18 setembro, 2010

SEM CINISMO



Durante a minha caminhada matinal passei por uma paragem de autocarros em cujo vidro traseiro estava uma folha de papel com a fotografia de um cão, e com a seguinte frase em letras grandes: "Procura-se cão desaparecido".
Inicialmente, vi na frase uma enorme redudância. Se o cão é procurado é porque está desaparecido. Mas logo de seguida percebi que não se trata de uma frase assim tão disparatada. Quantas pessoas há que se procuram a si mesmas sem estarem desaparecidas?
E digo isto sem qualquer ponta de cinismo. Se eu quisesse ser mesmo cínico diria que, a existir redundância, será apenas no caso do cão e não do homem. Para um verdadeiro cínico um cão nunca está desparecido.

4 comentários:

josé manuel chorão disse...

Perguntas tu: "Quantas pessoas há que se procuram a si mesmas sem estarem desaparecidas?"
Pergunto eu: e quantas pessoas haverá que não se procuram a si mesmas porque não têm consciência que há muitos anos desapareceram de si?...
Quantas pessoas desapareceram da nossa vida?
Quantas pessoas desistiram de existir?
E, finalmente, quantas pessoas existem, simplesmente, sem ser?

josé manuel chorão disse...

Ainda em relação às tuas caminhadas, fica aqui um poema interessante, que encontrei num Blog alentejano:
http://acincotons.blogspot.com/2010/09/e-agora.html

José Ricardo Costa disse...

Zé, obrigado pelo poema. Bonito.

jrd disse...

Um verdadeiro cínico é capaz de oferecer um osso ao autor do anúncio, para este dar ao cão, quando ele aparecer.