08 setembro, 2010

KITSCH



Há dias, o meu filho de 12 anos resolveu caminhar comigo de manhã.
Durante o percurso passámos por uma casa em construção mas que está praticamente concluída. A casa é bonita. Reproduz uma construção antiga. Mas há nela um pormenor que a torna diferente. Em ambas as paredes laterais, prolongam-se duas pequenas paredes com janelas abertas, como se fossem os restos de uma parte da casa (aparentemente antiga) que, entretanto, tivesse ficado em ruínas.
Eu não sei se a intenção será mesmo a de sugerir um ambiente de ruínas enquanto parte de uma casa que parece antiga (reforçando, desse modo, essa aparência), ou se aquelas paredes estão ali apenas para tapar qualquer coisa que não deve ser vista do exterior.
Só que aproveitei a situação para poder explicar ao meu filho um conceito que certamente não conheceria: o kitsch.
O que é o kitsch? Fala-se de kitsch quando se pretende reproduzir artificialmente uma realidade que, no seu contexto natural e genuíno, possui um grande valor estético e artístico, do qual emana uma natural dignididade, eloquência, majestade, provocando assim no espectador um dado sentimento ou emoção.
Vou dar exemplos. Eu detesto e sempre detestei discotecas. Mas as contingências da juventude levaram-me algumas vezes a elas. Aqui, em Torres Novas, havia uma discoteca na qual, para marcar o início do momento em que as pessoas poderiam começar a dançar, se apagavam as luzes e começava a tocar a famosa música de Strauss, do Assim Falava Zaratustra, conhecida por estar associada ao 2001, Odisseia no Espaço, e com os holofotes da discoteca, em grande ritmo, a acompanharem o grande momento épico, como se Nosso Senhor Jesus Cristo estivesse prestes a descer à Terra. Um deslumbramento, portanto.
A música no filme de Kubrick tem um valor que é perfeitamente justificado pelo conteúdo daquele. Porém, usar aquela música na discoteca para transformar aquele espaço e aquele tempo num espaço e tempo épicos, como se algo de muito importante viesse transformar a vida daquelas pessoas, torna-se não só artificial e plastificado como ainda ridículo.
Há quem confunda o kitsch com o piroso. Não é correcto fazê-lo pois são categorias estéticas distintas. Já ouvi dizer, por exemplo, que as canções da Ágata ou do Marco Paulo são kitsch. Não. As canções da Ágata são simplesmente pirosas. Há coisas pirosas que podem ser kitsch ou não, há coisas kitsch que podem ser pirosas ou não.
Mas vamos supor que a Ágata canta uma coisa com um qualquer fundo sinfónico (lembrando o Hino da Alegria) pelo meio e que, com uma letra pobre e poeticamente nula, tenta dar um sentido épico à sua mensagem. Sei lá, cantando (ou declamando) um mundo onde todos nós seremos irmãos, todas as crianças sorrirão permanentemente, onde as armas serão destruídas, um mundo em que nunca mais haverá noite, brilhando apenas um sol radioso que ilumina as nossas vidas. Ora, isto, para além de piroso seria kitsch.
Mas por que razão não é kitsch o Hino da Alegria integrado na 9ªSinfonia de Beethoven? Não é apenas pela qualidade literária e musical do andamento mas porque aquele poema e aquela música revelam uma linguagem associada àquele contexto histórico e cultural. A intenção de Ágata ao cantar aquilo poderá ser a melhor. Mas soa mal, artificial, uma fraca e pobre imitação de qualquer coisa que, na sua originalidade e espontaneidade, tem um enorme valor. E, insisto, não penso apenas no valor artístico mas igualmente no contexto histórico que lhe oferece os quadros mentais, estéticos, culturais, políticos que estão na sua origem.
É neste sentido que construir, de raiz, umas ruínas, pode ser kitsch.
E foi precisamente isso que expliquei ao meu filho. Até porque ele já andou por algumas. As ruínas têm uma dignidade e eloquência próprias que estimulam naturalmente um sentimento de nostalgia e uma aura de mistério. Construir, de raiz, ruínas, não deixa por isso de ser qualquer coisa de esteticamente deplorável. Porque é artificial, falso, uma simples imitação.
Ora bem, acabando eu de explicar o que é o kitsch, perguntei-lhe então se ele tinha percebido. Ele encolheu os ombros e disse achar que sim.
No dia seguinte, também aqui em Torres Novas, ao passarmos os dois por uma rua, vi uma casa antiga que acaba de ser restaurada e já pintada. Pintada com um vermelho sangue de boi que se usava muito antigamente e que eu gosto muito de ver numa casa antiga. E comentei com ele o facto de estar agradavelmente surpreendido com aquele restauro e aquela cor (ao dizer isso, obriguei-o a ver. Ensinar é também obrigar a ver o que não se veria se outra pessoa não dissesse para ver).
Foi então que ele me perguntou se aquilo era kitsch! Eu fiquei duplamente satisfeito. Antes de mais, por ter ouvido sair da boca do meu filho, espontaneamente, a palavra kitsch. Mas também porque a pergunta estava muito bem contextualizada. Ou seja, ele soube fazer a pergunta num contexto onde, de facto, poderíamos discutir a legitimidade daquela cor algo difícil segundo os padrões actuais, diga-se, excessivamente convencionais.
E eu respondi que não. Nada kitsch. Porque apesar de pintada agora, estaria a adquirir uma cor que poderia perfeitamente ter adquirido no momento em que foi construída. A tinta é nova, está fresca, mas é uma tinta que vai permitir àquela casa reforçar a sua natural identidade, como se fosse a sua tinta original.
Naquele momento, o momento em que ele me pergunta se aquela casa restaurada e pintada de vermelho era kitsch, apesar de estar confuso e não saber bem a resposta, percebi finalmente que ele tinha entendido o que é o kitsch.
Ser capaz de fazer certas perguntas é meio caminho andado para poder obter a respostas.

12 comentários:

Anónimo disse...

Vamos lá a ver se também eu aprendi a lição.

Então o Michael Jackson e o seu macaquinho são também uma obra Kitsch de Jeff Koon, pois o material utilizado, a porcelana, bem como o dourado ali aplicado, procura recuperar, ou melhor, emprestar, a nobreza de um material, a porcelana, ao mesmo tempo que faz uma escultura com um ícone pop. Pode-se por isso dizer que é Kitsch então?

Ou, pelo contrário, há neste trabalho de Jeff Koon uma segunda leitura? Com um ícone pop, um macaco e um material nobre. Haverá uma crítica implícita? Pop+macacada+dinheiro para o material nobre. E a valorização que a sociedade dá a esses materiais permite discorrer mais um pouco talvez, mas esse trabalho deixo para o meu filósofo favorito, o amigo José Ricardo.

Luís

José Ricardo Costa disse...

Eu creio que o Koons partiu do seguinte pressuposto: se eu fizer uma coisa consciente e assumidamente kitsch, deixa de ser kitsch. Não me parece que ele usasse a arte para criticar, desestabilizar ou pôr em causa o que quer que fosse. Tal como o outro da Factory, acordou um dia de manhã com aquela ideia e, posteriormente, explorou-a até ao limite. Nesse aspecto, tem o seu mérito. Olhamos para certos objectos ou quadros e sabemos logo que são do koons. Será, se quiseremos, um kitsch chic que se esgota ali mesmo. Vale o que vale. Que seja muito feliz.

jrd disse...

Obrigado pelo texto.
Finalmente consegui cindir os conceitos de kitsch e piroso.
Arrisco mesmo exemplificar: Kitsch será uma casa sumptuosa "estilo maison". Piroso será o "novo rico" que a construiu.

(Está boa "essa do Queiroz" no bth.)

Anónimo disse...

A primeira vez que "ouvi" o termo kitsch foi n´A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera. Mais tarde, nas aulas de História da Arte. No entanto, ainda, inevitavelmente, associo o termo àquilo que considero corriqueiro, brejeiro.
A sua explicação, Ricardo, foi muito boa. Obrigada.
Helena

José Ricardo Costa disse...

Cara Helena, pode, a partir do Kundera, explorar o conceito de um ponto de vista político, sobretudo no caso do nazismo e dos regimes comunistas. Por cá, o Vangelis associado ao PS também me fez alguma pele de galinha...

Caro jrd, creio que este Queiroz será alguém que levou com as Farpas e não tanto alguém que as escreveu...

addiragram disse...

Vamos continuar a ouvir discorrer sobre esses passeios peripatéticos, porque certamente, todos nós, ganhamos.

um abraço

Rita TSBGC disse...

Um Professor ( Personagem única) MAnuel Rio-de -Carvalho, serenou a minha alma, há mais de vinte anos quando me apresentou o conceito Kamp.
O Kitsh assumido, descontruído e risível é Kamp !!!!
Cumprimentos !!!

José Ricardo Costa disse...

Kamp? Boa, mais um conceito para a colecção. Portanto, o Koons será kamp. Um dia, ao escrever a sua autobiografia poderá intitulá-la de "Mein Kamp".

marga disse...

será que podia passar no blog, espreitar as crónicas que ando para lá a escrevinhar e dizer se acha se são kitsch ou outra coisa qualquer? Gostava de ter a sua opinião :)

Rita TSBGC disse...

Confesso não ter a certezas acerca da etimologia estética e ética a aplicar a um cavalheiro que desposou a Srª Ilona Stalker, exibicionista? é uma categoria a considerar, aqueles para quem o golpe de marketing supera o golpe do génio...

José Ricardo Costa disse...

Rita,

Marketing. Nada mais a acrescentar.

Margaridaa disse...

Eu li e fiquei a pensar.Porque este assunto, o kitch, já o tinha conversado com quem calhou, mas não chegámos a conclusão nenhuma. Seria que kitch era a mesma coisa que piroso? E piroso, como é que se pode definir?

Gostei muito desta explicação.:D