01 setembro, 2010

O TEMPO DAS FIGUEIRAS


Assisti, hoje, durante a minha caminhada matinal, a uma situação profundamente dramática.
Torres Novas, como todas as terras portuguesas, está inundada de rotundas. Numa delas encontram-se duas figueiras. Figueiras reais, a sério, com figos mesmo. Porém, junto às figueiras estão dois bonecos de mármore: uma mulher com uma cesta, apanhando figos do chão e um homem com uma vara na mão para fazer os figos caírem.
Esta rotunda encontra-se numa avenida que foi em tempos uma estrada fora de Torres Novas, rodeada por quintas e terrenos agrícolas. Hoje, a estrada de outrora foi engolida pela cidade, sendo uma avenida com separador central. Ainda mantém, é verdade, vestígios rurais de outros tempos, mas que surgem cada vez mais como um melancólico anacronismo.
Durante a minha caminhada fui dar com um velhote dentro da rotunda, com um saco de plástico na mão, apanhando figos da árvore. Um cenário bem estranho. Aquela árvore, sendo real e dando figos reais, já não é uma verdadeira árvore. Aquela árvore tem o mesmo estatudo do marmóreo casal que lá se encontra a fingir que trabalha: é uma árvore museológica que ali está, não para mostrar o que é mas para mostrar o que foi, para exibir ou lembrar um tempo que já não existe.
E já nem se pode sequer dizer que aquele homem anda a roubar fruta. Não são figueiras de um agricultor, o seu ganha-pão. São figueiras da Câmara Municipal e os seus figos não servem para nada. Quando eu era garoto, andei muitas vezes a roubar fruta. Íamos à noite, saltando muros devagarinho, sem fazer barulho e vínhamos de lá com a sensação de ter roubado um tesouro. Roubar fruta era uma forma de valorizar a fruta enquanto elemento simbolicamente importante de um ponto de vista económico. Aqueles figos, porém, não têm qualquer importância e aquele homem está ali com um saco de plástico a apanhar figos no meio da rua como se estivesse numa paragem de autocarros com o saco de plástico do hipermercado à espera de ir para casa.
Daí o dramatismo da situação. Estar ali, no meio de uma rotunda, numa larga avenida urbana com separador central, fez-me pensar nos velhos índios domesticados nas suas reservas. Já não eram índios mas fantasmas de índios. Aquele homem, tal como as figueiras e o casal de mármore, também está em vias de deixar de existir. Não apenas enquanto ser vivo, ser mortal, homem que irá morrer, mas por deixar igualmente de existir o que lhe deu sentido enquanto homem. Ele vai morrer como homem mas também vai morrer tudo o que deu sentido à vida daquele homem. Nasceu com as figueiras mas já não irá morrer com as figueiras.  É, de certo modo, um fantasma. Um fantasma em vias de ficar como o casal de mármore que finge trabalhar. Ele também pensa que está a apanhar figos para comer. E, aparentemente, até está.
Mas o que ele está mesmo ali a fazer é a despedir-se de um tempo que já não existe: o seu tempo. No fundo, o que ele está ali a fazer é a despedir-se de si próprio.

7 comentários:

josé manuel chorão disse...

Pois, mais uma vez, não concordo com a tua interpretação.Não mo leves a mal.
A mim parece-me triste essa domesticação da figueira, cuja vocação é dar figos a comer, esse atraiçoamento à natureza da figueira que se vê travestida em escultura rodeada de gente falsa que finge que apanha figos.
Em vez de te apiedares dele, devias ter agradecido ao velhote. Por ter devolvido à figueira a sua genuinidade, por lhe ter devolvido a verdadeira natureza que é a sua, a de fornecer bons (espero eu que não os provei) figos a quem com eles se deliciará.
Triste sociedade esta que exibe a Natureza como se um brinquedo fosse. A Natureza é digna. E dignos são os homens que figos comem.

Alice N. disse...

Que belo texto! Despedir-se de si próprio é pior do que morrer. Oxalá o velhinho não o saiba e se fique pelo sabor do fruto.

Há na cidade onde vivo uma rotunda enorme. Descomunal para as necessidades da cidade, com um vastíssimo e inútil espaço relvado e um muro comprido ao fundo de onde cai água com abundância para um pequeno “lago” logo abaixo. É a “barragem” da cidade, mas é sobretudo “a” rotunda.

Inútil? Pelos vistos, não. Quando foi inaugurada com pompa e circunstância a grande obra do Senhor Presidente, não faltou orgulho e entusiasmo na cidade, começando pelo Senhor Presidente, é claro. Não me lembro de alguma vez ter visto rotunda assim apetrechada noutra cidade, dentro e fora de Portugal. Não por ser grande, pois já vi algumas maiores, mas por aquilo que lá tem. Para meu espanto, ao passar por ali em algumas noites sufocantes de Verão, vi várias vezes a rotunda, esse espaço muito rotundo mesmo, transformado em jardim: as pessoas na rotunda, as pessoas deitadas na relva, os jovens a namorarem na rotunda, os filhos a brincarem junto à agua da rotunda... Assim, serena e alegremente usufruindo da rotunda, com os carros girando à sua volta. Caricato e triste. Ninguém ali estaria a despedir-se de si próprio, mas havia ali também uma perda, sem dúvida, uma triste perda...

estela disse...

concordo com o primeiro comentário, do José Chorão.
na contemplação do velhote, estiveste a despedir-te de ti, de toda a fruta que alguma vez roubaste, de todos os figos silvestres e livres, do passado a fingir-se presente no mármore frio da rotunda, fustigada pela mázinha da cidade.

José Ricardo Costa disse...

Estela, com essa agora é que tu me tramaste...

Beijinho,

JR

jrd disse...

Que pena não existirem figueiras na rotunda do marquês, já que velhos não faltam e alguns terão fome de figos e afectos.

Mafalda disse...

Relativamente ao primeiro comentário, penso que se podem considerar as duas interpretações simultaneamente.
O senhor que apanhava os figos poderia estar a fazê-lo relembrando tempos passados, recuando para algo agora inexistente, numa nítida contradição. O que se lembrava dos seus tempos era de como os figos eram dignificados e, provavelmente, poderia estar a "devolver a genuidade à figueira", a pureza que tão nostalgicamente recorda.
Poderia estar conscientemente a oferecer à figueira dignidade, enquanto esta e os seus frutos lhe ofereciam em troca um pedaço doce do seu passado simples.

C.M. disse...

Que texto!

Sinto-o bem meu, pois que me recordou os figos apanhados na minha juventude, o tempo da infância e adolescência em que fui de algum modo feliz, no campo, naquelas férias "grandes" que eram mágicas, em que o Tempo parecia ser todo nosso, e o cheiro deste Portugal único. Já só o encontro quando ali vou à Beira Baixa, mas é muito doloroso revisitar os lugares onde fomos felizes e onde estavam todos presentes... Hoje está tudo morto...