e na própria realidade, o alimento que, no circo mediático, mata a fome e a sede a espectadores sedentos e esfomeados.
No fundo, Carlos Cruz à saída do tribunal (quantas pessoas saem diariamente pelas portas dos tribunais?) é como o pontapé do Marco, um pobre coitado cujo pontapé numa rapariga se tornou tão mediático como um pontapé do Cristiano Ronaldo: a verdadeira realidade. A realidade que se consome, às 20 horas, sentado no sofá da sala como um boi na manjedoura.

9 comentários:

josé manuel chorão disse...

Cada povo tem a televisão que merece.
Aos acéfalos consumidores de lixo visual, a televisão serve...lixo visual, pois claro.
Existe um comando que serve para mudar de canal ou, melhor ainda, desligar. E há tanta coisa boa para fazer, ao gosto de cada um. Portanto, se querem lixo...o Carlos Cruz lá está para lho dar.

(Quem raio é o Marco dos pontapés? jogador de futebol? De que clube?)

José Manuel Vilhena disse...

Confesso que pensei este tipo está a abusar… ah, não me refiro à reflexão sobre a TV criar personagens… mas à má vontade quanto à História (v. post pr´aí quatro andadelas de rato mais abaixo) Pensei vou dizer-lhe que já percebi que para ele a dita é uma espécie de fonte de alimentação da escrita criativa, e vou perguntar-lhe já agora (cheio de vingança) se a Filosofia não será também boa para letras de canções daquelas que nos marcam… Era mais ou menos esta a ideia.
Mas agora reparo numa frase quando diz que a televisão (…)” Constrói personagens e ficções que, depois, se transformam nas pessoas verdadeiras e na própria realidade” quando antes tinha dito essas personagens serem “qualquer coisa que já não faz parte da realidade mas da própria televisão” É que embora perceba o que sente, realidade e televisão apesar de se terem tornado promíscuas, são coisas diferentes. A realidade já existia antes da televisão, a História e a Filosofia também, e eu não consigo ter a veleidade de tentar entender o mundo dos humanos sem ambas. Disse. E mais só na presença de um dos meus advogados.
Cumprimentos

ps- um abraço. Eu sei que parece graxa para amenizar, mas acho que não imagina a quantidade de revistas e jornais que deixei de comprar porque venho aqui e sacio-me. E esta é mesmo a realidade, sem televisão e numa hipótese em 100000000000000000000000 de ficar na História.

jrd disse...

Nunca me esqueço da célebre frase do saudoso Mário Castrim que dizia (+ ou -) assim: "Comparadas com a TV, as meretrizes do Bairro Alto são donzelas impolutas."

José Ricardo Costa disse...

Zé, o Marco dos Pontapés era um boneco do Big Brother que deu um pontapé à Marta, acto que foi notícia de abertura de um Jornal Nacional.

Caro JMV,

Não vai ser preciso advogado. Mal por mal preferiria um duelo à moda antiga.
Agora a sério. Nenhuma, mas mesmo nenhuma má vontade em relação à História. Eu gosto muito de História. Estudei Filosofia mas poderia ter estudado História.
Trata-se apenas de um problema epistemológico clássico sobretudo quando se reflecte acerca do estatuto científico da História e do que a separa das ciências experimentais.
Não ponho em causa os elementos objectivos a respeito do passado: as datas, os documentos, os factos, os esqueletos que irão encher os armários dos historiadores. O Tratato de Tordesilhas é, enquanto dado, tão objectivo como o oxigénio e o hidrogénio da água. A questão será antes o seu verdadeiro signficado que transcende a mera objectividade factual e documental. E quanto mais nos afastarmos no tempo mais esse signficado se torna obscuro. Oxigénio é oxigénio, o espírito é o espírito.
Quanto à televisão, quis dizer o seguinte: quando eu digo " Carlos Cruz sentado na televisão a falar no seu processo, será qualquer coisa que já não faz parte da realidade mas da própria televisão" significa que o facto televisivo se sobrepõe ao facto bruto. Ou seja, a televisão filma a realidade e, ao filmá-la, apropria-se dela, torna-a numa realidade sua. Neste sentido, a televisão inventa a realidade que, por sua vez, se transforma na realidade por excelência.

Quanto ao seu Post Scriptum, por favor, não deixe de ler a revista Maria. Imagine o seu valor documental para um historiador daqui a 100 anos a fim de poder compreender o século XXI português. Confesso que me deixou embaraçado com o piropo. Mas olhe que saciar os olhos é, muitas vezes, o que mais facilmente nos põe em paz com o mundo e connosco. Fiz-me entender, certo?

João Delicado sj disse...

Também me parece que o mais evidente deste processo não é termos um Carlos Cruz inocente ou culpado mas assistirmos em directo e ao vivo a um processo de autofagia da televisão portuguesa.

José Manuel Vilhena disse...

:)

estela disse...

JMV e JRC: obrigada! fizeram o meu dia! :)

Margarida Fernandes disse...

Carlos Cruz é um comunicador nato.

O Sr. televisão está neste momento a fazer aquilo que melhor sabe fazer (e que lhe convém)..."levar a água ao seu moinho" no meio onde melhor se consegue movimentar.

Ana Paula Sena disse...

Muito bem visto, José Ricardo.